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Ouvir a mesma música vezes sem conta é uma experiência quase universal. Repeti-la uma vez pode parecer um capricho, dez vezes uma falta de variedade e trinta vezes uma verdadeira obsessão. Mas isso pode ter um significado e vai além da ligação emocional que a música representa.
O significado da música no cérebro humano
A fusão entre melodia e letra desperta emoções que só a música parece conseguir transmitir. É difícil ficar indiferente a uma canção familiar, porque cada nota transporta consigo memórias, expectativas e momentos que fazem parte da nossa história.
Ao contrário do que parece, ouvir a mesma música várias vezes não significa que a pessoa esteja “presa” num momento, episódio ou história: pode apenas querer sentir-se acompanhada, segura e compreendida.
O que a psicologia diz
Há três fatores que podem justificar a procura por ouvir várias vezes a mesma canção: familiaridade, regulação emocional e memória.
Um estudo publicado na revista científica Frontiers in Human Neuroscience concluiu que a familiaridade é o mais importante dos três.
Isto significa que, quanto melhor conhece uma música, maior é a vontade de a ouvir novamente, porque lhe transmite o conforto de saber exatamente o que ela o vai fazer sentir.
É essa capacidade de antecipar o que vai sentir que o leva, por exemplo, a regressar às músicas da adolescência. Um refrão, uma mudança de ritmo ou uma frase marcante despertam emoções familiares, sem exigir ao cérebro o esforço de lidar com a incerteza.
O lado emocional
Este é talvez o motivo mais evidente. Elizabeth Margulis, investigadora na área da perceção e cognição musical, explicou à Associação Americana de Psicologia que música, emoção e memória estão profundamente ligadas.
Uma música conhecida, que já sabe de cor tanto a letra como a melodia, serve para acalmar a ansiedade, manter a concentração e processar sentimentos.
Isso explica o porquê de, em momentos de sentimentos mais intensos, como o luto, o amor, a tristeza ou o desgosto, haver uma música que fica ligada ao momento. Não é apenas um gosto musical, mas sim uma forma de processar emoções, ainda que de forma quase inconsciente.
A memória
Ouvir músicas da adolescência não é não ter ultrapassado quem foi naqueles anos. É uma forma de se relembrar dessa sua versão e até reforçar a intimidade e continuidade do seu crescimento.
Muitas vezes, este “regresso ao passado” ganha especial importância em momentos de maior incerteza na vida adulta. Ouvir as músicas de que gostávamos funciona como uma forma de reencontro com quem fomos, despertando memórias, emoções e uma sensação de familiaridade com aquilo que um dia foi.
É bom ouvir sempre a mesma música?
Não há um limite universal sobre se é ou não saudável procurar a sensação de segurança naquilo que ouve.
Na maioria dos casos, esta é uma tendência absolutamente normal. Pode exigir maior atenção caso seja um comportamento que o isole ou que o faça sentir cada vez mais triste, dependendo da situação pela qual está a passar.
No entanto, por si só o hábito de regressar a músicas que já conhece não é sinal de transtorno ou anomalia.
Por isso, da próxima vez que carregar novamente no botão de repetir, saiba que o seu cérebro pode estar simplesmente à procura de algo familiar.
Ouvi-la dezenas de vezes não significa que esteja preso ao passado nem que lhe falte variedade musical. Na maioria dos casos, é apenas a forma que o cérebro encontra para voltar a um lugar onde sabe exatamente o que vai sentir.