quarta-feira, 13 mai. 2026

Gomas ácidas como receita para ansiedade? Um efeito imediato que não resiste a longo prazo

Recorrer a estímulos intensos para aliviar o desconforto pode funcionar no momento, mas levanta dúvidas científicas e preocupações com o consumo de açúcar.
Gomas ácidas como receita para ansiedade? Um efeito imediato que não resiste a longo prazo

Há soluções que nascem em consultório. Outras, no desespero. E depois há as que aparecem no TikTok. Começa quase sempre da mesma forma: alguém enfrenta um problema, partilha um vídeo, e em poucos dias uma nova “solução” espalha-se pelas redes sociais. Desta vez, a promessa é simples — comer gomas ácidas para travar picos de ansiedade.

Impulsionada por vídeos virais e relatos pessoais, a ideia de associar um sabor intenso a uma espécie de reset emocional imediato ganhou popularidade online, mas a ciência não acompanha o entusiasmo.

A ciência não valida o fenómeno

A ideia de usar gomas ácidas para aliviar a ansiedade não tem suporte científico direto. A literatura médica disponível sobre o tema sublinha que não existem estudos clínicos que demonstrem a eficácia desta prática no tratamento de ansiedade ou ataques de pânico.

Ainda assim, alguns especialistas admitem que pode existir uma explicação comportamental para o efeito descrito por quem o pratica. Um artigo da Medical News Today explica que o mecanismo não está no doce em si, mas na forma como o corpo reage ao estímulo intenso: o sabor ácido funciona como uma distração sensorial forte, capaz de interromper momentaneamente o ciclo de pensamentos ansiosos e recentrar a atenção no presente.

Um efeito de interrupção, não de tratamento

Esta ideia não é exclusiva das gomas ácidas. Na psicologia clínica, existem várias estratégias baseadas no mesmo princípio: interromper o fluxo de pensamento através de estímulos externos suficientemente fortes para “quebrar” a espiral de ansiedade.

É aqui que entra o conceito de grounding: técnicas que procuram recentrar o indivíduo no momento presente através de estímulos físicos ou sensoriais como o tato, o som, texturas ou sensações intensas, ajudando a reduzir a intensidade de episódios de ansiedade.

A diferença essencial é que, em contexto clínico, estas estratégias fazem parte de um enquadramento terapêutico estruturado, enquanto nas redes sociais surgem frequentemente isoladas, simplificadas e transformadas em “soluções universais”.

Em Portugal, a psiquiatra Maria Moreno, citada pela NiT, reforça o uso de gomas ácidas como uma possível forma de distração sensorial e mantém o registo cauteloso: trata-se de uma estratégia pontual e não de uma solução clínica, devendo ser entendida como complemento e não como substituto de acompanhamento profissional.

Quando a linguagem clínica sai do consultório

É precisamente nesta passagem, do contexto clínico para a circulação mediática, que a ideia ganha outra dimensão. O que na psicologia é descrito como um conjunto de estratégias complementares, dependentes de enquadramento e acompanhamento, transforma-se nas redes sociais num simples “truque”.

E assim, a nuance perde-se rapidamente. Técnicas usadas para gestão pontual de sintomas passam a ser apresentadas como soluções diretas para um problema complexo. E, com isso, desaparece também a distinção entre alívio momentâneo e tratamento.

O detalhe que raramente entra na tendência

Fica, no entanto, um elemento quase sempre ausente desta narrativa: o próprio produto em causa.

As gomas ácidas são alimentos ricos em açúcar. E essa componente não é neutra quando se fala de saúde mental. Embora o efeito imediato possa ser sentido como a “quebra” momentânea do ciclo de ansiedade, a evidência disponível sugere que padrões alimentares com elevado consumo de açúcar estão associados a piores indicadores de saúde psicológica, incluindo níveis mais elevados de ansiedade.

Mas o impacto não se limita apenas ao plano emocional. O consumo frequente de produtos com elevado teor de açúcar está também associado a efeitos físicos, como alterações metabólicas e problemas de saúde oral, o que reforça a necessidade de olhar para esta prática para além do efeito imediato que promete.

Isto não significa que uma goma provoque ansiedade de forma direta, nem que o seu consumo ocasional tenha impacto clínico relevante, mas introduz uma contradição difícil de ignorar: um produto apresentado como ferramenta de regulação emocional pertence, simultaneamente, a uma categoria alimentar frequentemente associada a efeitos negativos.

O efeito pode ser real a curto prazo, mas não equivale a uma intervenção terapêutica, nem a uma resposta estruturada ao problema. A ansiedade, em termos clínicos, raramente se resolve através de estímulos isolados, e na maioria dos casos, exige abordagens consistentes e prolongadas, que vão muito além de estratégias de distração.

Entre o alívio e o tratamento

As gomas ácidas podem interromper o desconforto por instantes, mas entre o alívio imediato e o tratamento existe uma diferença que nenhuma tendência digital consegue eliminar.

O sucesso desta ideia diz menos sobre a sua eficácia e mais sobre o contexto em que surge: uma cultura digital habituada a respostas rápidas para problemas complexos, onde soluções simples e imediatas tendem a ganhar mais visibilidade do que explicações difíceis.

E é precisamente nessa lógica que a ansiedade continua a escapar às soluções fáceis. Ao contrário do que o ritmo das redes sociais sugere, a resposta para a ansiedade não cabe num vídeo curto nem num pacote de gomas.