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Portugal conhece bem o problema que Espanha tenta resolver com bisontes. Verões de fogos devastadores, interior despovoado, matas sem gestão, biodiversidade em colapso. É nesse contexto que um projeto-piloto em El Recuenco, uma aldeia de 80 habitantes na província de Guadalajara, ganhou atenção além-fronteiras: desde o início do ano, nove bisontes-europeus pastam em semiliberdade numa área de 400 hectares de monte público, encarregues de consumir o combustível vegetal que alimenta os incêndios.
A iniciativa é da fundação Rewilding Spain, em parceria com as universidades de Manchester e do País Basco, e inscreve-se numa tendência que também chega a Portugal. Projetos como o Rewilding Portugal no vale do Côa ou iniciativas no Alentejo e no Tejo Internacional colocam as mesmas questões: que animais, que territórios, que resultados esperados?
Como funciona o projeto espanhol
Os cinco bisontes-europeus fêmeas e quatro machos que vivem hoje em Guadalajara chegaram da Polónia e dos Países Baixos há três anos. Adaptaram-se primeiro numa propriedade privada em Segóvia, onde nasceram os exemplares mais jovens, antes de serem transferidos para o monte público. A fundação afirma que estão monitorizados permanentemente e com "bom estado de saúde". O próprio município propôs a parceria, esperando também atrair turismo de natureza.
Estão previstas duas teses académicas: uma sobre a adaptação do bisonte às condições do interior ibérico, outra sobre o impacto na vegetação lenhosa. Os primeiros resultados comparativos são esperados daqui a dois anos.
O problema com os incêndios, segundo os críticos
A capacidade desta espécie para controlar fogos é precisamente um dos pontos mais contestados. Carlos Nores, investigador da Universidade de Oviedo e principal autor de um estudo publicado em 2024 na revista Conservation Science and Practice, recorda que numa experiência anterior na Serra de Andújar os bisontes consumiram menos matéria lenhosa do que os veados e não impediram que mais de um terço da área ardesse. A ligação às alterações climáticas, diz, "parece mais um slogan publicitário do que uma realidade cientificamente comprovada".
O estudo, assinado por quarenta investigadores de várias universidades e com a participação da Estação Biológica de Doñana do CSIC, desaconselha a introdução da espécie na Península Ibérica por quatro ordens de razões: climáticas (o bisonte-europeu é adaptado a climas mais frios), legais (não cumpre os requisitos da legislação espanhola nem as recomendações da UICN), éticas (taxas de mortalidade elevadas registadas em Espanha desde 2010) e de segurança rodoviária.
Há também um argumento histórico relevante para quem defende a "reintrodução" da espécie: o bisonte pintado nas grutas de Altamira não é o bisonte-europeu atual, mas o bisonte-estepe (Bison priscus), já extinto. No registo fóssil do Pleistoceno tardio da Península Ibérica não há evidências da presença do bisonte-europeu, o que fragiliza o argumento de que se trata de restituir uma espécie autóctone.
O que dizem os defensores
Um grupo de 12 investigadores respondeu na mesma revista, defendendo que a introdução pode ser ecologicamente justificada pela função da espécie na restauração ambiental e pelo sucesso reprodutivo já registado em núcleos semilibres em Espanha. Argumentam também que a ausência de fósseis abundantes não prova que a espécie nunca habitou a região.
Nores não se opõe à experimentação científica e reconhece que o projeto de Guadalajara é legal porque os animais estão em recinto fechado. O seu alerta é histórico: dos 17 projetos semelhantes realizados até hoje, pelo menos cinco terminaram com a morte de todos ou da maioria dos animais, e apenas um produziu informação científica publicada.
O que isto significa para Portugal
Com o rewilding a ganhar apoio institucional e mediático em Portugal, o debate espanhol serve de espelho. As perguntas são as mesmas: os grandes herbívoros são mesmo a solução para gerir a floresta? Quais as espécies adequadas ao clima mediterrânico? E em que medida estes projetos têm base científica sólida ou dependem sobretudo do apelo icónico dos animais escolhidos?
Por enquanto, os nove bisontes de El Recuenco pastam em montes que os seus antepassados, segundo os dados disponíveis, nunca pisaram. Os resultados vão demorar. Em Portugal, o debate começa agora a ganhar forma.