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Na madrugada de domingo, 29 de março, à 1h da manhã, os relógios avançam para as 2h em Portugal continental e na Madeira. Nos Açores, a mudança acontece à meia-noite, que passa a ser 1h. O resultado prático é simples: a noite de sábado para domingo vai ser mais curta, e quem não se preparar vai sentir.
A lógica por detrás desta mudança é aparentemente simples: ao adiantar os relógios, aproveita-se melhor a luz natural ao final do dia, reduzindo a necessidade de iluminação artificial. A próxima mudança, de regresso ao horário de inverno, será a 25 de outubro.
Uma ideia com mais de dois séculos
A origem desta prática é mais antiga do que parece, e tem um pai improvável. Foi Benjamin Franklin que lançou a ideia pela primeira vez, em 1784, numa carta bem-humorada enviada ao Journal de Paris. O argumento era simples e algo jocoso: se os parisienses se levantassem mais cedo, poupariam uma fortuna em velas. A proposta não foi levada a sério na altura, mas o conceito ficou.
Já no século XX, a medida foi adotada a sério durante a Primeira Guerra Mundial como forma de poupar energia, e acabou por se generalizar. Em Portugal, a mudança de hora foi instaurada oficialmente pela primeira vez em 1916, durante a Primeira República, também com o argumento da poupança energética. Desde então, o país viveu fases de adoção irregular, incluindo um período de dez anos em que vigorou o horário de verão de forma ininterrupta.
Em 1992, o Governo de Cavaco Silva optou por alinhar Portugal com o horário da Europa Central, o mesmo de Bruxelas e de Madrid. A decisão durou quatro anos: em 1996, já com Guterres no poder, o país regressou ao fuso ocidental, o de Londres, mantendo apenas o mecanismo europeu de alternância sazonal que vigora até hoje.
O que diz a ciência sobre o impacto no seu corpo
O que parece uma questão menor tem, na prática, consequências mensuráveis para o organismo. Ao adiantar os relógios, atrasa-se a libertação de melatonina, a hormona que promove o sono, porque o cérebro recebe luz solar mais tarde do que estava habituado. O ritmo circadiano, o relógio interno que regula o ciclo sono-vigília, fica temporariamente desajustado, e o corpo leva algum tempo a perceber o que se passou.
Segundo a CUF, a principal consequência é a fadiga: em média, perde-se cerca de 40 minutos de sono na transição para o horário de verão. A maioria das pessoas adapta-se numa semana, mas há quem demore mais. Os grupos mais vulneráveis são as crianças, os idosos e as pessoas com distúrbios de sono preexistentes, como a apneia.
Nos dias a seguir à mudança, registam-se também aumentos pontuais de acidentes de viação e episódios de maior irritabilidade. Não é imaginação: é o organismo a protestar.
O que pode fazer para minimizar o impacto
A boa notícia é que há formas de suavizar a transição, e nenhuma delas exige esforço extraordinário. De acordo com a CUF, a regra de ouro é não esperar pelo domingo para começar a adaptar-se:
Nos dias anteriores, deite-se 15 a 20 minutos mais cedo do que o habitual para que o organismo vá ajustando gradualmente
Apanhe sol logo de manhã, mesmo que sejam apenas alguns minutos, para ajudar a calibrar o ritmo circadiano
Evite ecrãs pelo menos uma hora antes de dormir, a luz azul inibe a produção de melatonina
Mantenha rotinas regulares de refeições e de atividade física
Evite café e álcool nas horas que antecedem o sono
Se estiver mesmo com muito sono durante o dia, uma sesta curta de até 20 minutos pode ajudar sem comprometer o descanso noturno
E uma nota importante: não recorra a comprimidos para dormir sem indicação médica. Além de poderem criar dependência, tendem a deixá-lo mais sonolento durante o dia, que é exatamente o oposto do que precisa.
Bruxelas quer acabar com a mudança de hora, mas continua bloqueada
O debate não é novo, mas também não avança. Em 2018, a Comissão Europeia propôs acabar com a alternância sazonal, depois de uma consulta pública em que 84% dos participantes se disseram a favor do fim da mudança de hora. No ano seguinte, o Parlamento Europeu aprovou a medida com larga maioria. Oito anos depois, nada mudou.
O problema é o acordo que nunca chega: cada Estado-membro teria de escolher entre ficar definitivamente no horário de verão ou no horário de inverno, e as preferências divergem. Os países do norte da Europa tendem a preferir o horário de inverno, com mais luz de manhã. Os do sul, incluindo Portugal, inclinam-se para o horário de verão, com tardes mais longas.
Em 2026, o assunto voltou à agenda. A Comissão Europeia lançou um novo estudo para apoiar o processo de decisão, que deverá estar concluído ainda este ano. Caberá depois aos Estados-membros decidir o passo seguinte, com a presidência cipriota do Conselho da UE a sinalizar disponibilidade para analisar os resultados assim que estiverem disponíveis.
Portugal tem uma posição clara: não quer o regresso ao horário de inverno permanente. A questão tem implicações geográficas concretas: se o país ficasse definitivamente no horário de verão, o sol nasceria, em certas alturas do inverno, apenas depois das 9h30. Se ficasse no horário de inverno, as tardes escureceriam cedo demais para o gosto do sul da Europa.
A Associação Portuguesa do Sono defende que, do ponto de vista da saúde, o horário de inverno permanente seria o mais benéfico, por estar mais alinhado com o ritmo solar natural. O horário de verão, argumentam os especialistas, tem custos a curto prazo bem documentados: sono mais curto, pior desempenho e maior frequência de acidentes.
Por agora, a mudança de hora continua a ser lei. E este domingo não é diferente. A próxima oportunidade de dormir uma hora extra será só em outubro.