quinta-feira, 16 abr. 2026

Homens "grávidos" durante a gestação da mulher? A ciência revela que é mais comum do que imagina

Este síndrome é real, tem um nome, e são vários os homens que se identificam.
Homens "grávidos" durante a gestação da mulher? A ciência revela que é mais comum do que imagina

Síndrome de Couvade é o nome que deve reter quando ouvir um homem dizer que se sente "grávido" e com sintomas enquanto a sua mulher está efetivamente à espera de bebé.

De acordo com uma pesquisa da BBC Health, cerca de metade dos parceiros sofrem desta síndrome: no entanto, é importante perceber que nem a Classificação Internacional de Doenças, nem o Manual de Diagnóstico e Estatística de Perturbações mentais a incluem como uma doença oficial.

O que é a síndrome de Couvade?

A síndrome de Couvade é um fenómeno psicossomático, ou seja, uma condição que envolve componentes biológicas e psicológicas, onde homens desenvolvem sintomas físicos e emocionais semelhantes aos da gravidez durante a gestação da mulher.

A palavra "Couvade" vem do francês "couver", que significa "incubar". O termo começou a ser usado em 1865, pelo antropólogo Edward Burnett Tylor, que descrevia homens deitados na cama com recém-nascidos em comunidades rurais.

Investigações mais recentes sobre o fenómeno sugerem que pode estar ligado ao stress e mudanças emocionais de se tornar pai. “Ter um filho é uma das maiores mudanças da vida adulta”, diz o psicólogo Kevin Gruenberg, citado pela BBC. “Pode ser avassalador e a Couvade pode refletir essa transformação", explica.

O que é que os homens sentem?

"A melhor forma de a descrever é como uma gravidez por empatia", explica Catherine Caponero, obstetra-ginecologista da Cleveland Clinic, nos Estados Unidos, citada pela emissora.

Os sintomas variam entre náuseas, fadiga intensa, dormência nos braços, sensibilidade na pele dos braços e do peito, além de uma sensação geral de desconforto. Dores nas costas, dores dentárias, aletrações de humor, desejos alimentares e aumento do peso são também muito comuns, mas desaparecem logo após o bebé nascer. São sintomas muito semelhantes ao que as mulheres passam... mas sem o desfecho final de passar por um parto.

São só os maridos que sentem?

Não. A síndrome de Couvade pode afetar tanto futuros pais, como parceiros do mesmo sexo ou até futuros avós que vivem com a mulher grávida e que a acompanham durante os cerca de nove meses.

Com uma investigação mais aprofundada sobre as implicações desta síndrome, cientistas começam agora a sugerir que, num futuro próximo, talvez se tenha de repensar a forma como ter um filho pode afetar ambos os pais logo na gravidez.

Estudos infomais mostram que as percentagens de homens a passar por esta síndrome são elevadas. Nos Estados Unidos, cerca de 52% dos homens admitem ter tido sintomas durante a gravidez das companheiras; na Polónia e na China são cerca de 70%. Já em países como a Suécia e a Rússia, as percentagens não ultrapassam os 35%.

“Muito do que sabemos é limitado”, explica o psicólogo Daniel Singley. “Não compreendemos bem o mecanismo. Pode ser uma forma de lidar com emoções ou ter uma base neurobiológica. Ainda não sabemos", afirma, sublinhando a falta de conhecimento patente nesta síndrome.

Exatamente por não se manifestar apenas no homem enquanto pai da criança, especialistas apontam para a síndrome como uma "forma de empatia". “Não é necessariamente algo negativo”, afirma o antropólogo Richard Powis. “É uma expressão de cuidado humano", acrescenta, referindo que se traduz, muitas vezes, na mudança de hábitos alimentares ou na adaptação de rotinas para acompanhar a mulher.

E qual é a "base biológica"?

No entanto, o fenómeno, de acordo com os especialistas, não é apenas psicológico.

Há, de facto, uma mudança hormonal no homem durante a gravidez da mulher, com a diminuição de testosterona. Esta alteração dos níveis hormonais pode favorecer comportamentos de cuidado e adaptação que levam aos sintomas psicológicos da síndrome.

Além disso, a oscilação hormonal pode desencadear o aumento de peso ou alterações de humor. No entanto, são averiguações ainda por investigar detalhadamente.

Apesar de esta síndrome poder ser vista como um género de "imitação" por parte do homem, trata-se mesmo de uma resposta complexa, que envolve fatores emocionais, sociais e biológicos do companheiro. Ainda assim, muitos homens continuam a mostrar dificuldade em reconhecer estes sintomas: apesar de metade deles os sentirem.