sexta-feira, 13 mar. 2026

Ficou provado. As árvores brilham durante as tempestades e ninguém sabia até agora

Investigadores americanos filmaram pela primeira vez descargas elétricas nas copas das árvores durante tempestades. O fenómeno, teorizado há décadas mas nunca observado no terreno, pode estar a danificar florestas em todo o mundo, incluindo as de eucaliptos e pinheiros em Portugal.
Ficou provado. As árvores brilham durante as tempestades e ninguém sabia até agora

Durante quase um século, os cientistas suspeitavam que as árvores podiam produzir pequenas descargas elétricas durante as trovoadas. Nunca ninguém as tinha visto. Agora, pela primeira vez, investigadores conseguiram observar e medir no terreno este fenómeno quase invisível e o que descobriram pode mudar a forma como entendemos a saúde das florestas.

As descargas em causa chamam-se coroas (corona discharges) e formam-se quando a carga elétrica acumulada nas nuvens induz uma carga oposta no solo, que sobe até às pontas das folhas e dos ramos, onde se liberta sob a forma de pequenos clarões azulados, invisíveis a olho nu. O fenómeno foi identificado durante o verão de 2024 em Pembroke, na Carolina do Norte, e descrito na revista científica Geophysical Research Letters.

"Estas coisas realmente acontecem; vimo-las; agora sabemos que existem", afirmou Patrick McFarland, meteorologista da Pennsylvania State University e autor principal do estudo, em comunicado conjunto da Penn State e da AGU (American Geophysical Union). "Finalmente ter provas concretas disso é o que torna tudo isto mais fascinante", acrescentou o investigador, na mesma nota.

Para detetar a radiação ultravioleta emitida por estas descargas, a equipa transformou uma carrinha Toyota Sienna de 2013 num laboratório móvel equipado com estação meteorológica, sensores de campo elétrico, telêmetro laser e uma câmara ultravioleta montada no tejadilho. "A parte mais divertida foi pegar numa rebarbadora e abrir um buraco de 30 centímetros no tejadilho. Matou completamente o valor de revenda, mas tudo bem", admitiu McFarland, no mesmo comunicado. Em apenas 90 minutos de observação, foram identificadas 41 coroas nas pontas das folhas de uma única árvore, algumas com duração de até três segundos e com o fenómeno a saltar de folha em folha. As coroas repetiram-se noutras espécies, como o pinheiro-americano (loblolly pine), e foram observadas em vários estados, entre a Florida e a Pennsylvania.

Os investigadores admitem que estas descargas podem queimar as pontas das folhas e danificar a cutícula, a camada cerosa protetora que reveste as plantas, levantando dúvidas sobre o impacto acumulado em florestas inteiras. Espécies como o eucalipto e o pinheiro-bravo, tão presentes no território português, poderão estar sujeitas ao mesmo fenómeno durante as trovoadas de verão, embora ainda não existam estudos equivalentes na Europa.

"É mesmo para aí que quero ir a seguir: perceber que impacto isto tem na própria árvore e na floresta como um todo", disse McFarland, revelando que planeia colaborar com ecologistas e botânicos. Se estas descargas fossem visíveis ao olho humano, as copas de todas as árvores iluminar-se-iam como um espetáculo de luz durante cada tempestade. "Provavelmente pareceria um fantástico espetáculo de luz, como se milhares de pirilampos a piscar em ultravioleta tivessem descido até às copas das árvores", descreveu o investigador, na mesma nota.

Quase cem anos de especulação científica. Noventa minutos de observação para finalmente provar que era real.

O estudo "Corona Discharges Glow on Trees Under Thunderstorms", de Patrick J. McFarland et al., está disponível em acesso livre na Geophysical Research Letters.