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Enumerar a “to do list” em voz alta, ter uma conversa consigo próprio antes de a ter com alguém ou pensar em soluções em voz alta antes de resolver um problema: são situações que podem ser interpretadas com preconceito, mas que, quando a porta se fecha e todos ficamos sozinhos, é mais comum do que imagina.
A psicologia vem mostrar que falar sozinho não representa necessariamente nenhum problema mental ou sinal de solidão – pelo contrário, pode ser apenas uma ferramenta para organizar pensamentos, regular emoções e tomar decisões importantes.
Quando uma pessoa verbaliza os seus pensamentos, torna o diálogo interno numa conversa explícita. Muitas vezes, é por isso que sentimos que dizer algo em voz alta o torna “mais real”. Este processo de se distanciar do que está a acontecer ajuda a que a visão do tema seja mais clara – mesmo que esteja apenas a falar consigo próprio.
Especialistas explicam que este “diálogo interno” ajuda a desacelerar o pensamento, a determinar e organizar melhor as prioridades e a reduzir a intensidade e importância de algumas emoções que, por vezes, parecem maiores quando não verbalizadas.
Posto isto, os benefícios são claros:
Falar consigo facilita o processo de regulação emocional, dando um nome àquilo que está a sentir e, posteriormente, uma solução para o aliviar. Muitas vezes não tem a ver com falar com alguém, mas simplesmente ouvir o que estamos a sentir como se fosse “outra pessoa”.
Em alturas de tomada de decisões importantes, verbalizar o que está a acontecer pode servir de “ensaio” para vários cenários e reduzir a incerteza e o stresse do momento.
Já para resolver problemas, falar sozinho pode também ser uma solução para ouvir as próprias ideias, detetar erros e reorganizar estratégias. Verbalizar todos estes pontos ajuda a manter a atenção como se estivéssemos a ouvir outra pessoa.
Noutras situações, falar sozinho pode fortalecer a autoconsciência: ao ouvir a própria voz, distancia-se dos chamados “pensamentos automáticos”, o que ajuda a entender melhor as suas reações face ao que está a acontecer.
Embora falar com um amigo ou familiar não deva ser desvalorizado, falar sozinho pode também ser uma forma de cuidado emocional para consigo. Não deve procurar ajuda profissional se o fizer – não é um problema grave – a menos que esse ato venha acompanhado de alucinações, perda de contacto com a realidade ou que isso comprometa a sua vida quotidiana.
No entanto, deve também ter algum cuidado na forma como fala consigo próprio
A forma como fala é mais importante do que a frequência: linguagem negativa e excessivamente crítica pode aumentar o stresse, enquanto uma “conversa” mais compreensiva promove o bem-estar.
No fundo, a relação que tem consigo próprio também se constrói através das palavras. Tal como escolhe cuidadosamente a forma como fala com quem gosta, vale a pena prestar atenção ao diálogo que mantém consigo. Afinal, essa pode ser uma das conversas que mais influencia a forma como enfrenta os desafios, lida com os erros e cuida da sua saúde mental.