A explosão do conceito começou com um vídeo no TikTok: “Tu vais com ele para as montanhas e ele deixa-te sozinha e percebes que ele nunca gostou de ti para começar”. Foi esta a frase de uma rapariga nas redes sociais que chocou os utilizadores. Uma simples caminhada com aquele que acreditava ser o amor da sua vida revelou-se um padrão - e que é partilhado por centenas de mulheres.
O que é o divórcio alpino?
Na realidade, o termo não é reconhecido oficialmente nem legalmente. Foi criado em 1893, pelo escritor escocês-canadiano Robert Barr, que escreveu um conto sobre um marido que planeava matar a sua mulher nos Alpes Suíços.
O termo ganhou outras dimensões quando uma mulher austríaca morreu congelada após ter sido deixada no Grossglockner, o ponto mais alto da Áustria. O namorado, um alpinista, foi condenado, no início deste ano, por homicídio voluntário.
Thomas P. foi acusado de fingir não ter rede para não atender as chamadas dos meios de socorro e de não ter enviado, posteriormente, ajuda para a namorada quando disse que o ia fazer. Durante o julgamento, surgiu um novo testemunho: uma ex-namorada do austríaco confessou que lhe teria acontecido o mesmo. A mulher foi deixada na mesma montanha em 2023, após Thomas P. a ter considerado “demasiado lenta”.
Foi a partir destes testemunhos que começou a surgir uma tendência nas redes sociais: “Este é um vídeo meu a fazer uma trilha, a tentar tirar o melhor da viagem enquanto o rapaz com que eu estava numa relação ambígua estava muito à minha frente”.
Os vídeos deste género acumulam milhões de visualizações nas redes sociais.
Há psicologia por detrás do termo?
A psicóloga comportamental e coach de relacionamentos Jo Hemmings explicou à CNN Internacional que há uma dinâmica identificável por detrás destes comportamentos nos homens. “Estes homens provavelmente não têm empatia e compaixão, e evitam conflitos, preferindo afastar-se”, explica, reiterando que costumam distanciar-se emocional e fisicamente dos outros quando estão sob stresse. “Eu vejo esse tipo de comportamentos frequentemente nas minhas consultas: um parceiro, geralmente o homem, com uma parceira mulher, que se afasta quando lhe fazem perguntas ou sai mesmo da sala e desiste completamente do meu aconselhamento”.
Já o terapeuta norte-americano Doriel Jacov explica ao The Guardian que o ênfase na força, independência e estoicismo do homem pode ter impacto na forma como lidam com os relacionamentos. "A masculinidade parece desempenhar um papel na forma como o divórcio alpino se manifesta na vida real", explica.
Quais são os motivos para o abandono?
Os psicólogos sublinham que os motivos podem variar desde um ato premeditado de maldade até uma decisão impulsiva.
Hemmings explica que só se pode verificar um transtorno de personalidade se a vítima for atraída para um local potencialmente perigoso e abandonada de forma deliberada. Se, por outro lado, o agressor se chateia e abandona de forma espontânea, então essa é uma ação desencadeada pela impaciência e falta de controlo.
Porque é que se tornou um conceito comum a várias mulheres?
Na realidade, aquilo que é comum a várias mulheres não é necessariamente o cenário montanhoso (embora essa situação tenha sido replicada várias vezes nos relatos das redes sociais). O que é transversal baseia-se no isolamento emocional ou até no “abandono dentro de uma relação”.
A psicóloga explica que o cenário de montanha e caminhada adiciona uma dimensão perigosa à situação. São atividades com uma hierarquia instantânea, geralmente com o homem a liderar, conduzir e definir o ritmo. “Seguir em frente e recusar adaptar-se ao outro pode ser interpretado como uma forma subtil de afirmar autoridade e controlo”, afirma Hemmings.
O conceito só se aplica a parceiros românticos?
Embora este conceito esteja altamente ligado a parceiros românticos, isso nem sempre se verifica. Há outros testemunhos de mulheres abandonadas por figuras masculinas em quem julgavam poder confiar: falamos de pais, irmãos ou melhores amigos.
Laurie Singer é uma das mulheres que contou a sua história publicamente. Em 2016, aos 56 anos, Singer decidiu partir numa aventura e fazer a trilha John Muir, que atravessa a cadeia montanhosa da Sierra Nevada, na Califórnia, que se estende por 357 quilómetros. É uma trilha que, para alguém com uma condição física considerada média, demora duas a três semanas a completar.
Ela foi com um dos seus melhores amigos, que já teria feito aquela trilha anteriormente e tinha mais experiência.
Poucos dias após o início da caminhada, Singer começou a sentir-se mal devido à altitude - em nenhum momento o seu amigo abrandou o passo. "Ele continuava a andar à minha frente e eu não conseguia acompanhá-lo por causa do mal estar provocado pela altitude", explica à CNN. "Por exemplo, numa noite, estávamos a caminhar até tarde. Ele estava tão à minha frente, eu estava com tanto medo. Eu gritava o nome dele e não ouvia nada", recorda.
Depois de uma hora separados, quando Singer conseguiu encontrá-lo este disse-lhe que estava a testá-la para ver se sobreviveria.
Os dias passaram e Singer continuava a piorar. A certa altura, o seu amigo sugeriu que se separassem e que ela seguisse o caminho oposto para procurar ajuda enquanto ele continuava na rota planeada. Mandou-a embora apenas com uma barra energética para comer e despejou o lixo que tinham na mala dele para "a dele ficar mais leve". "Eu não sabia o comprimento da trilha, mas sabia que precisava de ajuda", lembra.
Após 12 quilómetros, encontrou outro grupo que lhe ofereceu comida e direções.
O seu processo de recuperação daquela trilha demorou semanas.
"Eu não percebia o quão importante era participar no processo de planeamento, mas ele assumiu o papel como uma espécie de mentor, de certa forma, e não o era. Ele simplesmente deixava as pessoas sozinhas. Quem é que faz isso?", lamenta.
Olhando para trás, Singer deixa um alerta: "Não importa o quanto aches que conheces a pessoa (com quem estás a caminhar), deves sempre ser autossuficiente".
Embora o "divórcio alpino" tenha nascido de histórias passadas em trilhos e paisagens remotas, e agora seja um conceito nas redes sociais, este tornou-se um símbolo de algo mais profundo: a sensação de abandono por parte de alguém em quem se confiava.
Para psicólogos, o fenómeno serve de alerta para comportamentos que podem passar despercebidos no quotidiano, mas que revelam desequilíbrios nas relações. E, para mulheres como Laurie Singer, a principal lição permanece simples: por mais próxima que pareça uma relação, nunca se deve abdicar da própria autonomia e segurança.