Na era de fotografar refeições antes de as provar, de assistir a concertos pelo ecrã do telemóvel porque cada segundo tem de ser gravado e de planear férias em lugares com paisagens aesthetic porque é preciso ter o feed do Instagram perfeito, agora, paradoxalmente, esta mesma geração está a redescobrir o valor da imperfeição. O prazer da espera pela revelação lenta e o fator surpresa são algo que o digital não é capaz de oferecer. É neste sentido que as câmaras analógicas voltaram a conquistar terreno, sendo sobretudo jovens na casa dos 20 anos quem as procura.
Embora os smartphones ainda dominem a fotografia quotidiana, há um ressurgimento claro do interesse por formatos analógicos. De acordo com relatórios recentes de mercado, a procura por câmaras de filme tem aumentado nos últimos anos, com a Geração Z a desempenhar um papel central nesse crescimento. Um estudo de tendências aponta que mais de 40% dos novos compradores de câmaras de filme têm menos de 25 anos, o que representa uma mudança demográfica significativa no setor.
As vendas têm vindo a subir de forma consistente desde 2020, especialmente em modelos compactos e “entry-level”, que atraem iniciantes e jovens entusiastas.
Este interesse é confirmado por fabricantes tradicionais como a Kodak e a Fujifilm, que, em declarações à CNBC e em reportagens do New York Times (via ArtDaily), reconhecem o crescimento da procura por produtos analógicos.
As redes sociais como motor da tendência
O próprio fenómeno das redes sociais, nomeadamente o Instagram e o TikTok, que muitos apontam como causa da saturação digital, tem sido uma força que impulsiona o regresso da fotografia analógica.
Muitos conteúdos relacionados com câmaras de filme, como dicas de disparo ou vídeos de revelação em laboratório, são partilhados nas plataformas, atraindo um novo público para explorar este meio. Hashtags como #filmphotography e #filmisnotdead acumulam milhões de visualizações e mostram que a estética e o processo analógico continuam a ganhar espaço nos feeds sociais.
O mercado físico volta a ganhar procura
Os efeitos desta tendência também se fazem sentir no mercado de equipamentos e serviços. Câmaras clássicas como a Nikon FM2, a Canon AE-1 e outros modelos vintage voltaram a ganhar procura em plataformas de segunda mão, onde muitos equipamentos esgotam devido à entrada de novos consumidores neste segmento.
Os laboratórios de revelação, antes quase extintos, têm registado maior movimento e interesse por serviços de revelação e impressão de filmes, mostrando que o regresso do analógico não se restringe apenas ao ato de fotografar, mas também ao processo completo de produção de imagens.
Em Portugal
Embora a maior parte dos dados seja de âmbito internacional, a tendência também ecoa em Portugal. Lojas especializadas em fotografia e laboratórios independentes têm notado um aumento significativo na procura por filmes fotográficos, câmaras de rolo e serviços de revelação, especialmente entre jovens adultos.
Segundo relatos do retalho nacional, muitos consumidores procuram câmaras descartáveis, modelos clássicos ou mesmo filmes de rolo, o que indica que o interesse não é apenas global, mas está também presente no mercado português.
O ressurgimento da fotografia analógica não é apenas um revivalismo estético ou nostalgia superficial. É, em muitos sentidos, uma reação ao ambiente saturado de imagens perfeitas que dominam as redes sociais.
Fotografar com película implica paciência, um dos valores que contraria a lógica do clique imediato e da perfeição editada que caracteriza a Geração Z.
Num mundo obcecado por filtros, likes e imagens descartáveis, o analógico surge como um ato de resistência: a fotografia volta a ser experiência, erro e surpresa — e não um produto perfeito pronto para aprovação social.
[texto editado por Joana Ludovice de Andrade]