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Parece apenas uma curiosidade de infância, mas a capacidade de dobrar a língua em forma de U tem despertado o interesse de especialistas em psicologia e neuropsicologia. Segundo esta linha de investigação, o gesto pode revelar mais sobre a forma como o cérebro organiza o pensamento e o controlo motor do que a simples predisposição genética alguma vez sugeriu.
O que este movimento exige realmente ao cérebro
Ainda que pareça simples, dobrar a língua em U envolve um nível de controlo neuromuscular preciso. Para o conseguir, o cérebro precisa de coordenar de forma deliberada os músculos da língua, ativando regiões associadas ao planeamento motor e à atenção concentrada. É esta ligação direta entre o córtex cerebral e a motricidade fina que serve de ponto de partida para a discussão científica sobre o que este gesto pode, ou não, revelar.
Que características surgem associadas a esta capacidade
A observação comportamental identificou alguns padrões que tendem a repetir-se com maior frequência em pessoas capazes de realizar este movimento. Entre os traços mais referidos por quem estuda o tema estão:
Pensamento criativo e abertura a soluções pouco convencionais
Capacidade analítica e tendência para refletir antes de agir
Perseverança perante tarefas que exigem tentativa e erro
Facilidade de adaptação na aquisição de novas competências físicas e mentais
Maior extroversão e autoconfiança em contextos sociais
Estas associações descrevem tendências observadas em grupos, não regras aplicáveis a cada indivíduo. A psicologia do comportamento trabalha com padrões populacionais, e as características de cada pessoa variam consoante uma multiplicidade de fatores.
Existe ligação com o desenvolvimento cognitivo
Há quem defenda, na área da neuropsicologia, que tarefas que exigem coordenação precisa entre intenção e movimento fino tendem a indicar vias neuronais bem desenvolvidas. O argumento é que o mesmo sistema nervoso responsável por executar este gesto com exatidão sustenta também processos como a resolução de problemas complexos e o pensamento analítico. Não se trata de uma relação de causa efeito direta, mas de uma sobreposição entre diferentes redes cerebrais.
Genética ou aprendizagem, o que determina esta capacidade
Durante décadas, dobrar a língua foi tratado como exemplo clássico de traço genético herdado, ao ponto de continuar a ser usado em muitas aulas de biologia para ilustrar princípios básicos de hereditariedade. Só que a investigação mais recente questiona essa visão. Um trabalho da Universidade de Delaware sobre os chamados mitos da genética humana mostra que gémeos idênticos, que partilham o mesmo código genético, nem sempre partilham esta capacidade, o que indica que fatores não genéticos também estão em jogo.
A plasticidade cerebral, ou seja, a capacidade do sistema nervoso central para criar e reforçar novas ligações, parece desempenhar um papel importante neste processo. Quem consegue realizar o movimento foi, muitas vezes, exposto a observar outras pessoas a fazê-lo durante a infância e insistiu até conseguir. Este padrão de aprendizagem por imitação e persistência é, em si mesmo, um indicador comportamental relevante.
O que esta capacidade não permite concluir
Os próprios especialistas que estudam o tema fazem uma ressalva importante. Dobrar a língua em U não deve ser usado como critério isolado para avaliar inteligência ou traçar perfis psicológicos. A personalidade resulta de fatores sociais, educativos, biológicos e ambientais que nenhum gesto isolado consegue captar. O movimento representa apenas uma manifestação pontual de coordenação motora e comportamento, não um diagnóstico.
Fica, ainda assim, uma curiosidade que ajuda a perceber melhor como o corpo e a mente comunicam entre si. Para além do simples truque social, o debate em torno deste gesto abre uma janela sobre a plasticidade cerebral, a aprendizagem motora e os limites daquilo que a genética, por si só, consegue determinar.