Há um motivo para estas pessoas se recusarem a ver as horas no telemóvel e preferirem um relógio de pulso

Não é teimosia nem apego a um objeto do passado. Quem continua a usar relógio de pulso tem uma razão muito concreta para o fazer, e a psicologia já percebeu porquê.
Há um motivo para estas pessoas se recusarem a ver as horas no telemóvel e preferirem um relógio de pulso

Se perguntar a alguém qual o motivo para continuar a usar relógio de pulso, a resposta costuma ser sempre parecida: "Se tirar o telemóvel do bolso para ver as horas, acabo por ficar ali agarrado vinte minutos". Esta ideia resume bem o momento em que vivemos, mas também revela algo interessante: há cada vez mais pessoas a tentar escapar deliberadamente à dependência do ecrã.

Pode parecer um exagero, mas os números mostram que não é. Segundo o relatório Digital 2026, da We Are Social e Meltwater, os portugueses passam em média mais de duas horas por dia só em redes sociais, com o TikTok a liderar o tempo de utilização por utilizador. Mudar pequenos hábitos da rotina, como consultar as horas sem pegar no telemóvel, pode ser mais eficaz do que parece para recuperar tempo que de outra forma se perde entre vídeos e notificações.

O que torna o relógio de pulso diferente

A lógica é simples: ao contrário do telemóvel, um relógio de pulso não tem mais nenhuma função além de mostrar as horas. Não há notificações, não há redes sociais, não há nada que prenda a atenção para além do essencial. É precisamente essa ausência de estímulos que o torna eficaz contra a distração.

Como um simples olhar para o ecrã se transforma em vinte minutos perdidos

À partida, acender o ecrã só para ver as horas parece inofensivo. Mas esse gesto abre também a porta a tudo o resto: mensagens por responder, notificações à espera e vídeos que alguém partilhou. É aí que começa a espiral.

Um estudo recente da Universidade de Cambridge, encomendado pela operadora britânica Virgin Media O2, ajuda a explicar este fenómeno. Segundo a investigação, mais de um terço do tempo que as pessoas passam no telemóvel é gasto sem qualquer propósito definido, em scroll automático e sem controlo consciente. A investigadora Eleanor Drage, do Leverhulme Centre for the Future of Intelligence de Cambridge, sublinha que o problema não está apenas na falta de força de vontade das pessoas, mas sim no próprio desenho imersivo da tecnologia, feito precisamente para prender a atenção o máximo de tempo possível.

Ou seja, o gesto de olhar para o telemóvel raramente fica pelas horas. É esse o motivo pelo qual pequenas alterações de hábito, como usar relógio de pulso, podem ter um impacto real:

  • Eliminam o ponto de entrada para notificações e redes sociais

  • Reduzem o número de vezes que o ecrã é ativado ao longo do dia

  • Ajudam a recuperar tempo que de outra forma se perderia em scroll sem propósito

  • Não exigem esforço de autocontrolo constante, visto que a tentação nem chega a aparecer

No fundo, trocar o telemóvel pelo relógio de pulso não é um gesto de nostalgia. É uma forma simples de cortar o acesso automático a um dos maiores ladrões de tempo do quotidiano.