sexta-feira, 10 jul. 2026

O calor que dói: as temperaturas altas provocam dores de cabeça e enxaquecas. Saiba porquê

Não é coincidência: quando o termómetro sobe, as dores de cabeça também aumentam. A ciência explica o mecanismo, e há grupos que precisam de ter atenção redobrada.
O calor que dói: as temperaturas altas provocam dores de cabeça e enxaquecas. Saiba porquê

Com o verão instalado e as temperaturas a bater recordes, muitas pessoas chegam ao final do dia com uma dor de cabeça que não existia de manhã. A sensação é comum, mas a explicação vai muito além do cansaço ou do sol na cara.

A ligação entre calor e dores de cabeça é sustentada por investigação científica crescente. Um estudo apresentado na reunião científica anual de 2024 da American Headache Society concluiu que, por cada subida de 5,5 graus Celsius na temperatura exterior, existe um aumento de 6% na ocorrência de dor de cabeça nesse dia, com base nos diários clínicos de 660 doentes com enxaqueca. O número parece modesto, mas em dias de vaga de calor, quando as temperaturas sobem dezenas de graus, o risco acumula-se de forma significativa.

O fenómeno não é igual para toda a gente. Há quem sinta uma pressão surda na testa, quem desenvolva uma enxaqueca incapacitante e quem pareça imune. A diferença está nos mecanismos que o calor activa, e em como cada organismo responde.

Como é que o calor provoca dor de cabeça?

O corpo humano necessita de água para regular a temperatura interna. Quando está calor, transpira mais, e se a reposição de líquidos não acompanhar essa perda, instala-se a desidratação. A Cleveland Clinic explica que, quando o organismo está desidratado, o cérebro e outros tecidos contraem-se ligeiramente. À medida que o cérebro perde volume, afasta-se do crânio, exercendo pressão sobre os nervos ao seu redor, o que origina a dor. O que muita gente desconhece é que a sede já é um sinal tardio: quando a sente, a desidratação já começou.

Mas a água não é o único factor. A neurologista Rashmi Halker Singh, da Mayo Clinic, explica que, para muitos doentes com enxaqueca, o brilho intenso da luz solar é um gatilho frequente, a par da humidade elevada, do calor extremo e do ar seco. Estas condições podem provocar desequilíbrios nos químicos cerebrais que, em pessoas susceptíveis, culminam numa crise de enxaqueca.

Existe ainda um canal receptor no sistema nervoso que parece desempenhar um papel central neste processo: de acordo com investigação apresentada na mesma reunião da American Headache Society, o canal iónico TRPM3, sensível ao calor e expresso nas meninges e no gânglio trigeminal, está associado à neuroinflamação que desempenha um papel fundamental na patofisiologia da enxaqueca. Em termos práticos, o calor pode ativar diretamente circuitos de dor no sistema nervoso de quem tem predisposição para esta condição.

Quem corre mais riscos?

Nem toda a gente tem a mesma vulnerabilidade ao calor. Há grupos que devem ter atenção especial:

  • Pessoas com historial de enxaqueca. Têm um sistema nervoso mais reactivo a estímulos externos, incluindo variações de temperatura e luz.

  • Crianças e bebés. De acordo com a Mayo Clinic, são o grupo com maior risco de desidratação, em parte porque frequentemente não conseguem comunicar que têm sede, nem obter água por si próprios.

  • Adultos com mais de 65 anos. Com o envelhecimento, a reserva de fluidos do organismo diminui, a capacidade de reter água reduz-se e a sensação de sede torna-se menos fiável.

  • Quem pratica exercício ao ar livre. A transpiração intensa acelera a perda de líquidos e electrólitos, tornando a desidratação um risco rápido.

  • Quem sofreu uma insolação. Uma análise publicada em Setembro de 2025 no NCBI revelou que quem sofreu insolação tem mais do dobro do risco de desenvolver enxaqueca nos cinco anos seguintes, em comparação com quem nunca teve insolação. Os investigadores acompanharam quase 6000 casos registados em mais de mil consultórios médicos na Alemanha ao longo de quase duas décadas.

Calor e enxaqueca: perguntas que toda a gente faz

A enxaqueca de verão é diferente de uma dor de cabeça por desidratação?

Sim, embora possam surgir em simultâneo. A dor de cabeça por desidratação costuma aliviar rapidamente com ingestão de água e repouso. A enxaqueca é uma condição neurológica mais complexa, com crises que podem durar entre 4 a 72 horas, acompanhadas de náuseas, vómitos e sensibilidade intensa à luz e ao som. A desidratação pode aumentar o risco de desencadear uma crise em quem tem predisposição para a doença.

A humidade piora a situação?

Sim. Investigadores japoneses que analisaram dados de uma aplicação de monitorização de cefaleias, num estudo publicado na revista científica Headache, verificaram que as dores de cabeça eram mais frequentes em dias com maior humidade, mais precipitação e variações de pressão barométrica. O corpo tem mais dificuldade em arrefecer quando o ar está saturado de humidade, o que aumenta a transpiração e acelera a desidratação.

A insolação pode mesmo causar enxaquecas crónicas?

Os dados sugerem que sim. No estudo do NCBI publicado em 2025, 8,8% dos doentes que sofreram insolação desenvolveram enxaqueca nos cinco anos seguintes, contra apenas 4% no grupo de controlo sem insolação. Prevenir a insolação não é apenas uma questão de bem-estar imediato: pode ter consequências neurológicas a longo prazo.

Sinais de alarme: quando ir ao médico

Nem toda a dor de cabeça é benigna. Há sinais que exigem avaliação médica urgente e não devem ser ignorados:

  • Dor de cabeça súbita e muito intensa, diferente de qualquer outra que já teve

  • Dor acompanhada de febre alta, rigidez na nuca ou confusão mental

  • Dificuldade em falar, visão turva ou fraqueza num lado do corpo

  • Dor de cabeça que persiste após hidratação e repouso, com sintomas de desidratação grave

  • Sinais de desidratação severa como delírio, confusão, pele seca e enrugada e respiração rápida e profunda

Perante qualquer um destes sinais, não aguarde: procure ajuda médica imediatamente.

Como se proteger: o que realmente funciona

A prevenção começa antes de sentir a dor. Estas medidas têm base nas recomendações da Mayo Clinic e da Cleveland Clinic:

  • Beba água ao longo do dia, sem esperar pela sede. Quando a sede aparece, a desidratação já começou. Estabeleça o hábito de beber regularmente, mesmo sem sentir necessidade.

  • Evite as horas de maior calor. O período entre as 11h e as 17h é o mais crítico. Se tiver de sair, procure sombra e reduza a actividade física.

  • Use protecção solar e óculos de sol. O brilho intenso é um gatilho documentado de enxaquecas e pode agravar qualquer dor de cabeça.

  • Não negligencie os electrólitos. Quando transpira muito, perde não só água mas também sódio e potássio. Frutas, vegetais e, em situações de esforço físico prolongado, bebidas isotónicas, ajudam a repor esse equilíbrio.

  • Evite álcool e cafeína em excesso nos dias quentes. Ambos têm efeito diurético e contribuem para a perda de líquidos.

  • Mantenha ambientes frescos, especialmente durante o sono. O descanso reparador é essencial para quem tem tendência para enxaquecas.

  • Se tem enxaqueca diagnosticada, fale com o seu médico antes do verão. Pode ser necessário ajustar o plano de tratamento preventivo em função das condições sazonais.

O calor do verão é inevitável. A dor de cabeça que traz consigo não tem de ser. Conhecer os mecanismos, identificar os sinais de risco e adoptar medidas preventivas simples pode fazer a diferença entre um verão funcional e dias perdidos com a cabeça entre as mãos.