Nas encostas da Caríntia, no sul da Áustria, perto da fronteira com a Itália e a Eslovénia, as ovelhas fazem parte da paisagem há séculos. Mas nos últimos anos, esse equilíbrio tem sido posto à prova. A população de lobos na região tem crescido e, com ela, também o número de ataques aos rebanhos que pastam nas montanhas.
Foi a observar esse cenário que Rudolf Schaubach, antigo agricultor e caçador, decidiu agir. Em vez de optar pelas soluções mais comuns, como cercas elétricas ou cães de guarda, imaginou algo diferente, uma espécie de armadura para ovelhas. Passou três anos a aperfeiçoar a ideia até chegar a uma rede de plástico coberta de pequenos picos, que veste o corpo do animal como se fosse uma cota de malha medieval, segundo conta a Euronews.
Uma armadura pensada ao detalhe
O dispositivo mede cerca de 1,5 por 1,6 metros e pesa entre dois e três quilos, mais ou menos o mesmo que a lã natural de uma ovelha. Os picos são afiados, mas ficam revestidos por uma camada de borracha, para que nem as pessoas nem os animais se magoem ao manuseá la. A ideia de Schaubach é simples, se um lobo morder a rede, vai sentir uma dor incómoda, mas sem ferimentos graves, e essa experiência desagradável deverá ser suficiente para o afastar de futuros ataques.
Questionado sobre o que o levou a inventar este sistema, Schaubach explicou ao jornal austríaco Kronen Zeitung, citado pela Euronews, que devia existir uma forma de fazer com que ambos pudessem viver em liberdade.
Três anos de trabalho e milhares de euros investidos
Schaubach já gastou entre 50 mil e 60 mil euros neste projeto, um valor que inclui o pedido de patente junto do Instituto Europeu de Patentes e os honorários de advogados. Ainda não vendeu uma única unidade e procura agora uma empresa que consiga produzir a rede em maior escala. Acredita também que, com apoio de fundos europeus, o equipamento poderia tornar se acessível para os pastores que mais precisam dele.
O teste que nunca chegou a ser concluído
A primeira oportunidade de testar a invenção em condições reais surgiu em maio de 2026, no vale de Gailtal. O pastor Martin aceitou vestir três das suas ovelhas com o dispositivo, entre elas uma chamada Ananas. Schaubach chegou a instalar uma câmara no pasto, na esperança de registar o momento em que um lobo se aproximasse.
Esse momento nunca chegou. Antes de qualquer ataque acontecer, um veterinário oficial ordenou a remoção da rede, depois de a associação Tierschutz Austria, uma das organizações de defesa animal mais antigas do país, apresentar uma denúncia. A associação acusa o inventor e o pastor de eventual incumprimento da lei austríaca de proteção animal, alegando que o dispositivo limitava os movimentos da ovelha e podia colocá la em risco numa situação de fuga, ao ficar presa em arbustos. Um perito judicial concluiu ainda que as patas e o úbere continuam expostos, o que significaria que o lobo não seria, na prática, dissuadido de atacar.
Schaubach contesta esta visão. Garante que, durante os três ou quatro dias em que a ovelha usou a rede, conseguiu deitar-se e levantar-se sem dificuldade, e que o cordeiro mamou normalmente. Para o inventor, grande parte das críticas vem de pessoas que nunca falaram consigo e que formaram opinião apenas a partir de uma fotografia.
Nem todos os pastores estão convencidos
A reação de outros criadores de ovelhas tem sido sobretudo de desconfiança. René Krüger, que tem cerca de mil ovelhas a seu cargo, considera a ideia pouco prática. Teme que, com o tempo, a lã acabe por se enredar na malha, e alerta que os lobos, sendo animais espertos, podem simplesmente mudar de estratégia e atacar zonas do corpo que continuam por proteger, como as patas ou a cabeça.
Há também quem duvide se este sistema alguma vez poderá funcionar à escala de um rebanho inteiro. Vestir apenas uma ovelha demorou mais de uma hora, o que levanta a questão de como aplicar o dispositivo a dezenas ou centenas de animais sem grandes alterações ao design, nota o site Agrodigital.
Mesmo com a polémica, Schaubach não desiste. Está a trabalhar numa versão mais leve, focada sobretudo em proteger o pescoço e a parte inferior do corpo, e procura agora explorações fora da Áustria onde possa retomar os testes em condições reais.
Também em Portugal o lobo é um problema crescente
Apesar de o caso de Schaubach se passar na Áustria, a tensão entre pastores e lobos não é exclusiva da Europa Central. Também em Portugal, sobretudo nas zonas raianas do Norte e Centro, junto à fronteira com Espanha, os ataques do lobo ibérico aos rebanhos têm vindo a aumentar. Só entre julho e outubro de 2025, o Instituto da Conservação da Natureza e Florestas registou 22 ataques no Planalto Mirandês, que afetaram 113 animais e provocaram a morte de 83, na maioria ovelhas, segundo dados avançados ao Agroportal. Associações de produtores chegaram mesmo a queixar-se, este ano, junto do Parlamento, de ataques que já não atingem apenas um animal de cada vez, mas "à dúzia", segundo Jorge Laranjinha, da Associação Nacional de Criadores de Ovinos da Raça Churra Galega Bragançana, citado pelo Público. O Governo lançou entretanto o Programa Alcateia 2025-2035, com um orçamento de 3,3 milhões de euros para reforçar a proteção da espécie e as indemnizações aos produtores afetados.
O pano de fundo desta história é uma região sob pressão. Só na Alemanha, mais de 4 mil animais de criação foram mortos por lobos em 2024, a maioria ovelhas e cabras, de acordo com dados do Centro Federal de Documentação e Aconselhamento sobre o Lobo, citados pela Euronews. Na Caríntia, cerca de 2 mil pastores criam, ao todo, perto de 50 mil ovelhas.