É loira de olhos azuis e aparece quase sempre com um uniforme militar vestido. Está sempre com o cabelo impecável e um sorriso no rosto. Recentemente posou com um caça F-22 Raptor e caminhou na pista do aeroporto com o presidente Donald Trump no primeiro dia dos ataques ao Irão. Antes disso, publicou imagens onde aparece com a primeira-dama Melania Trump, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, o líder russo, Vladimir Putin, e até Lionel Messi. O registo mais louco mostra Jessica a segurar o ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro, capturado pelas forças especiais dos EUA no início de janeiro. Em apenas quatro meses – a sua conta explodiu no final de 2025 –, o seu perfil de Instagram ultrapassou um milhão de seguidores, impulsionado por imagens e vídeos que simulam uma rotina patriótica e ultranacionalista. Foster mostra o seu dia-a-dia nos alojamentos militares com colegas, descalça no escritório, em momentos de descanso no carro. «A menina dos sonhos do MAGA (Make America Great Again)», chamam-lhe alguns americanos. O que não suspeitavam é que Jessica Foster não existe.
Em busca de subscrições digitais
Segundo o The Washington Post, a influencer foi criada por inteligência artificial para «explorar nichos políticos» e «converter patriotismo em subscrições digitais». Não há registo público do seu serviço militar e a conta, apesar de não ser identificada como de IA, está repleta de indícios de que ela é falsa. O seu primeiro vídeo, publicado no Dia de Ação de Graças, mostrava a rapariga sentada sob uma bandeira americana e, na legenda, pedia comentários de todos os «homens héteros que gostam de uma menina do exército americano». Numa outra publicação, por exemplo, vimos «a jovem» vestida com um uniforme de combate com a etiqueta de identificação com o nome «Jessica» em vez de «Foster». Recorde-se que conforme o código do Exército dos EUA, são usados apenas sobrenomes nos uniformes. «Numa fotografia, ela ostenta a insígnia de uma unidade, mas os botões estão do lado errado e fundem-se com o tecido», explicou um analista digital citado pela mesma publicação. Noutras imagens vemos nitidamente erros clássicos da IA: mãos com seis dedos, medalhas que não existem no exército real e Donald Trump com uma fisionomia ligeiramente distorcida.
Escreve a Euronews que, mais do que uma farsa, Jessica é uma modelo falsa usada para vender fotografias dos pés no OnlyFans. Foi criada para direcionar seguidores para conteúdo adulto por assinatura, já que os seus perfis no Instagram e no X levam os fãs para @jessicanextdoor, onde vende material de fetiche e ganha dinheiro diretamente dos subscritores. «Servidora pública de dia, desordeira de noite. Sou nova nisso, então, por favor, não sejam rudes. Aliás, respondo a todas as mensagens, mas tenham paciência, pois não sou um robô, haha», lê-se na sua conta de OnlyFans que, poucos dias após a sua criação, já tinha mais de 10 mil gostos.
O The Washington Post cita Sam Gregory, diretor executivo da Witness, um grupo de defesa de vídeos que pesquisa deepfakes, que garante que Foster exemplifica o quão enganosos podem ser os geradores de vídeo de IA. «Os avanços em IA tornaram mais fácil para os criadores gerar um personagem falso consistente para uso em várias fotos ou vídeos e situar o personagem ao lado de figuras públicas reais, fazendo parecer que o personagem está no centro de eventos reais», alerta. Este é, por isso, um caso clássico de AI Slop: «Ao aplicar elementos políticos e eventos atuais às vidas fictícias desses personagens, os seus criadores provavelmente esperam maximizar a sua viralização e destacar-se na multidão online», disse Gregory.
O jornal americano tentou contactar a pessoa responsável pela criação de Jessica. No entanto, esta não respondeu aos pedidos de declarações. De acordo com o The Washington Post, a conta está ligada a uma rede de «empreendedores digitais que operam múltiplas figuras de IA em simultâneo». O Instagram acabou por remover a sua conta por violar as suas políticas, informou um porta-voz da Meta. Recorde-se que as políticas da Meta exigem que qualquer anúncio político pago divulgue claramente o uso de IA.