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Em 1871, um homem chamado Heurtin deixou cinco vacas numa ilha no meio do Oceano Índico e foi-se embora. A Ilha de Amesterdão tem apenas 54 quilómetros quadrados, fica a milhares de quilómetros de qualquer costa habitada e é varrida por ventos constantes. Não havia mais ninguém. Não havia forma de voltar atrás.
O que aconteceu a seguir é uma das histórias de sobrevivência animal mais improváveis de que há registo.
O que aconteceu à manada ao longo de mais de 130 anos?
As cinco vacas multiplicaram-se. Adaptaram-se ao frio, à escassez de água doce, ao isolamento total. Em 1952, a manada chegou a quase 2.000 animais. Em 1988, uma epidemia dizimou grande parte da população, mas os sobreviventes recuperaram. O último animal só saiu da ilha em 2010, quando as autoridades francesas decidiram avançar com um programa de restauro ecológico.
Durante décadas, a pergunta que ficou sem resposta foi simples: como é que cinco vacas conseguiram dar origem a uma manada capaz de resistir durante mais de um século em condições tão extremas?
O que revelou a análise do ADN?
Em 2024, uma equipa liderada pelo geneticista Mathieu Gautier, com investigadores do INRAE e da Universidade de Liège, publicou na Molecular Biology and Evolution os resultados de uma análise ao ADN da manada, feita a partir de amostras recolhidas em 1992 e 2006.
A primeira conclusão surpreendeu: as vacas tinham uma origem mista. Cerca de 75% do seu material genético vinha de raças europeias semelhantes à Jersey, adaptadas a climas frios e húmidos. Os restantes 25% eram de gado zebuíno do Oceano Índico, próximo dos rebanhos de Madagáscar e Mayotte. Ninguém esperava encontrar esta mistura numa ilha tão remota.
Mas a descoberta mais importante foi outra.
Como sobreviveram com apenas cinco animais fundadores?
Em 2017, um estudo publicado na Scientific Reports defendia que as vacas tinham encolhido drasticamente ao longo das gerações, reduzindo o tamanho corporal até 75% em pouco mais de um século, num processo conhecido como nanismo insular. Era uma teoria que fazia sentido intuitivo: animais isolados, com recursos limitados, a adaptar o corpo ao que a ilha lhes oferecia.
A nova investigação deitou essa explicação por terra. Não havia qualquer evidência genética de tal adaptação. Os animais já eram naturalmente pequenos quando chegaram. A combinação das duas linhagens, europeia e zebuína, ter-lhes-á dado desde o início as ferramentas para sobreviver.
Havia ainda outro enigma: populações fundadas por tão poucos indivíduos tendem a definhar com o tempo, por via da endogamia e das doenças hereditárias que ela arrasta. Os cientistas estimaram que esse índice chegou aos 30% no rebanho da Ilha de Amesterdão, um valor elevado. Mesmo assim, não foram detetados sinais de deterioração genética significativa. A explicação está no crescimento rápido das primeiras décadas, que ajudou a preservar a diversidade antes que os efeitos negativos se fizessem sentir.
No fundo, as cinco vacas de Heurtin trouxeram consigo, sem que ninguém soubesse, exactamente o que precisavam para durar.
A reconstituição desta história só foi possível porque alguém teve o cuidado de guardar amostras biológicas anos antes de o rebanho desaparecer. Sem um programa formal de conservação, esse material acabou por ser o único testemunho de uma população que começou do nada e resistiu durante mais de um século numa das ilhas mais isoladas do planeta.