A Cláudia é, sem dúvida, uma mulher muito empoderada, livre e inspiradora. O que é que mais gosta em si? De que forma se vê aos 59 anos?
Acho que me vejo exatamente como você falou. Eu sempre fui livre... Desde muito nova. Fui criada por uma mãe absolutamente livre e que me mostrou que era assim que uma mulher tinha que viver. E não viver dando satisfação, sendo subserviente ao patriarcado. Perdi meu avô, que era português, e meu pai muito cedo. Então, cresci numa família de mulheres: era minha mãe, minha avó, minha irmã e eu. A minha mãe era realmente muito avant-garde, muito para a frente, muito moderna. Tinha uma rede de academias de dança. Também era bailarina, mas lesionou os quatro meniscos quando tinha 23 anos e, por isso, teve de acabar a carreira.
Só para você ter uma ideia… O meu avô português era barão do café. Então, eles eram da Alta Sociedade de Campinas, uma cidade menor no Brasil, no interior de São Paulo. Imagina ela fazer dança… Era uma coisa de «prostituta». Ela se formou dentro de uma sala de aula que o meu avô fez, chamando um mestre russo para lhe dar aulas particulares… Infelizmente, a carreira dela foi curta, mas é para você ter uma ideia de como ela era para a frente.
Foi uma guia e uma inspiração para si…
Sim… Tal como eu disse, ela criou uma rede de academia de dança. Eu tinha de 15 para 16 anos quando fiz o meu primeiro musical, que era o Chorus Line, um musical americano. Eu fazia a personagem mais velha da peça. Era uma das protagonistas. E, por causa desse espetáculo, as pessoas me conheceram pela primeira vez. Fui chamada para fazer a Playboy. Eu fiquei sem saber o que fazer e a minha mãe disse: «Olha, eu acho incrível, acho que se for muito bem feito, de boa qualidade, de bom gosto, que você tem que fazer». Fui, fiz e deu tudo errado, porque eu não queria tirar a roupa… Eu era uma adolescente, né? Depois fui fazer um ensaio dentro de uma sala de dança e aí me senti completamente à vontade. Acabou ficando um ensaio lindo de morrer.
Saiu essa Playboy e todos os alunos da academia da minha mãe foram embora. Ela ficou com 10 alunos, de 300. E eu, culpadíssima, falei: «Mamãe, que loucura isso. Eu não deveria ter feito, está vendo, eu te prejudiquei». Ela disse: «Minha filha, essas pessoas que foram embora não merecem estar aqui. Elas não são bem-vindas à minha casa, porque se elas pensam desse jeito, para mim não interessam. Eu prefiro ficar com as minhas dez alunas e com um ensaio seu lindo de morrer». Você entende? Foi esse tipo de criação que eu tive.
Sempre viveu com muita liberdade…
Isso! E, por ser livre, também sempre fui polémica. Porque quando eu falo da mulher, quando eu falo do prazer da mulher, de menopausa, de libido ou de vibrador, é um escândalo… Mas sempre foi assim.
Nasceu em Campinas, mas cresceu sobretudo em São Paulo. O que mais recorda dessa infância? Não teve muito tempo para brincar…
Não tive! Comecei minha carreira muito cedo, não tive adolescência. Eu nunca bebi. Sempre tive muito foco na saúde, na dança, no corpo, porque eu precisava dele. Eu passava de oito a 10 horas por dia dentro de uma sala de aula de ballet clássico. Então, não brinquei. Mas não brinquei porque eu não quis, tá? Ninguém me obrigou a fazer nada disso. Eu não queria estar em outro lugar que não fosse ali.
Foi na adolescência que começou realmente a minha carreira, porque ganhei uma bolsa de estudos do American Ballet Theatre aos 13. Nessa altura, já vivia em Nova Iorque como uma adulta… Quando voltei, fui para a Argentina, trabalhei profissionalmente no Teatro Colón, com a Susana Jiménez, uma das maiores vedetes da Argentina. Tinha apenas 15 anos.
Acredito que se tenha sentido deslocada muitas vezes… Não sentiu em nenhum momento que isso a tenha feito perder outras coisas?
Não percebia isso, não. Eu queria fazer, queria ir, queria aprender, queria dançar, cantar, representar… Eu não queria fazer faculdade. Nessa altura, nem tinha faculdade de arte dramática. Não queria nada que não fosse aquilo. O meu universo era esse e já estava destinado.
Era uma criança agitada e expansiva. Entrar para o ballet foi uma forma de canalizar essa energia?
Claro que me ajudava muito nessa energia. Só que eu dançava oito horas por dia e estava pronta para dançar mais oito, entendeu? Sempre fui muito agitada, muito dinâmica, sabe?
E segura? Era segura?
Não era. Não era, porque eu era feia. Eu era feia e minha irmã muito bonita. Diziam que ela era nda e eu era «a talentosa». E eu dei um jeito de me refazer.
Através do carisma?
Com certeza. Um carisma criado e pensado. Foi uma estratégia. Vi que tinha que ganhar por aí. Não tinha como. Né? Com uma irmã linda, de um lado, e a minha melhor amiga, linda de morrer, do outro… Eu disse para mim: «Eu tenho que fazer alguma coisa para ficar brilhante». Me lembro desse dia. Os meninos ficavam em volta dessa minha amiga, Patrícia, e eu ali, meio sozinha. Então eu falei: «Eu tenho que roubar o público dela de algum jeito». Comecei a contar histórias… Em pouco tempo, estavam todos os meninos me ouvindo. Depois virei uma mulher enorme; depois virei uma mulher carismática e, por fim, fiquei bonitona.
Eu falei para minha irmã (a gente se dá muito bem): «Um dia o Brasil vai dizer que eu sou a mulher mais bonita do país». Depois da Playboy, fiz a capa da revista Manchete, que era uma revista importantíssima. E a capa dizia isso mesmo: «Claudia Raya, a mulher mais bonita do Brasil». (risos)
Tal como falávamos, com apenas 13 anos, ganhou uma bolsa de estudos para estudar no American Ballet Theatre, em Nova Iorque, nos EUA. Aos 15, mudou-se para Buenos Aires. Já as descreveu como um «salto de maturidade forçado». Deve ter enfrentado inúmeros desafios…
Não foi fácil. Foi dificílimo. Foi um dos maiores desafios da minha vida. Mas eu tinha enlouquecido tanto a minha mãe para ela aceitar que eu fosse, que eu não podia esmorecer. Passei um momento bem complicado lá, de assédio, do coreógrafo que estava me recebendo na casa dele. Isto em Nova Iorque, com 13 anos. Ele me assediou e eu joguei uma coruja na cabeça dele. Uma coruja de cristal. Minha mãe me disse sempre: «Se alguém pegar em você em algum lugar que você não queira, você joga o que estiver do lado, você joga na cabeça da pessoa!». Foi assim que eu aprendi e foi o que aconteceu. Eu saí correndo, sozinha, no ano de 79. Foi uma loucura.
Como surgiram essas oportunidades?
Ganhei uma bolsa de estudos para o American Ballet. Nessa altura, pela primeira vez, o Giorgio Balanchino, que era o diretor, fez com que os diretores dele viajassem pela América Latina, procurando novos talentos para estudar lá. E eu fui uma das escolhidas. Não queria abrir mão dessa oportunidade de jeito nenhum. Houve um momento em que eu queria voltar depois de ter passado por aquela situação, mas minha mãe disse: «Não, minha filha. É o seguinte, o que você passou não é fácil, mas bem-vinda ao mundo real. Esse é o mundo cruel que a gente vive, e você vai ter que aprender a viver nele. E eu estou aqui para o que você precisar, com as duas mãos estendidas, mas você vai ficar um ano aqui, porque eu lutei muito para mandar você para cá, para sustentar você aqui».
E como é que se lida com isso?
Na hora eu fiquei brava, fiquei bem triste com ela. Depois percebi que tinha toda a razão, porque senão eu teria virado uma mimada, uma menina que fala para fazer uma coisa e faz outra. Isso foi fundamental para a formação do meu caráter.
É uma mulher muito alta. A dada altura isso tornou-se um problema no universo da dança?
Na dança sim, mas na vida não, porque na escola, justamente por eu não ser bonita, tinha um diferencial: era alta. Então estava sempre acima do bem e do mal. Era alta e ainda botava salto, porque eu queria! Era o jeito de eu aparecer. A altura sempre esteve a meu favor… Agora, na dança clássica, foi um problema sim, porque eu cresci muito e só consegui entrar para o corpo de baile do Cólon, porque dançava com um bailarino Jugoslavo. Ele era muito alto e não é fácil achar bailarinos assim. Parei com a dança clássica, mas nos outros tipos de dança, nunca foi um problema. Daí eu me tornei atriz e a minha altura esteve a meu favor. «A Claudia Raia que é a grandona, a poderosa!».
Quando é que percebeu que não se ficaria apenas pela dança? Ao chegar ao Brasil aventurou-se pelos musicais quando mais ninguém o fazia no país…
Quando eu morei em Nova Iorque, fui ver o Chorus Line. Eu olhei para aquilo e disse: «É isso que eu quero fazer!». Até então, eu dizia que queria ser a melhor bailarina do mundo. Eu só queria ser bailarina, mas assistia os musicais todos na TV. Eu queria sapatear, dançar, cantar… Só que não sabia que isso chamava musical. Aí quando eu vi Chorus Line fiquei louca. Eu entrei para o espetáculo com cabeça de bailarina, mas na verdade eu cantava, eu representava….
A sua carreira de produtora começou aos 19 anos…
Eu passei a ir a Nova Iorque todos os anos, assistia a tudo! Aí eu vi o espetáculo Little Shop of Horror, sobre uma planta carnívora que come as pessoas. É um musical adorável e eu fiquei encantada com aquilo. Eu falei: «Gente, isso tem que ir para o Brasil, tenho muita vontade de fazer esse espetáculo!». Não era papel para mim, eu não queria fazer como atriz, queria fazer como produtora.
Pensei no Walter Clark, que foi quem trouxe o Chorus Line para o país, o homem que inventou a Globo e que era meu tutor… Era como se fosse meu pai. Acompanhei muito de perto a produção dele no Chorus… Ele conversando com os atores, chamando o iluminador, e o diretor. Eu fui vendo aquilo tudo se construir, que era mais ou menos o que minha mãe fazia nos espetáculos dela de fim de ano… Minha mãe também era uma grande produtora e sempre tomei gosto por isso. Aí pensei que se me associasse a alguém que tivesse mais noção do que eu, principalmente da parte financeira, conseguiria fazê-lo. Felizmente achei um sócio e ele topou de trazer o espetáculo. Foi um dos maiores fracassos da minha vida! (risos) Eu levei um tombo que você não tem ideia… Vendi um carro, um apartamento pequenininho que eu tinha comprado, tudo… Foi tudo! Inclusive entrei como atriz num papel que nem era para mim, um papel de uma soprano… Pensei que pudesse levantar o público, mas não adiantou.
Porque o público não estava habituado?
Não… É porque o espetáculo tem um problema: ele não é nem adulto, nem é infantil. Para o adulto ele é meio infantilizado, e para o infantil ele dá medo. Então ele fica no meio do caminho… Depois disso eu falei: «O quê? Eu tenho que aprender a fazer esse negócio! Como é que eu levo essa porrada? Eu vou fazer isso, vou aprender a fazer isso!». E aí comecei a criar espetáculos… Fiz uma trilogia de sete anos de Raia: Não Fuja da Raia, Nas Raias da Loucura e Carna Raia. Foram sete anos de três espetáculos que foram imensamente um sucesso. Ganhei dinheiro, aprendi a produzir corpo a corpo. Tem que fazer tudo. Já levei muitos tombos, mas já fiz grandes sucessos. Perdi dinheiro, já ganhei muito dinheiro. Essa é a vida da produtora e eu gosto desse risco.
Se você me der uma coisa só para produzir, ou seja, sem atuar, eu vou gostar tanto quanto se eu tivesse como atriz, sabe? Eu gosto de produzir, é um negócio que me dá prazer. Então, eu acho que a minha carreira para frente, vai ser muito de produtora.
O facto de não ter tido formação era uma coisa que a preocupava? «Foi na vida que eu aprendi a representar», disse numa outra conversa.
É… Eu não fiz curso de interpretação, e isso me incomodava. Eu estudei muito dança e era muito exigente e técnico. Então eu disse: «Gente, como é que eu faço esse negócio? Como é que todo mundo ri de mim? Todo mundo aplaude? Todo o mundo fala que o meu trabalho é maravilhoso, e eu não sei o que eu tô fazendo».
Era muito natural…
Era muito natural, mas eu custei a entender que eu tinha vocação para isso. Eu achava que tinha que estudar, estudar, estudar… Então comecei a ler, a assistir espetáculos, a conviver com pessoas. Aí comecei a fazer televisão e apareceu o Jô Soares na minha vida, que foi o meu grande mestre, e de tantos outros comediantes. Então, às vezes, estava marcada para chegar às 15 horas da tarde para gravar e eu chegava às 12h. Meio-dia eu estava lá porque eu queria ficar olhando todos eles. Eu queria aprender, queria fazer como eles faziam.
Beber dos outros…
Foi uma sede enorme, de beber dos outros, exatamente. E beber só dos mestres, só dos grandes. Isso me ajudou muito. Tive a sorte de conviver e de perceber tudo o que eles faziam, como eles criavam os personagens…
Também já admitiu que a sua mãe teve um papel fulcral em manter-se com os pés bem assentes na terra… Quando chegou ao Brasil foi fazer o casting para o espetáculo Chorus Line e chegou a dizer ao produtor que iria ser a personagem principal, muitos antes de mostrar aquilo que conseguia fazer… Ficou como substituta, porque foi uma professora que ficou com o papel. Ficou chateada e queria tomar medidas, mas a mãe não deixou. «Você tem de começar por baixo!», disse-lhe. Deve ser fácil nos deslumbrarmos quando somos tão novos…
Nossa, super! Muito nova, fazendo muito sucesso… «Quem você pensa que é? Você é uma menina. Você não sabe nada da vida. Você tem que começar de baixo!», ela me disse.
Depois começou a ver-se nas revistas todas…
Tudo! As revistas todas ali. E eu para a minha mãe: «Olha isso! Eu sou capa de todas as revistas!». Mais uma vez ela me puxou: «É, mas isso não tem a menor importância porque isso não faz carreira. Vamos trabalhar, vamos trabalhar!». Eu acho que foi um pouquinho a mais, mas eu agradeço que tenha sido assim, por eu não ter celebrado tanto o sucesso. Não dava tempo de eu o celebrar. Eu estava tão preocupada com o que eu tinha que fazer, e bem feito, tecnicamente muito bem feito… Felizmente aprendi a celebrar mais para frente, mais velha. Percebi que a minha mãe tinha mesmo de ser muito dura. Porque tudo que acontecia em volta de mim era muito grande. E se não fosse assim, eu ia desandar.
A dança é o que mais a distingue das outras atrizes? Acredita que isso lhe deu outro foco e disciplina?
O canto também. Fazer as três coisas… Dançar, cantar e representar… Ser uma artista completa, uma showwoman. Isso não era muito comum no Brasil. Hoje a gente já tem muitas pessoas assim, muitos talentos maravilhosos e muitos nasceram da «minha barriga». Nasceram nas minhas produções, mas são pessoas que ainda não são tão conhecidas, não fizeram televisão. A pessoa vai fazendo o caminho, né? Mas não é comum, sabe? Ter uma pessoa com um nome tão grande, que canta, que dança, que representa, faça comédia, drama, qualquer coisa. Agora sou apresentadora também. Comecei a fazer um caminho como apresentadora que eu queria muito. Acabei de fazer um reality show da Netflix. Se chama Sua Mãe Te Conhece? e vai para o ar mundialmente em agosto deste ano. Eu estou bem feliz com isso. Foi uma experiência completamente nova. Eu estava fazendo um videocast já há um ano e meio, que se chamava MaterniDelas, que também é sobre maternidade. E esse reality também é sobre maternidade. Eu tenho uma maternidade muito complexa, né? Eu tenho um filho de 28, uma filha de 23 e outro com quase três. Então, sou uma mãe diferenciada…
É uma mulher do palco… Diz que é no teatro que se sente mais vulnerável e mais viva. Mas também gosta muito de fazer telenovela. Acha que ainda existe preconceito com as novelas? Há quem ache que seja fácil ou menor…
Sem dúvida nenhuma. E eu acho o oposto! Principalmente quem é de teatro sabe que tem muito preconceito com televisão. E principalmente com telenovela. Telenovela é dificílimo de fazer. Você gravar 30 cenas por dia é um trabalho hercúleo, desumano. E manter a qualidade desse trabalho durante 210 capítulos, 200 capítulos, é uma loucura. Eu não sei se tenho vontade de fazer mais novelas, porque é muito comprido. Eu já fiz demais… Hoje as novelas, a maioria da TV Globo, são gravadas no Rio. Eu moro em São Paulo. Tenho um bebê pequeno. Não quero fazer mais uma coisa tão comprida. Quero fazer séries. Fiz, inclusive, uma série para a Netflix chamada Fúria. Entra no ar também agora em maio. Isso eu gosto de fazer. Eu vou, gravo um mês e meio, dois e pronto. E eu amo audiovisual. Eu não vou deixar de fazer de jeito nenhum.
A Cláudia leva muitos fantasmas dos personagens para casa?
Jamais! Eu tenho um desprendimento dos meus personagens total. Há muita terapia envolvida, claro. Então, a gente aprende a descolar e falar: «Isso aqui não é meu, essa mochila não é minha, é do personagem. Deixa eu sair daqui bem leve e solta que eu não tenho nada a ver com isso».
Numa entrevista em janeiro de 2025, disse que estava na menopausa há 8 anos. Inclusive engravidou durante esse período. Muitas pessoas disseram que foi um milagre… Mas a Claudia já sabia desde os 20 e tal que estava destinada a ter três filhos…
Sabia! Quando eu tinha 20 anos fui nessa cartomante que, na verdade, era uma paranormal, e ela disse: «No seu caminho tem dois filhos com o mesmo homem, um menino e uma menina, e você tem um filho muito mais para a frente com o seu terceiro casamento que vai ser livre-arbítrio. Você vai escolher se quer ou não». Aquilo ficou… Ela acabou virando minha mentora porque foi ela que me ensinou o budismo. É uma mulher muito incrível.
Daí, um dia, quando eu tinha 48 anos e já estava casada com o Jarbas, ela me disse: «Olha, é esse homem!». Ele não tinha filhos, então com 48 anos, ela me liga: «Olha aqui, tem de colher óvulos!». Eu nem sabia se eu tinha mais óvulos. Ela insistiu. Procurei o médico, consegui tirar seis óvulos bons, que já era um milagre. Toda a gente diz que isso é impossível… Não é! Aí fiquei com aqueles óvulos ali pensando se eu realmente queria ser mãe de novo. Se eu estava a fazer isso por causa do Jarbas, ou se eu realmente queria isso. Você não pode depositar no outro uma vontade que nem é sua. Principalmente essa responsabilidade.
Quando eu tinha 55 anos, ele me disse: «Meu amor, tudo tem um limite nessa vida… Eu sei que você é um ET, mas você tem 55 anos e, em algum momento, isso vai dar errado. Ou a gente vai ou não vai». Falei: «Tá bom! A gente vai». E assim foi. Na verdade ia ser uma inseminação, o embrião não se formou. Acabei por engravidar naturalmente…
A educação que dá ao seu filho mais novo é muito diferente daquela que deu aos mais velhos? Que mãe é para o Luca?
Acho que eu não sou muito diferente. A minha qualidade, a minha perceção é muito maior. A qualidade do tempo que eu tenho com ele, mesmo que seja uma hora, é diferente. Tem outro valor. Quando você tem 30 ou 36 anos, você quer estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Quando você tem 59 você sabe onde você quer estar! Essa é a diferença! Muito bacana ser mais madura, muito interessante. Eu amo ser mãe. Esse é o meu papel principal.
Tem uma relação muito aberta com os seus filhos… Sempre foi assim?
Não existe tabu, quando você não o cria. O tabu não existe, na verdade. Homofobismo, por exemplo... Sei lá, 70% dos meus amigos são gays. Meus filhos viram a vida inteira isso da maneira mais normal do mundo, porque é normal. A sexualidade... O tempo todo eu inseri o assunto sexualidade, droga, masturbação. «Minha filha, se investigue, você só pode pedir o que você quer, se você souber o que você gosta. O órgão da mulher é para dentro. A gente sempre tá com a perna cruzada, não pode isso, não pode aquilo, não pode nada. Então, liberte-se, entendeu? Sexualmente. Seja livre, faça o que você gosta, faça o que te dá prazer. Não tem que ficar servindo ao homem», disse sempre. Tudo foi falado, sabe? Tanto com um, quanto com o outro. O Enzo, por exemplo, aos 10 anos ficava no banheiro horas. E eu disse para ele: «Meu filho, olha, eu sei tudo que você tá fazendo, você tá se masturbando, é incrível. Eu faço isso, papai faz isso, todo mundo faz isso. Uma delícia, tá? E tem que fazer. Só preciso de um sinal para ter certeza que você não morreu lá dentro. Porque eu tenho que ter um mínimo de acesso’». Ele falou: «Tá bom mãe, eu vou pensar num jeito». Voltou dois dias depois com uma plaquinha escrita: «sex in progress». Tinha com uma luzinha: quando a luzinha estiver acesa, ninguém entra; quando a luzinha estiver apagada, pode entrar. Agora, falar do prazer da mulher é sempre um tabu. Quando eu contei isso do Enzo, não houve problema, mas quando eu falei da Sofia teve uma repercussão muito grande. Uma loucura. Deputados entrando com processo contra mim sobre a minha filha.
Falar sobre a menopausa continua a ser um tabu? Há muito aquela ideia de que uma mulher que entra na menopausa não serve mais… Mas já ouvimos falar mais sobre o assunto. A Claudia deu um pontapé na porta e entrou!
Com certeza. As mulheres saem quase se ajoelhando aos meus pés por eu ter trazido esse tema. Mulheres que descobrem que estão na menopausa durante o meu espetáculo…. A partir dos 40 anos, chega o patriarcado e coloca você no limbo. Porque você está «velha». Então, se você não reproduz mais, você não produz mais. É muito mais fácil dizer: «Você está velha. Está gorda. Está passada. Agora eu vou trocar você por duas de 20». E aí colocam a gente como se fossemos a verdadeira finitude e você acredita naquilo. Porque você está olhando, você está engordando, seus filhos saem de casa, você está com a síndrome do ninho vazio. Não sabe o que está acontecendo. Começa a sentir um monte de sintomas que te deixam no chão. Tudo isso acontece ao mesmo tempo, só que ninguém disse que isso ia acontecer. Porque a saúde da mulher é negligenciada. Ninguém pesquisa sobre isso.
O mesmo acontece dentro dos consultórios?
Sim. Porque na verdade, no fundo, os médicos não correram atrás dessa informação. Alguns sim, claro. Os que saíram na frente hoje são especialistas em menopausa. Mas a maioria não. Às vezes as pessoas precisam de ir a nove ou 10 médicos para acharem o ideal. Até chegar lá, ouvem absurdos, tipo: «Bem vinda à velhice!», ou «Agora vai ser ladeira abaixo». Que loucura. Eu fico muito puta!
«Envelhecer é um privilégio, não um castigo», defende. Mas acredito que nem todos os dias sejam fáceis. Como é que a Claudia realmente lida com o passar do tempo?
A idade não me pega! Tipo: «Eu não consigo fazer isso. Estou com 59 anos, isso não é mais para mim!». Eu acho que hoje sou mais seletiva. Isso é o que a idade me trouxe e, para mim, é maravilhoso. «Eu não quero estar com aquelas pessoas. Não quero ir para esse lugar, porque eu vou ficar desconfortável. Não vou achar graça!». Estou mais seletiva, mas não impeditiva. Entende? Claro que eu não tenho força todos os dias. Hoje, por exemplo, não queria levantar de jeito nenhum. Mas nunca é tristeza, porque isso não é oriundo da minha pessoa. Eu não sou uma pessoa triste, não sou uma pessoa deprimida. A depressão, a tristeza, tudo isso vem da menopausa. Já a senti, claro. Mas desde que comecei a fazer a repulsão hormonal e que faço o meu tratamento, eu acho que equilibrou.
Este espetáculo é serviço público. É também um levantar de bandeira? Um ato político?
Total. É um ato político, um levantar de bandeira… É um serviço público importantíssimo. Sinceramente, eu não sabia que ia ser tudo isso. A gente estreou aqui, vendo o que ia ser. Eu sabia que ia ser polémico. O espetáculo foi feito para chocar, não tem medo de nada. Só que o que acontece? A dramaturgia traz um pertencimento às pessoas que estão assistindo. Porque elas olham e se sentem representadas. Conseguem rir de si mesmas. A gente toca o coração das pessoas de uma maneira efetiva, numa fase que é tão dura, tão nevrálgica, tão pesada. E depois tem a brincadeira entre a Cláudia e o Jarbas, que são menopausados e antropausados, a se relacionarem como casal fora de cena. Depois isso vira uma roda de conversa que, se a gente não parar, o negócio vai… Dura 40 a 30 minutos. Ouvimos as pessoas. Eu percebi que elas tinham muita coisa para dizer. As mulheres precisam de falar, estão engasgadas, mudas! E a decisão de criar essa conversa no final foi a melhor coisa que a gente fez, porque é emocionante. O primeiro bate-papo aqui no teatro TIVOLI durou uma hora e vinte. Foi uma loucura. É muito forte e é catártico. Porque os homens também disseram coisas lindas. Tivemos um homem pedindo desculpas para a mulher em público porque não lhe deu a mão, não estendeu, não sabia o que ela estava passando. E aí ele chorou, ela chorou, o público inteiro chorou. É um grande momento de partilha.
Como é que ele nasceu? De que forma se preparou para ele? Já disse que se foi vendo refletida nos personagens…
Na verdade, eu já falo de menopausa há oito anos na minha rede social. E eu fui uma das primeiras pessoas a falar sobre isso. Falar sem tabu, falar mesmo tudo o que tinha que falar. E eu comecei a perceber que teria que ser além disso. A gente no Brasil tem um musical chamado Menopause. Só que é muito rasinho, muito bobinho. Estava em São Paulo jantando com os meus sócios portugueses e falámos sobre fazer um musical. Aí eu já perguntei: «Por que a gente não faz o nosso Menopause. Vamos escrever esse espetáculo e a gente estreia em Portugal!». Chamámos a Anna Toledo que também estava menopausada e louca para botar tudo isso para fora. Fizemos meio a quatro mãos. Não que eu tenha escrito, porque eu não escrevo, mas é também sobre meus depoimentos, as coisas que eu ouço.
A gente foi criando os personagens e aí a coisa foi se desenvolvendo. Eu, ensaiando o espetáculo, achava que era horrível, que era a coisa mais pobre que eu tinha feito na minha vida… Eu faço grandes produções, grandes mesmo, com 60 pessoas. Não me parecia bem. Achava que não ia funcionar. E eu pirei. Com o mergulho dos personagens, eu afundei de novo. Toda a minha reposição hormonal teve que ser revista. Eu caí, eu comecei a ter tudo de novo. Comecei a ter os calores, as insónias… Tudo por causa dos personagens. Eu falei pra você que eu não me envolvo, mas dessa vez aconteceu isso mesmo. O espetáculo acabou por ser um grande sucesso. A estreia aqui foi uma comoção. Tivemos salas cheias e no Brasil aconteceu a mesma coisa.
Aos 26 anos, numa conversa com a Bruna Lombardi, disse que era uma pessoa extremamente crítica. Que não considerava quase nada do que fazia bom. Ainda possui essa exigência?
Mudei muito. Sabe porquê? O meu nível de exigência - a perfeição -, é inatingível. É inalcançável. Eu fui criada para ser perfeita. Eu fui criada com o olho da perfeição, mas eu não quero ser perfeita. Eu quero estar em aperfeiçoamento. Tenho trabalhado duramente isso em mim. Porque é muito frustrante, porque não se chega nesse lugar. Então eu não quero mais viver tão dura e tão crítica comigo a ponto de eu não conseguir celebrar uma coisa de boa qualidade. Perfeita nunca vai ser. «Foi o melhor que eu consegui fazer? Foi. Foi o melhor que toda a minha equipe conseguiu fazer? Foi. Então o público gostou? Está todo mundo rindo? Teve algum erro grave que a gente precisa consertar amanhã? Vamos ensaiar». Estou mudando muito, isso foi uma coisa boa da menopausa.
Também disse que vivia o amor de uma maneira muito insana. Está casada com o também artista Jarbas Homem de Mello. A forma como vivemos o amor também muda muito com o amadurecimento?
Sim! Está melhor! É um amor mais maduro. Mais calmo, mas calmo sem ser boring. É calmo com borboletinhas voando aqui. Mas é calmo. É seguro. É na paz. Eu acho que eu nunca tive tanta paz como eu tenho agora com o Jarbas. Ele é muito calmo, muito maduro. Ele estabelece também um contraponto meu bem importante. A gente é louco um pelo outro. A gente é grudado, mas luta muito pela nossa individualidade. Para que a gente voe juntos...
São uma grande equipa…
Com tudo funcionando! Com o sexo funcionando! Não é aquela coisa que ficou só de mãos dobradas. Não, minha filha. O negócio é bom! (risos)
É muito ativa nas redes sociais. Muito criativa. Como foi entrar nesse universo digital? Como é que surgem as ideias para os vídeos?
Olha, foi uma loucura. Eu nem percebi que eu estava fazendo isso. Quando eu vi, estava de bob na cabeça, falando num story. Liga a minha filha e diz: «Mãe, você está louca? Você está de bob na cabeça?». Falei-lhe: «Sofia, eu ando de bob. Eu ando na rua de bob. Eu sou essa pessoa!». (risos) Então, a minha espontaneidade fez com que eu entrasse com 50 anos para esse mundo. Ninguém tinha a rede social ativa com essa idade. Comecei a fazer as coisas, a dançar, a falar… Rapidamente comecei a trabalhar com a produtora Rica Conteúdos. Fui das primeiras clientes da Marcela Rica que é uma das minhas filhas da Dramaturgia, a dona da produtora. Hoje ela cuida de muita gente: do Giovanni Antonelli, do Cauã Reymond, Ivete…
Eu só falava para ela: «Não vou fazer coisa que eu não acho graça! Eu só vou fazer coisas que me divirtam. Se eu não me divertir, não serve pra mim». E aí eu comecei a perceber também o que a minha audiência gostava. Comecei a perceber também que o meu público jovem é imenso. Muito maior do que 50+. Porque é inspiracional. Porque as meninas querem ficar do jeito que eu estou. Virei uma influencer, sem nem perceber que eu era uma influencer. Sem estratégia nenhuma. Hoje é uma rede, tenho 10 milhões de seguidores. É a população de Portugal.
Os atores trabalham, muitas vezes, até que o corpo não permita mais. “Enquanto eu tiver corpo e desejo, eu crio”, disse uma vez. Continua com essa vontade?
Continuo. E principalmente com desejo e curiosidade. Eu sou muito curiosa, gosto muito de fazer o que eu nunca fiz. Isso me move! Gosto de experimentar o que eu nunca experimentei, gosto de trazer para o público aquilo que ele nunca viu. Gosto de trabalhar em várias linguagens diferentes. A minha cabeça é muito jovem, adoro conhecer gente jovem. Aprender com eles, partilhar. Eu acho que é aí que está o grande pulo do gato. É você pegar a mão dessa geração foda que é a de vocês e trocar. Eu poder passar coisas para vocês e vocês passarem coisas para mim.