Creme vaginal no rosto? Tendência das redes sociais coloca especialistas em alerta

É um creme para as mulheres em menopausa, mas está a ser usado para outros fins em vídeos nas redes sociais. Especialistas alertam para a falta de estudos sobre os riscos adversos.
Creme vaginal no rosto? Tendência das redes sociais coloca especialistas em alerta

As tendências vão e vêm e cada uma delas é escrutinada por especialistas: esta não é exceção. Desta vez, um creme cujo próprio nome indica o local de aplicação está a ser aplicado em áreas que os profissionais desaconcelham.

Creme de estrogénio vaginal. É prescrito para aliviar a secura, irritação e desconforto genital na fase da menopausa, devido à perda de estrogénio. No entanto, está agora a ser utilizado como "novo preenchimento" para o rosto e outras partes do corpo, com a promessa de suavizar rugas, reduzir a secura e flacidez e dar volume à pele. “Os pacientes definitivamente perguntam sobre isto, geralmente depois de ver vídeos no TikTok ou Instagram”, explica a Dra. Oma Agbai, professora clínica associada de dermatologia na University of California Davis School of Medicine, ao jornal britânico The Guardian.

A nova tendência sugere que o creme seja usado particularmente ao redor dos olhos, boca, pescoço e peito. Outras áreas incluem coxas, glúteos e abdómen.

“Alguns relatam que a pele se sente menos seca ou ligeiramente mais macia. Isso não é surpreendente, porque se sabe que o estrogénio influencia a hidratação da pele. Mas melhoria subjetiva não equivale a segurança comprovada ou benefício a longo prazo", continua a professora clínica.

A Food and Drug Administration (FDA), que regula a segurança dos medicamentos, não aprovou o uso destes cremes noutra qualquer parte do corpo além da recomendada. No entanto, já que o medicamento é aprovado, é comum que seja usado para outros propósitos.

Os benefícios não podem ser transversais?

“A biologia faz sentido, portanto o conceito não surge do nada”, Adam Friedman, professor e presidente de dermatologia na George Washington University School of Medicine and Health Sciences. Não é errado pensar que o estrogénio pode ajudar a aliviar as rugas da pele do rosto, já que estimula a produção de colagénio na pele, promove hidratação e melhora a elasticidade.

O problema centra-se em não ser comprovado como utilizar um creme destinado a outro propósito e que contrapartidas poderá trazer.

Ellen Gendler, dermatologista estética e professora clínica de dermatologia no NYU Langone Medical Center explicou ao jornal britânico que colocar pouco deste creme ao redor dos olhos não traz riscos: ela própria utiliza. No entanto, não é recomendado utilizar no rosto inteiro ou outras partes do corpo.

Agbai reitera, afirmando que são necessários mais avanços. "Precisamos de estudos maiores e de longo prazo avaliando segurança, dose e risco de cancro antes que qualquer recomendação generalizada possa ser feita", disse.

Quais são os ricos?

"Os potenciais efeitos adversos são reais", explica Agbai, que sublinha que o estrogénio circula noutras partes do corpo através da corrente sanguínea (aquilo que se conhece como absorção sistémica). “Isso levanta preocupações sobre efeitos hormonais, como sensibilidade nos seios ou sangramento anormal, e riscos teóricos em condições sensíveis ao estrogénio, como cancro da mama, ovário ou endométrio, particularmente em indivíduos de maior risco", explica.

Posto isto, a aplicação deste creme noutras regiões que não a zona genital pode potenciar esta absorção e efeitos secundários. Além do rosto, aplicação em áreas maiores, como abdómen, coxas e glúteos "são exatamente os cenários onde a cautela é necessária", alerta Agbai.

Entre as reações adversas, os especialistas alertam para reações locais, como irritação ou acne. Já pessoas com rosácea e melasma podem ter sintomas mais intensos.

Os profissionais aconselham alternativas mais seguras

“A boa notícia é que os pacientes não precisam de experimentar estrogénio vaginal para melhorar o envelhecimento da pele”, afirma Agbai. “Já temos opções bem estudadas, como retinoides tópicos prescritos, protetor solar diário de amplo espectro, antioxidantes tópicos como sérum de vitamina C, hidratantes de reparação da barreira, e tratamentos em consultório como lasers, microneedling e injetáveis quando apropriado. Estes tratamentos têm forte evidência e perfil de segurança muito mais claro.”

No fundo, já existem cremes faciais com estrogénio, que não devem ser confundidos com cremes vaginais, mas mesmo esses não são a primeira escolha dos profissionais: deve optar por escolhas já estudadas e comprovadas que se revelarão mais eficazes na sua pele.