quarta-feira, 22 jul. 2026

"Eu trato disso": a psicologia explica o hábito dos pais de reparar tudo em casa antes de pensar em substituir

Enquanto houver algo por reparar, haverá quase sempre alguém a dizer: “deixa estar, eu trato disso”. Mas há uma explicação mais profunda para esse hábito dos pais.
"Eu trato disso": a psicologia explica o hábito dos pais de reparar tudo em casa antes de pensar em substituir

Há uma figura que parece existir em quase todas as famílias: o pai que se recusa a deitar fora qualquer coisa que ainda possa ser reparada. É quase uma regra não escrita. Uma cadeira a abanar, uma torradeira avariada ou uma porta que deixou de fechar? Antes de pensar em comprar novo, já está à procura da caixa de ferramentas.

Para muitos, esse hábito parece ser desnecessário apenas para poupar, em muitos casos, uma pequena quantia de dinheiro. No entanto, aquilo que esta característica revela vai muito além de economizar.

São várias as teorias que explicam que arranjar objetos é uma forma de reafirmar o papel dos pais - como a Teoria da Identidade, que reforça que as pessoas constroem o seu senso de personalidade a partir dos papéis que desempenham. É neste contexto que, sobretudo no caso dos homens, a função de "arranjar o que está avariado" pode ser associada àquilo que é o papel que desempenham em proteger e resolver os problemas mais "físicos" da família, contribuindo para o seu bem-estar.

Já a Teoria da Autodeterminação, desenvolvida por Edward Deci e Richard Ryan, dá uma outra perspetiva. Prevê que qualquer indvíduo experimenta maior bem-estar quando satisfaz três necessidades: competência, autonomia e conexão. O ato de solucionar um problema que abrange os mais próximos pode servir, assim, como satisfação emocional.

No entanto, nem tudo é feito de teorias. Os pais atuais ainda cresceram numa altura em que os ensinamentos passados baseavam-se em soluções para aquilo que ainda podia ser arranjado. Com o tempo, essas bases passaram para uma forma de pensar (e educar) que prioriza a conservação dos bens, mesmo que até exista uma margem económica para os substituir.

No fundo, a tendência de reparar em vez de substituir não se explica apenas pela poupança ou pelo hábito. É uma combinação de identidade, aprendizagem e satisfação pessoal que atravessa gerações. Mais do que um gesto prático, arranjar o que ainda pode servir acaba por ser também uma forma de cuidar: da casa, da família e até da própria ideia de utilidade. E, enquanto houver algo por reparar, haverá quase sempre alguém a dizer: “deixa estar, eu trato disso”.