Nova moda da fertilidade: "trimestre zero" promete aumentar as hipóteses de engravidar, mas ciência levanta dúvidas

É uma tendência que tem sido vista com bons olhos, aparentemente inofensiva e até saudável. No entanto, as promessas não são comprovadas cientificamente.
Nova moda da fertilidade: "trimestre zero" promete aumentar as hipóteses de engravidar, mas ciência levanta dúvidas

As redes sociais são o palco para tendências de beleza, de moda e de lifestyle, geralmente direcionadas a promover estilos de vida e de rotinas alimentares. Mas será que já tinha surgido uma tendência para quem quer engravidar?

Chamam-lhe o "trimestre zero". No fundo, funciona como um "trimestre de preparação" para mulheres que queiram engravidar. Este tem sido promovido por influenciadores e criadores de conteúdo como um período dedicado a mudanças intensas de estilo de vida, alimentação, rotina de saúde e toma de suplementos.

É uma tendência que tem sido vista com bons olhos, aparentemente inofensiva e até saudável: promete preparar o corpo, não só para aumentar a fertilidade, mas também melhorar a qualidade dos óvulos e reduzir o risco de aborto espontâneo. No entanto, as promessas não são comprovadas cientificamente.

“O conceito tem uma base biológica real: tanto o óvulo quanto o espermatozoide levam cerca de 90 dias para amadurecer, e o que a mulher e o homem vivem nesse período pode, sim, influenciar a qualidade dessas células”, explica o ginecologista e obstetra Denis Schapira Wajman, especialista em reprodução humana do Einstein Hospital Israelita, citado pelo Metrópoles.

Contudo, não significa que esse trimestre de mudanças intensas vá necessariamente melhorar a fertilidade de uma pessoa. Um estudo de 2025 do Human Reproduction Update, que avaliou os dados de mais de sete mil mulheres, concluiu que alterações no estilo de vida antes da gravidez não aumentam significativamente a fertilidade naquelas que já eram consideradas saudáveis.

"Os benefícios apareceram principalmente em mulheres com obesidade, infertilidade diagnosticada ou problemas metabólicos, ou seja, quem já tinha algo a corrigir", reforça o especialista e acrescenta: "O trimestre zero faz sentido como correção de risco, não como otimização mágica para quem já tem saúde preservada".

No entanto, apesar de ser uma tendência que não apresenta grande perigo para as mulheres, especialistas alertam para o risco dos radicalismos, que incluem dietas extremamente restritivas, perda de peso acelerada e sem supervisão, treinos intensos. O alerta sublinha que estas práticas podem mesmo ter o efeito contrário: desregular o sistema hormonal da mulher responsável pela ovulação.

Como efeito colateral, surge ainda a ansiedade. “Níveis elevados de stress e ansiedade no período pré-concepcional estão associados a maior dificuldade para engravidar, ciclos irregulares e maior risco de anovulação [ausência de ovulação]”, explica o médico.

Esta tendência tem sido alimentada por uma ideia irreal: a de que a gravidez pode ser planeada com precisão. Na prática, casais saudáveis têm cerca de 20 a 25% de hipótese de engravidar em cada ciclo menstrual.

O que pode realmente fazer a diferença

Apesar de, em mulheres já com hábitos saudáveis, as práticas do "trimestre zero" não terem grande impacto, estas podem ter efeito naquelas que apresentam fatores de risco.

Parar de fumar, reduzir o consumo de álcool e controlar o peso pode diminuir o risco de malformações e de aborto espantâneo durante a gestação. Nestes casos, os especialistas aconselham que o "trimestre zero" dure até mais do que três meses.

Além disto e de forma transversal, a suplementação de ácido fólico não é uma ideia errada nesta altura da vida da mulher antes de pensar em engravidar. Mas lembre-se: deve ser sempre aconselhada por um especialista da área.

Também o cuidado com produtos de higiene pessoal que possam ser considerados "tóxicos" é aconselhável, principalmente devido a substâncias que são "disruptores endócrinos", isto é, que interferem nos sistemas hormonais do ser humano.

De qualquer forma, com ou sem "trimestre zero", é fundamental que o casal seja acompanhado por um profissional de saúde, uma vez que a saúde deve ser uma prioridade contínua e não apenas na fase de constituir família.