Se viajar – tal como dizia Mário Quintana –, for realmente «mudar a roupa da alma», ela fá-lo constantemente. Além disso, escreveu o escritor francês André Gide que «o homem só pode descobrir novos oceanos se tiver coragem de perder a terra de vista». E ela também a tem. Começou a viajar aos 18 anos através de um projeto de voluntariado em Moçambique, enquanto estudava Comunicação Social. Fez ainda um intercâmbio em Macau e passou dois meses a viajar pelo Sudeste Asiático. Rapidamente percebeu que teria de continuar a conhecer o mundo. No entanto, não de uma forma «convencional». Determinada a crescer como viajante, em 2016, com apenas 21 anos, percorreu 11 países da Europa sozinha e à boleia. Partiu depois para o Nepal, onde esteve a dar aulas de português durante oito meses. A aventura seguinte foi na Guiné-Bissau, para onde foi com o propósito de trabalhar com crianças. E, o que começou como uma ação de voluntariado de curta duração, terminou com nove meses de trabalho no departamento de comunicação da UNICEF. Em 2019, arriscou ainda mais e traçou uma jornada de bicicleta desde a sua casa, em Carnaxide, até à Guiné-Bissau, com paragens por Marrocos, Mauritânia e Senegal. Desde então que também se sente em casa na ex-colónia, onde tem voltado várias vezes.
«Essas decisões de sair sozinha à boleia surgem sempre quando tu precisas de fugir ou de te encontrar», começa por afirmar Marta Durán, atualmente com 30 anos. Depois de três anos a estudar, já licenciada, estava um bocadinho perdida. Não sabia o que queria fazer. «Tinha tido um desgosto de amor e queria fugir, queria fugir para tentar encontrar alguma coisa que eu própria não sabia o que é que era. E acho que são esses momentos onde estás mais vulnerável que também te dão mais coragem para sair da tua zona de conforto e explorar. Estar mais disponível para desafiar os teus medos, os teus receios», continua. Entretanto encontrou o seu caminho e, hoje em dia, está sempre à procura de desafios novos. «Quando vou viajar já vou com um objetivo e não como se fosse uma fuga. Apesar de, não deixar de ser uma fuga da vida real. Eu às vezes brinco um bocadinho e digo: ‘Agora vou para a minha vida irreal’. Mas também cansa, também me farto, também quero voltar para casa. É um modo de vida que tenho», explica.
Dois meses à boleia pela Europa
A primeira paragem da sua viagem pela Europa começou na Suíça e, quase imediatamente, Marta percebeu que não era assim tão complicado conseguir boleias. A única coisa que tinha planeada era a estadia na casa de uns amigos de amigos, emigrantes portugueses. «A minha preparação é a não preparação», revela. Logo no avião, conseguiu a sua primeira boleia até Lausanne e, quando começou a esticar o polegar, os carros foram parando. Numa das vezes, avistou um jaguar com um senhor bem vestido ao volante. O seu plano era chegar à Alemanha nesse mesmo dia, mas este acabou por deixá-la longe. «Quando estava a sair, vira-se para mim e dá-me 10 euros: ‘Para tomares um café’, disse-me». Numa outra situação, um senhor acabou por lhe pagar o almoço, além de lhe ter dado boleia. «As pessoas tinham curiosidade sobre o que é que eu estava a fazer e o porquê de eu estar a viajar daquela forma. Queriam contribuir e ajudar-me. E não é que eu precisasse de dinheiro, porque era uma escolha minha fazer a viagem à boleia… Eu viajo sempre com dinheiro e não gosto de pedir em viagem, acho que não faz sentido. Acho que as pessoas também tiveram empatia por uma miúda, na altura com 21 anos, a viajar à boleia sozinha pela Europa», acredita.
Marta acredita que o facto de ser mulher facilitou: «Acredito que os tempos de espera sejam menores do que se eu fosse um homem. As pessoas olham para mim e pensam: ‘Vou-lhe dar boleia, não vá aparecer alguém que lhe queira fazer mal’. As mulheres também me dão boleia por ser mulher, os homens também… Claro que depois há o lado negativo. Há pessoas com más intenções», lamenta. E, logo nessa primeira aventura, apanhou um susto. «Um senhor tinha claramente segundas intenções. Quis levar-me para casa. Íamos a meio da autoestrada, gritei e ameacei chamar a polícia se ele não me deixasse na próxima estação de serviço. Acabou por parar. Fiquei muito assustada, mas nesse dia fiz mais 600 quilómetros de boleia», conta. «A maioria das boleias são super tranquilas. As pessoas estão só a dar. Dentro desta boleia péssima, todas as outras que eu tinha apanhado foram boas. Agarrei-me às boas experiências para esquecer essa», revela Marta Durán, acrescentando que para se viajar sozinha desta maneira, tem de se ter também um grande instinto, intuição… «Eu já neguei boleias. E não é por a pessoa ser branca, preta, amarela ou azul. É por feelings. É o chamado instinto feminino. A abordagem também é importante. Temos de estar atentas… Quando começam a perguntar: ‘Estás sozinha? Tens namorado? És casada?’. Às vezes pode ser mera curiosidade, mas, maioritariamente, não é. Portanto, tens que saber ou desviar, ou mentir. Muitas vezes eu digo que sou casada para ninguém me chatear», alerta.
A generosidade das pessoas
Numa outra viagem, na primeira boleia em direção a Marrocos, abordou um senhor numa bomba de gasolina em Almada. «Disse-lhe que ia para o Algarve. Ele também tinha o mesmo destino. ‘Mas o que é que você tem aí nessa mala? Não tem armas, pois não?’, perguntou-me. Fomos pela nacional e, durante a viagem, ofereceu-me almoço. A meio do caminho perguntou-me onde é que eu ia dormir. Disse-lhe que ia acampar. Convidou-me para ficar na casa dele. Eu perguntei se ele tinha a certeza, porque não queria incomodar. Ele disse-me uma coisa que ficou gravada até hoje: ‘Marta, quando te derem, aceita. Quando te tirarem, grita’. E fiquei lá a dormir. Quando ele disse que tinha espaço, não pensei que tivesse aquela casita na Marina Vilamoura… Nunca tinha ficado tão bem localizada nas minhas férias no Algarve», brinca.
Outro dos momentos que mais a marcou foi quando conheceu um casal, em Marrocos, que percorreu 600 quilómetros só para a deixar num sítio. «Eu queria ir para Marraquexe. Um casal deu-me uma boleia e convidou-me para ficar na casa deles. Iam fazer um grande jantar de família. Acabámos por passar três dias juntos… Acampámos. No último, quando me iam levar à estação, estranhei estarmos tão longe. Até que me disseram que me iam levar mesmo a Marraquexe, que já estavam com saudades minhas», recorda.
Desafios e essenciais
Uma das aventuras mais desafiantes foi ir para a Guiné-Bissau de bicicleta. Saiu de Carnaxide, passou a fronteira em Barrancos, depois fez a Espanha, apanhou o ferry em Algeciras e depois foi a Marrocos, Mauritânia, Senegal até chegar ao destino final. «Eu trabalhava nos Tuk Tuks na altura para pagar as minhas maluqueiras e comecei a viagem com um amigo que conheci lá. Eu decidi isto quase do dia para a noite e disse-lhe: ‘Estou a pensar ir até à Guiné-Bissau, queres vir?’. E ele disse: ‘Até a Guiné não tenho tempo, mas vou contigo até Sevilha’. Foi isso que aconteceu. Quando o deixei em Sevilha, furou-me o pneu. Nunca tinha trocado uma roda… Tinha comprado os remendos, mas nunca o tinha feito. Podia-me ter acontecido quando estava acompanhada, mas não! Foi a vida a desafiar-me. A partir daí, não sei quantas vezes me furou a câmara de ar. Fiquei uma profissional. Quando tu te comprometes a fazer uma viagem destas, estás disposta um bocadinho a tudo, não é? A dormir em qualquer condição, a ser enganada, a ter vários desafios», explica Marta Durán, admitindo que hoje em dia não faz ideia o que é que lhe deu na cabeça para o fazer. «Parece que foi noutra vida, parece que foi outra pessoa. Tenho vontade de voltar a fazer uma viagem de bicicleta, que é uma forma muito bonita de se viajar», afirma.
Atualmente, leva grupos àquela que considera a sua segunda casa. «Organizo viagens. Portanto, tento passar um bocadinho esta minha paixão. As pessoas são fantásticas. E têm uma humildade e um modo de estar que me cativa. Na verdade, eles tratam-me como um deles. Sinto-me bem lá», garante. «Já lidero viagens há cinco anos. No início achava que as pessoas iam com a mesma loucura que eu. E muitas delas até vão. Mas outras nem tanto, não é? As pessoas gostam de sair da zona de conforto. Tem sido uma caminhada muito bonita. Adoro partilhar as minhas pessoas da Guiné-Bissau. Há muito pouco turismo lá e as pessoas querem ter experiências autênticas: andar de transportes públicos todos podres, estradas com buracos, dormir em aldeias. É um bocadinho a autenticidade da viagem que criei na Guiné», detalha.
Para viajar à boleia aconselha que se avise sempre a alguém sobre o que é que se vai fazer e quais são mais ou menos os planos. «E ter um localizador contigo. Isso pode-te safar de várias situações perigosas. Eu lembro-me que também olhava para as matrículas, apontava, mandava. Mas, acima de tudo, na altura tinha o localizador do Google. Hoje em dia já há tantas opções. Até dá para os satélites saberem de ti. O resto é só sorrir e esticar o dedo», brinca. A jovem considera-se uma viajante minimalista. «Menos quando tenho de levar o material de fotografia todo atrás… Mas se vais para uma viagem grande: tenda, camping-gás, uma panela, uma navalha, filtro de água se vais para o continente africano, roupa básica mediante as temperaturas que vais apanhar. E medicação e um kit de primeiros socorros», enumera.
Experiências intensas e duras
No início desta jornada de viagens, surgiu a oportunidade de ir dar aulas para o Nepal em troca de estadia e alimentação. Esteve cerca de quatro meses a ensinar português e, no resto do tempo, foi viajar. «Foram oito meses no total. Fiz quase um mês a viajar pelos Himalaias, fiz dois treckings diferentes, e depois fui viajar sozinha para a Índia, onde acabei por me juntar a outra viajante que tinha conhecido, a Maria, de Espanha. Hoje em dia ainda somos muito amigas», conta. Uma imagem que não lhe saí da cabeça é a do templo dos ratos, na Índia. «Eram centenas ou milhares de ratos, num templo, em que tu entras descalço, estás a pisar xixi, estão-te a trepar pelas pernas… Tu tens de ter cuidado para não os pisares. Os ratos ali são sagrados, veem-nos como uma reencarnação de uns soldados», diz Marta. Foi realmente uma viagem «intensa» que, segundo a viajante, é o nome do meio da Índia. «Muitos comboios, muitas dores de barriga, muitos hostéis e hotéis a 70 cêntimos, onde literalmente tive um rato a roer-me as cuecas… O estilo de viagem foi tudo muito low-cost, low-budget. Se eu fosse viver para a Índia, gastava muito menos, e tinha uma vida perfeita, porque na Índia senti que tudo era possível… Mas é um país muito complicado, muito difícil para viajar, e tem que ser mesmo de mente aberta», reconhece.
Nessa altura, viveu uma viagem de comboio «para esquecer»: «Paguei 30 cêntimos por ela. Fui encafetada num vagão à pinha, a dormir quase em conchinha com os locais. Eram pessoas a dormir no chão, na casa de banho, houve um que até esticou uma toalha e fez uma cama de rede… É mesmo uma coisa impressionante. Se eu tivesse gasto os 30 euros tinha tido uma caminha para mim com ar-condicionado… Agora se me perguntas o que é que farias agora? A idade já pesa, se calhar ia pagar 30 euros. Já não sou a viajante que era na altura. Consigo fazer exatamente as mesmas coisas, mas consigo ponderar mais. Penso no custo-benefício».
No ano passado, Marta juntou-se a João – um amigo também viajante –, e partiram rumo ao Afeganistão. E, para ficarem no mesmo quarto, casaram. «Nós casamo-nos e divorciámo-nos! Somos amigos há cinco anos. Foi quando começámos estas viagens. A verdade é que já viajámos bastante e vamos continuar. Antes de ir para a Turquia, nós queríamos ter ido para o Irão. Só que o Irão, na altura, teve grandes problemas. Tivemos que ficar na Turquia e decidimos ir para o Afeganistão. Percebemos que, para ficarmos no mesmo quarto de hotel, tínhamos de ser casados. E sei que isto também só é possível pela amizade que temos e a mesma sede de descoberta. Queríamos descobrir um país que também não é muito falado, ou quando é falado é apenas pelas razões negativas. Fomos tentar ver pelos nossos próprios olhos, essas razões negativas, que de facto são reais, muitas delas, mas também aquilo que não se fala tanto, que é a autenticidade do povo, e que o povo acaba por sofrer com todas aquelas regras. O Afeganistão não são os talibãs», garante.
De acordo com a jovem, há talibãs bons e há talibãs maus, como há polícias bons e há polícias maus. «Tentámos desmistificar um bocadinho essa ideia, mas depois acabámos por ter umas experiências menos positivas. Fomos perseguidos por talibãs já no final da viagem, e também acabámos por sentir que a viagem era demasiado controlada, porque eles querem saber do turismo, mas se calhar não estão tão preparados para a abertura. Querem controlar cada passo que tu dás, querem saber onde é que tu estás», lamenta.
Interrogada como foi a experiência de ser mulher num país com tantas restrições aos direitos femininos, Marta admite que foi muito difícil. «Não digo que tenha sentido na pele, porque eu estive lá apenas cerca de 15 dias. Eu não nasci lá, não sou afegã… Mas ouvir os testemunhos das mulheres que sempre tiveram oportunidades – podiam trabalhar, ser médicas, estudar, podiam fazer tudo – e, de repente, ficaram sem direitos nenhuns, não foi nada fácil», lembra. E chegou a falar com algumas delas. «Falavam todas inglês, mas não podiam dizer certas coisas. Quando eu falava com elas era tudo muito escondido. Se eles descobrissem que falávamos com estas pessoas eram elas que iriam receber as represálias. Era sempre muito tenso, algumas pessoas tentavam vir falar connosco e o nosso guia até tinha medo. As mulheres foram deixadas para trás e esquecidas», reforça.
Um dos momentos mais difíceis emocionalmente, que a fez sentir algo próximo daquilo que as afegãs sentem, foi quando foi proibida de ir visitar um lago. «Antes de ir para lá não me tinha apercebido que era uma proibição. O meu guia também não nos tinha preparado para essa situação. Portanto, estávamos no carro e fomos mandados parar por um talibã da religião que olhou para mim com o maior desprezo e virou-se para o guia a falar. Também lhe deu um bocado na cabeça. O guia pensava que eu podia, por ser turista. Acabei por ir para o mercado com as mulheres», conta.
Já a situação da perseguição foi na capital dos talibãs, Kandahar. «Haviam poucas mulheres e as que vi estavam de burca. Eu tinha de estar sempre tapada, só podia mostrar o rosto. Tinha de estar sempre com o hijab. Mas naquela zona de Kandahar, as mulheres que vimos, que foram umas cinco, estavam todas tapadas. E aí vimos outra coisa que me marcou imenso, que foi que as mulheres andavam no porta-bagagens», partilha ainda.
Em janeiro deste ano Marta teve outra experiência que a marcou, em Agbogbloshie, no Gana, quando visitou o maior centro de lixo eletrónico do mundo. «Foi uma oportunidade muito interessante… Perceber um bocadinho como é que o lixo eletrónico que vem de toda a parte do mundo acaba ali e como é que depois é processado e separado. O que fica mais na memória é o cheiro, muito forte. É um cheiro eletrónico. Não consigo explicar porque eles normalmente fazem as queimadas só ao final do dia, mas há sempre algumas pessoas que o fazem durante o dia. É um cheiro químico muito intenso e percebes que aquelas pessoas vivem na iminência de ter doenças. Vivem no meio do lixo. Aquela favela estava muito, muito suja. Eu já estive em favelas semelhantes mas aquela ultrapassou. Era uma mistura de cheiros impressionante», explica a viajante.
A jovem acredita que o mundo é mais seguro do que aquilo que imaginamos. No entanto, está cada vez mais preocupada. E, com esta consciência, tem receios que antes não tinha. «Faz-me ter alguns receios que não tinha antigamente, mas não deixo de fazer as coisas».
Por incrível que pareça, é a primeira vez em alguns anos que tem três meses sem viagens programadas. Em julho vai a Madagáscar em trabalho e depois quer regressar à Guiné-Bissau. Apesar de percorrer o mundo e se encontrar um bocadinho em todos os lugares, Marta garante que Portugal será sempre a sua casa e fica sempre feliz por regressar.