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Já aconteceu a quase toda a gente: sabe-se exactamente o que se quer dizer, a palavra parece estar ali, iminente, mas simplesmente não vem. Esse bloqueio momentâneo tem nome próprio, e é mais comum do que se pensa.
Chama-se letologia. O termo deriva do grego lḗthē, que significa esquecimento, e logos, palavra, e descreve com precisão o estado em que a memória parece estar a funcionar e ao mesmo tempo a falhar. Em português, descrevemos a sensação como ter a palavra na ponta da língua, mas em inglês existe mesmo a designação, o Tip-of-the-Tongue phenomenon (TOT) , que a investigação em psicologia cognitiva consagrou há décadas.
O que acontece no cérebro nesse momento?
Do ponto de vista científico, a letologia não é uma falha de conhecimento, mas sim uma falha temporária de acesso à memória lexical. Isto significa que, se a palavra for dita em voz alta por outra pessoa, o cérebro reconhece-a de imediato. O problema está no acesso, não no armazenamento.
Segundo investigadores da área da cognição, o estado emocional tem um papel relevante neste processo. Situações de:
Tensão ou stress aumentam a probabilidade de ocorrência de letologia
Cansaço ou privação de sono prejudicam a lembrança de palavras no quotidiano
Distração dificulta a activação das conexões de memória necessárias
O fenómeno pode ocorrer em qualquer faixa etária, mas tende a ser mais frequente em pessoas mais velhas e em falantes bilingues, nos quais a alternância entre dois sistemas linguísticos pode interferir no acesso à palavra exacta no momento da fala.
Letologia ou afasia: qual a diferença?
É comum confundir-se letologia com afasia, mas são condições distintas. A letologia é passageira e não indica qualquer lesão neurológica. A afasia, por seu lado, é um distúrbio de linguagem persistente associado a lesões cerebrais, caracterizado, de acordo com investigação da Unicamp, por hesitações, pausas e dificuldades continuadas de comunicação.
A atenção deve aumentar quando os episódios de bloqueio se tornam mais frequentes, surgem associados a outras dificuldades de comunicação ou afectam de forma significativa o dia-a-dia. Nesse caso, a consulta a um especialista é recomendada.
Como lidar com o bloqueio?
A boa notícia é que existem estratégias simples que podem ajudar a reduzir a frequência da letologia e a gerir melhor os episódios quando surgem:
Não forçar pode ser a melhor abordagem: tentar demasiado activamente lembrar uma palavra tende a bloquear ainda mais o acesso
Pensar em palavras relacionadas ou tentar descrever o conceito em causa pode reactivar as conexões de memória e desbloquear a lembrança
Dormir bem é uma forma concreta de proteger a memória verbal
Estimular o cérebro com leitura, jogos de palavras ou outros desafios cognitivos contribui para manter as redes linguísticas activas
Reduzir o stress favorece o acesso à memória, especialmente em situações de pressão
A neurocientista Anne-Laure Le Cunff, fundadora da Ness Labs, recomenda repetir a palavra em voz alta quando ela finalmente chega, como forma de reforçar a sua memorização. Para os casos sem relevância imediata, o conselho é deixar ir: a palavra acaba frequentemente por surgir quando já não se está à espera.