terça-feira, 10 fev. 2026

Freida McFadden. A autora de best-sellers que não quer fama

Apesar do seu sucesso, tenta manter-se discreta. Quando é fotografada para revistas, acredita-se que usa uma peruca e óculos para que as pessoas não a reconheçam. Desde 2022 que o seu nome percorre o mundo pelo sucesso da obra "A Criada". McFadden é conhecida por escrever thrillers que prendem os leitores às páginas. Mas o que é que sabemos mais sobre ela?
Freida McFadden. A autora de  best-sellers que não quer fama

Adora escrever sobre personagens moralmente ambíguos. Intriga-lhe a ideia de que uma pessoa pode, no fundo, ser boa, mas ainda assim fazer coisas más. Ou que uma pessoa pode ser maioritariamente má, mas ainda assim ter qualidades que despertam compaixão. Quem já leu a maior parte dos seus livros – escreveu 31 em 12 anos –, sabe que a vingança é um dos seus temas favoritos. "A minha impressão geral é que, na vida, as pessoas raramente recebem exatamente o que merecem. Mas na arte, podemos distribuir essa justiça poética", explicou recentemente a autora de 45 anos numa entrevista à Woman&home. 

Publicou o seu primeiro livro em 2013, The Devil Wears Scrubs, inspirado nas suas experiências como médica. Nessa altura, estava longe de imaginar que se tornaria responsável por inúmeros best-sellers traduzidos para dezenas de línguas. Mesmo assim, devido à sua profissão principal – e por querer que os leitores se concentrem nos livros, não na autora –, prefere manter o mistério sobre o seu verdadeiro nome. Sob o pseudónimo Freida McFadden, nas poucas vezes em que foi fotografada para revistas, acredita-se que tenha usado uma peruca e óculos falsos. "Algumas pessoas já sabem, mas quero continuar a trabalhar sem que isso se torne um problema. Quero continuar a focar-me em ser médica", disse ao The New York Times, apesar de atualmente ter reduzido o seu volume de trabalho no hospital. Além disso, numa outra conversa com o The Washington Post admitiu que não gosta de ser o centro das atenções. "Adoro que as pessoas estejam a ler os meus livros, mas os holofotes voltados especificamente para mim são difíceis". "Não se trata apenas de privacidade, mas também de ansiedade social", adiantou. O entusiasmo em torno dos seus romances de suspense só aumentou a sua preocupação de não ser "aquela pessoa incrível que todos esperam que ela seja".

Entre dois mundos 

A médica cresceu no centro de Manhattan, filha de mãe pediatra e pai psiquiatra. "Tivemos uma educação normal, mas os meus pais divorciaram-se, por isso a infância foi um pouco diferente. Acho que isso inspirou um pouco a minha escrita. Tenho um irmão mais novo que trabalha na indústria da música. É ótimo a dar conselhos sobre negócios. Conforme envelhecemos, e os pais também, é muito bom ter um irmão ou irmã com quem podemos trocar ideias. É uma relação muito importante", confidenciou à The Gloss.

Quando tinha três anos, Freida começou a dizer que também queria ser médica e foi precisamente esse o caminho que escolheu. Mas antes de se formar em Medicina e especializar-se numa área relacionada com lesões cerebrais (neurologia/ investigação de danos cerebrais), estudou Matemática, em Harvard, uma das mais prestigiadas dos EUA. À parte disso, escrever sempre foi uma paixão. "Nunca pensei na escrita como uma carreira, mas sim como um hobby. Quando a autopublicação se popularizou, eu já escrevia um blog sobre a minha experiência na residência médica. Mais tarde escrevi um livro sobre o meu primeiro ano no internato (...) Publiquei por puro prazer. Vendi alguns milhares de exemplares e fiquei muito feliz. Pensei que esse seria o fim da minha carreira como escritora", contou ao The Washington Post. Porém, mais tarde, resolveu corrigir um livro que havia escrito quando estava na faculdade. "Acabei por publicá-lo. Depois tive uma ideia para outro, e continuei a escrever porque era divertido. Foi uma sensação incrível vender apenas alguns milhares de exemplares", coninuou. Segundo a própria, o livro é muito baseado na realidade, "o que é assustador". A protagonista faz turnos de 30 horas para uma "chefe horrível", inspirada na que teve na época.  

McFadden também contou que o que a fez ter força para publicar o primeiro livro foi a "rejeição". Quando escreveu um romance na faculdade, enviou-o para vários agentes literários, mas este foi sempre rejeitado. Na segunda tentativa, aconteceu a mesma coisa. "Por isso, decidi publicar por conta própria. O meu objetivo não era ficar famosa, era colocar o meu livro nas mãos dos leitores", garantiu ao jornal americano. 

Dos milhares aos milhões 

Interrogada sobre como explica o sucesso das suas obras, Freida McFadden lembrou que, em 2021, devido ao lockdown da covid-19, as pessoas estavam a ler mais e a inscrever-se no Kindle Unlimited – serviço de assinatura mensal da Amazon que oferece acesso ilimitado a um catálogo rotativo de mais de um milhão de e-books –, no qual ela também estava inscrita. "Isso ajudou. Depois, a Bookouture (uma empresa de e-books), entrou em contacto comigo e pediu-me para lhes vender um livro meu. Eu disse "não". Gostava de ter o controlo das minhas publicações. Mas eles foram muito persuasivos e acabei por aceitar", explicou. 

Na sua cabeça, só fazia contas: se eles dessem a conhecer o livro a 10 mil novos leitores, talvez dois mil lessem os seus outros livros, assim teria potencialmente dois mil novos leitores. "Isso valia a pena. Era só nisso que eu pensava: "Este livro vai ficar na lista de best-sellers do New York Times durante mais de um ano". Então, entreguei-lhes "A Criada", que foi lançado em abril de 2022. Simplesmente explodiu de uma forma que eu não esperava. Eles são uma editora de e-books, por isso pensei que talvez chegasse ao Top mil, talvez ao Top 100 da Amazon, e fim da história. Depois, a Grand Central, parceira deles para a versão impressa, publicou-o", detalhou a escritora. A Criada vendeu 3,5 milhões de exemplares e esteve mais de 130 semanas na lista de mais vendidos do The New York Times.

À The Gloss, confidenciou que o sucesso ainda hoje lhe choca. "Não posso falar do meu sucesso sem reconhecer que parte dele se deve à sorte (...) tudo se encaixou no momento certo", acredita. "Existem muitos escritores talentosos por aí que deviam ser muito mais populares do que aquilo que são… Eu tive sorte! Estava no lugar certo, à hora certa, com o livro certo", reforçou. 

O romance tornou-se um best-seller internacional e, recentemente, foi adaptado para o cinema com Sydney Sweeney e Amanda Seyfried nos papéis principais. A longa-metragem realizada por Paul Feig estreou nos cinemas portugueses no dia 1 de janeiro. Nela, Sweeney interpreta Millie, uma mulher com um passado criminoso que fica aliviada pela oportunidade de um novo começo como empregada doméstica de Nina (Seyfried) e Andrew, um casal da classe alta. "Mas o mundo dela começa a desabar quando descobre que os segredos desta família são muito mais perigosos do que os seus", revela a sinopse. Como afirmou a autora, a história expõe "as vidas que se desenrolam quando ninguém está a olhar".

Antes da estreia, McFadden admitiu que, de uma escala de um a dez, estava 103 empolgada com o filme. "Sinto-me muito privilegiada por ter as incríveis atrizes Sydney Sweeney e Amanda Seyfried a interpretar a Millie e a Nina", disse à Woman&home. "Quase todos os dias, pergunto ao meu marido: "Acreditas que isto está a acontecer?" E ele responde-me sempre algo como: "Sim, é muito estranho!"".

Os hábitos de escrita 

A escritora escreve no sofá de casa. Por isso, tentou deixá-lo "o mais ergonómico possível": "Tenho uma almofada de apoio lombar e um apoio para os pés. É simplesmente o lugar mais confortável da minha casa. Mas também é o lugar onde as pessoas provavelmente me vão interromper – e interrompem mesmo", revelou à The Gloss, dizendo ainda que talvez seja por isso que se habituou a escrever rápido. "Sei que uma criança vai entrar a correr na sala a qualquer minuto. Agora, temos uma porta, por isso posso fechá-la", acrescentou. Freida tem dois filhos. 

Sobre os seus processos criativos, a escritora adiantou à mesma revista que passa muito tempo a planear um livro, mas a escrita é rápida: "Penso num livro durante meses e depois gosto de escrever o primeiro rascunho muito rápido, porque quando começo a escrever, é só nisso que consigo pensar". Aliás, até tem dificuldades em dormir. "Se estou a meio de uma história e acordo às três da manhã, não consigo voltar a dormir porque começo a pensar nela. Então, tento mesmo terminar o rascunho rapidamente para poder dormir de novo! Eu adoro! Sinto-me como se estivesse numa montanha-russa. É como pular de um avião. É divertido, mas não dá para fazer isso o tempo todo", admite. Depois de escrito, passa mais um ano a editá-lo.

Também adora escrever capítulos curtos que terminam com suspense, porque sabe, como leitora, "da tentação de devorar "só mais um capítulo"". E, apesar dos "temas sombrios" presentes nos seus livros, o humor é muito importante para si. "Eu adoro rir. Não gosto de me levar muito a sério, e isso reflete-se nos meus livros. Espero que as pessoas deem umas gargalhadas com eles, mesmo que sejam thrillers", deseja. Além disso, tem um gosto especial por diálogos. "Costumo brincar e dizer que os meus livros estão a um passo de se tornarem peças de teatro", disse à mesma revista. 

Sobre a escolha de Freida McFadden como pseudónimo, está ligada à sua vida enquanto médica. O primeiro nome é um acrónimo para Fellowship and Residency Electronic Interactive Database, uma base de dados online gratuita da Associação Médica Americana (AMA) que permite a estudantes de medicina pesquisar, comparar e encontrar programas de residência e especialização (fellowship) nos EUA. McFadden surgiu, de acordo com a autora, pelo seu lado mais humorístico.