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Perdeu as chaves? Mercúrio. O computador ‘pifou’ no pior momento? Mercúrio. Aquela discussão inexplicável com o colega de trabalho? Ah, já sabe: deve ser Mercúrio retrógrado. A expressão tornou-se quase um mantra moderno, uma espécie de desculpa cósmica para quando tudo parece conspirar contra nós. Quinta-feira, 26 de fevereiro, o primeiro período de Mercúrio retrógrado de 2026 inicia-se oficialmente, trazendo consigo três semanas de avisos astrológicos e, inevitavelmente, uma onda de cautela nas redes sociais.
Mas antes de cancelar aquela viagem ou adiar a assinatura de contratos importantes, vale a pena perceber o que realmente acontece quando Mercúrio decide, aparentemente, andar para trás no céu e o que a ciência tem a dizer sobre isso.
O que é, afinal, Mercúrio retrógrado?
Do ponto de vista astronómico, Mercúrio retrógrado é um fenómeno perfeitamente explicável e, curiosamente, até previsível. Três a quatro vezes por ano, durante cerca de três semanas, o planeta mais próximo do Sol parece inverter a sua trajetória no céu noturno. A palavra-chave aqui é "parece".
"É uma ilusão de ótica causada pela posição da Terra em relação ao planeta", explica a NASA. Imagine que está a conduzir numa autoestrada e ultrapassa um carro mais lento noutra faixa. Por breves instantes, esse carro parece estar a andar para trás em relação a si, embora continue a avançar. É exatamente isso que acontece quando a Terra, na sua órbita mais lenta, ultrapassa Mercúrio ou quando Mercúrio, muito mais rápido, nos ultrapassa a nós.
Mercúrio completa uma volta ao Sol em apenas 88 dias terrestres, o que explica por que este movimento retrógrado aparente acontece com tanta frequência. Outros planetas também o fazem, mas com menor regularidade. Na realidade, nenhum planeta inverte fisicamente a sua órbita. O movimento retrógrado é, portanto, uma questão de perspetiva, um truque celeste que os antigos astrónomos babilónios já documentavam em tábuas de argila há mais de 2700 anos.
De Babilónia aos dias de hoje: uma história cósmica
Os babilónios, que viam nos planetas manifestações de deuses, interpretavam o movimento retrógrado de Mercúrio como presságios relacionados com o destino de reis e nações. Na mitologia romana posterior, Mercúrio era o mensageiro dos deuses, associado ao comércio e à comunicação. Esta ligação permanece no centro das crenças astrológicas modernas: quando Mercúrio está "retrógrado", dizem os astrólogos, as comunicações falham, os transportes atrasam-se e os contratos devem ser evitados.
A popularidade desta crença cresceu especialmente nos anos 1970, quando a astrologia ressurgiu através dos horóscopos em jornais. Em 1979, o jornal norte-americano The Baltimore Sun aconselhava: "Não comece nada quando Mercúrio estiver retrógrado", alegando "tempestades magnéticas" que se intensificariam durante o período. Embora tempestades magnéticas existam em Mercúrio, as do pequeno planeta são as mais fracas do Sistema Solar e não há qualquer evidência de que afetem a Terra.
O que diz a ciência: gravidade, luz e coincidências
"Não há uma única evidência de que a ação dos astros interfira na vida da Terra", afirma categoricamente a astrofísica Rebecca Smethurst. "Nenhum movimento dos planetas influencia ou pode influenciar o que acontece na Terra."
Dhara Patel, especialista espacial do Centro Espacial Nacional do Reino Unido, reforça: "Embora a astronomia e a astrologia possam ter estado mais intimamente ligadas no passado, o consenso científico geral hoje é que fenómenos astronómicos como os dos planetas retrógrados não têm nenhum efeito previsível na vida das pessoas."
Mas e a Lua? Não afeta as marés? E se afeta as marés, não deveria afetar-nos também, já que somos compostos por 60% de água?
É uma lógica tentadora, mas enganadora. A força gravitacional da Lua sobre as marés é real porque atua sobre massas enormes de água ao longo de grandes distâncias. No entanto, essa mesma força sobre um corpo humano ou até sobre uma piscina olímpica é absolutamente negligenciável. A diferença de atração gravitacional entre a cabeça e os pés de uma pessoa é ínfima, muito menor do que a força exercida por um telemóvel na mão.
Dito isto, a ciência não descarta completamente a influência lunar em certos aspetos biológicos. Estudos recentes, publicados em revistas como a National Geographic e o Journal of Experimental Botany, sugerem que o ciclo lunar pode ter efeitos subtis em algumas pessoas, especificamente no sono, no ciclo menstrual e em padrões de humor de pessoas com perturbação bipolar.
O fenómeno do viés de confirmação
Então por que razão tantas pessoas acreditam que Mercúrio retrógrado as afeta?
A resposta pode estar na psicologia cognitiva e num fenómeno chamado viés de confirmação: a tendência de acreditar ou recordar informações que correspondem às nossas crenças pré-existentes. "A astrologia oferece uma explicação rápida e fácil de tudo o que pode acontecer às pessoas, sem que elas tenham que examinar ou investigar os possíveis motivos reais e as múltiplas camadas dos seus problemas", explica a psicóloga clínica Zeinab Ajami.
Quando ouvimos que Mercúrio está retrógrado e que devemos esperar problemas de comunicação, começamos naturalmente a prestar mais atenção a esses problemas, ignorando que emails perdidos, discussões e falhas tecnológicas acontecem a qualquer momento, independentemente da posição de Mercúrio no céu.
Rebecca Smethurst compara o fenómeno aos horóscopos: "É preciso deixar algo muito claro: não há estudos que demonstrem uma relação disso com o comportamento das pessoas. O que acontece é um reforço positivo".
Mercúrio retrógrado em 2026: o calendário
Para quem prefere estar preparado, por via das dúvidas ou por respeito à tradição, eis as três fases de Mercúrio retrógrado em 2026:
1.º ciclo: 26 de fevereiro a 20 de março
2.º ciclo: 29 de junho a 23 de julho
3.º ciclo: 24 de outubro a 13 de novembro
Entre o céu e a terra
No fundo, Mercúrio retrógrado é um espelho perfeito da condição humana: procuramos padrões onde muitas vezes há apenas caos, atribuímos significado ao acaso e encontramos conforto em narrativas que nos ajudam a dar sentido ao mundo. Não há nada de errado nisso. Afinal, é o que os seres humanos fazem desde que olharam pela primeira vez para o céu estrelado.
A diferença é que, hoje, temos ferramentas para distinguir o que é ilusão de ótica do que é influência real, o que é crença do que é facto. Mercúrio vai continuar a "andar para trás" três vezes por ano, tal como sempre fez e sempre fará. O que fazemos com essa informação, se a usamos como desculpa, como ferramenta de reflexão ou simplesmente como curiosidade astronómica, depende exclusivamente de nós.
Porque, no final das contas, o céu pode inspirar-nos, mas são as nossas escolhas que determinam o rumo. Mesmo quando Mercúrio insiste em complicar.
Curiosidades sobre Mercúrio:
Mercúrio é o planeta mais pequeno do Sistema Solar, apenas ligeiramente maior que a Lua
A temperatura no planeta varia entre 430°C no lado exposto ao Sol e -180°C no lado noturno
Um ano em Mercúrio dura apenas 88 dias terrestres
Ao contrário da crença popular, Mercúrio não é o planeta mais quente. Vénus detém esse título
Tornados magnéticos formam-se na superfície de Mercúrio, feixes retorcidos de campos magnéticos que conectam o planeta ao espaço
Cientistas descobriram que Mercúrio está, de facto, a encolher.