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Estragar os olhos é um gesto automático. A comichão aparece e a reação é imediata. Durante alguns segundos, o desconforto parece desaparecer, mas esse alívio é enganador, e pode contribuir para prolongar o problema.
A comichão ocular é um sintoma comum, com múltiplas causas possíveis. Entre alergias sazonais, exposição prolongada a ecrãs e fatores ambientais, como poeiras ou ar seco, o desconforto pode surgir em diferentes contextos do dia a dia. Segundo o National Health Service (NHS), estas são algumas das causas mais frequentes, sobretudo em períodos de maior concentração de pólen ou em ambientes pouco húmidos, onde a superfície ocular tende a ficar mais sensível.
Um gesto difícil de controlar
Esfregar os olhos não é apenas um hábito, mas também uma resposta imediata do corpo a uma sensação de desconforto. A comichão cria uma espécie de urgência física, difícil de ignorar, e o gesto surge como uma tentativa rápida de interromper essa sensação.
No entanto, esse alívio não corresponde necessariamente a uma melhoria real. O que acontece é uma interrupção momentânea do sintoma, que tende a regressar pouco depois. De acordo com a Cleveland Clinic, esfregar os olhos pode estimular a libertação de histamina, uma substância envolvida nas reações alérgicas, o que pode intensificar a irritação em vez de a reduzir. Ou seja, o gesto que parece resolver o problema pode, na prática, estar a reforçar o mecanismo que o provoca.
O ciclo de alívio que se torna prejudicial
A repetição deste comportamento cria um padrão difícil de quebrar. O alívio imediato reforça a ideia de que esfregar os olhos funciona, levando a que o gesto se repita sempre que o desconforto regressa.
No entanto, esse ciclo — comichão, alívio, regresso do sintoma — pode contribuir para prolongar a irritação ao longo do tempo. Em vez de atuar sobre a causa, o gesto limita-se a “adiar” o problema, mantendo o desconforto ativo.
Ione Alexim, oftalmologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, citado pela CNN Brasil, alerta que esfregar os olhos com frequência pode aumentar a inflamação da superfície ocular e, em situações mais persistentes, causar pequenas lesões na córnea, ou em casos mais graves pode levar ao descolamento da retina. Embora estes casos não sejam a regra, mostram que o impacto do gesto pode ir além de um simples hábito inofensivo.
Quando a comichão é sinal de algo mais
Embora muitas situações sejam pontuais, a comichão ocular também pode estar associada a condições mais persistentes, como conjuntivite alérgica ou olho seco. Nestes casos, o sintoma não desaparece por si só e tende a manter-se ao longo do tempo, sobretudo se não for identificado o fator que o desencadeia.
O NHS refere que fatores como alergias, uso prolongado de lentes de contacto, exposição a poluentes ou ambientes secos podem estar na origem destes quadros, tornando o desconforto mais recorrente.
Perceber a origem do problema é, por isso, essencial para evitar que o sintoma se torne persistente — e para evitar respostas que, apesar de imediatas, não resolvem a causa.
O que fazer em vez de coçar
Evitar esfregar os olhos pode parecer uma recomendação simples, mas na prática exige consciência. Ainda assim, é uma das formas mais eficazes de evitar o agravamento da irritação.
Existem, no entanto, alternativas que permitem aliviar o desconforto sem desencadear o ciclo de inflamação:
Aplicar compressas frias: ajuda a reduzir a sensação de comichão e a inflamação, proporcionando um alívio mais estável.
Usar lágrimas artificiais: especialmente úteis em casos de secura ocular, ajudam a hidratar e proteger a superfície dos olhos.
Fazer pausas no uso de ecrãs: parar regularmente e piscar com mais frequência ajuda a reduzir a secura.
Evitar ambientes irritantes: poeiras, poluição ou ar condicionado podem intensificar o desconforto.
Identificar a causa do problema: quando a comichão é recorrente, o foco deve ir além do alívio imediato.
Usar antialérgicos: apenas sob a supervisão de profissionais de saúde.
Mais do que substituir um gesto por outro, trata-se de evitar o ciclo que mantém a irritação. Porque, neste caso, o alívio é real, mas não duradouro. E é nessa diferença, entre o que se sente e o que acontece, que um gesto aparentemente inofensivo pode prolongar o problema.