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«Estão apaixonados?», perguntou o jornalista da ITN, no dia em que o então príncipe Carlos e Diana Spencer anunciaram o noivado. «Claro que sim!», respondeu aquela que viria a ser Princesa de Gales, na altura com apenas 19 anos. «Seja lá o que for o amor!», atirou o atual Rei da Inglaterra, fazendo com que a expressão da sua noiva mudasse, quase como se isso fosse um mau presságio. A verdade é que o casamento de 15 anos começou, para muitos, como um «conto de fadas». No entanto, terminou num divórcio público e litigioso – que abalou a monarquia –, e na trágica morte de Lady Di, em 1997.
O princípio do ‘amor’
Conheceram-se em 1977, na propriedade da família Spencer, Althorp House. Na altura, Carlos tinha 29 anos e estava a visitar a propriedade porque tinha um alegado caso com a irmã mais velha de Diana, Lady Sarah Spencer. Nessa altura, Diana tinha 16 anos, o encontro foi breve e sem importância, mas o príncipe achou-a «alegre». Diana também foi convidada para a sua festa de 30 anos, no Palácio de Buckingham, em novembro de 1978, e em janeiro de 1979 encontrou-se novamente com ele num fim de semana de caça em Sandringham a convite da Rainha Isabel II.
Mas a magia deu-se num fim de semana em que ambos participavam numa festa na propriedade rural de um amigo em comum, em 1980. O príncipe estava a atravessar um período difícil após a morte do seu tio-avô e mentor, Lord Mountbatten, assassinado pelo IRA em 1979, e Diana mostrou-lhe simpatia e apoio emocional, o que o impressionou. Recorde-se que Carlos nunca recebeu muito afeto por parte dos pais e o tio-avô era uma figura paterna na sua vida. «O meu coração sangrou por ti quando assisti ao funeral. Pensei: ‘É errado, está sozinho’. Merecias ter alguém para tomar conta de ti». Segundo Penny Junor, jornalista, biógrafa e locutora inglesa, amplamente conhecida por escrever sobre a família real britânica há mais de 30 anos, citada pelo History Extra, era exatamente isso que Carlos precisava de ouvir. «Mountbatten foi uma figura muito importante na vida dele, e Carlos estava num estado frágil naquele momento», reforçou. «A Diana tocou num ponto sensível... Disse a coisa certa, no momento certo, e ele ficou comovido», acrescentou a especialista.
Depois disso, Carlos começou a convidar a jovem para alguns eventos e convívios. Porém, de acordo com Junor, nessa fase, o relacionamento era «puramente platónico». É importante salientar que, durante os anos 70, a família real procurava uma esposa considerada adequada para o herdeiro do trono. Carlos era considerado um galã e já tinha tido vários relacionamentos, incluindo com Camilla Parker Bowles, mas a rapariga não foi considerada uma candidata adequada para se tornar futura rainha. Esta acabou por casar com Andrew Parker Bowles, em 1973.
A ‘rapariga perfeita’
As coisas começaram a tornar-se mais sérias entre Carlos e Diana numas férias de verão no Castelo de Balmoral. Carlos estava com os amigos que a consideravam «a rapariga perfeita». Vinha de uma família aristocrática britânica, era jovem, solteira e não tinha um passado amoroso muito exposto ao público. «Ela era engraçada, divertida e todos pareciam amá-la – fazia toda a gente rir e parecia adorar Carlos», detalha a biógrafa. «Em teoria, ela era a noiva perfeita. Na época, acreditava-se que a noiva de Carlos deveria ser virgem, aristocrata e membro da Igreja Anglicana. Ora, devemos lembrar que, na década de 80, após a revolução sexual dos anos 60 e a introdução da pílula anticoncepcional, havia pouquíssimas virgens aristocratas, e com o passar do tempo, estas tornaram-se cada vez mais raras», explicou Junor. Em poucos meses, Diana passou de desconhecida para potencial futura rainha. Os paparazzis acampavam na porta do seu apartamento em Londres, seguiam-na para onde quer que fosse, era fotografada e assediada. «Era impossível para os dois conhecerem-se de uma forma ‘normal’», lamentou.
O pedido de casamento aconteceu em 6 de fevereiro de 1981, no Castelo de Windsor, mas algo dizia que a história não iria correr bem, já que até então o casal mal havia passado tempo junto – Diana afirmou mais tarde que ela e Carlos se encontraram apenas 13 vezes antes de ficarem noivos. «E na maior parte dessas vezes, não estavam sozinhos», acrescentou Junor. Ou seja, na verdade, não se conheciam bem. Segundo a própria Diana, o príncipe ligava-lhe todos os dias durante uma semana, e depois não falava consigo durante três. «Muito estranho, mas eu pensei: ‘Tudo bem. Ele sabe onde me encontrar se quiser falar comigo’. A emoção quando ele ligava era imensa e intensa», disse no documentário Diana: In Her Own Words.
Diana era divertida, descontraída, deliciosamente pouco refinada, simples... Não usava roupa fina e encaixava muito bem na família real. Ajudava nos piqueniques, pescava com Carlos, caminhava pelos morros... Fazia tudo o que eles faziam. Tinha uma vulnerabilidade muito atraente. De acordo com o documentário Diana Princess of Wales – A Celebration of a Life, disponível no Disney +, os meses antes do casamento foram caóticos, umas vezes extasiantes, outros difíceis. Diana teve de aprender as restrições da vida da realeza. «Um dos seus muitos problemas é que nunca lhe explicaram a magnitude do que estava a fazer. Era muito jovem, não tinha muita formação», revela Ingrid Seward, conceituada escritora e jornalista britânica, considerada uma das maiores especialistas na família real britânica. Diana vivia numa espécie de mundo romântico, lia romances da Barbara Cartland, pensava que a vida da realeza era como algo saído de um filme e não sabia realmente o que isso envolveria. Carlos tinha de manter os compromissos que aceitara antes de anunciar o noivado, isso implicava alguma distância, e Diana teve de aceitá-lo.
Casamento e início dos problemas
Dizem as especialistas que, aos poucos, a jovem foi ficando raivosa, ciumenta e não cooperava. Tinha mudanças de humor e nunca ninguém tinha visto esse seu lado. O que Carlos conhecia desapareceu de súbito e este não sabia o que fazer.
Segundo o mesmo documentário, a Rainha acabou por se envolver mais, mas Diana não queria passar tempo com ela. Era aborrecido para si. Por isso, arranjava desculpas e nunca conseguiram criar realmente uma ligação. Mesmo assim, em 29 de julho de 1981 chegou o dia do casamento na catedral de S. Paulo.
Fora do Palácio de Buckingham e em todo o caminho até à catedral, os passeios estavam cheios de fãs. Carlos não tinha coragem para cancelar o casamento e Diana, ao último minuto, quis desistir, mas já era tarde demais. A jovem parecia saída de um conto de fadas. Parecia radiante acompanhada pelo pai, o oitavo conde. O resto da família real esperava por ela. Estima-se que 750 milhões de pessoas assistiram à transmissão da cerimónia.
Diana chegou numa carruagem de vidro. O vestido era seda cor marfim com renda antiga, lantejoulas de madrepérola e tinha uma cauda de sete metros. Ia tornar-se a primeira mulher inglesa em 500 anos a casar-se com um príncipe de Gales, o herdeiro do trono. Apesar de tudo, «foi um dia maravilhoso e cheio de esperança».
«Embora eu não acredite que Carlos estivesse realmente apaixonado por Diana, acho que ele pensava que poderia vir a amá-la. Fundamentalmente, acho que ele tinha toda a intenção de fazer o seu casamento dar certo», acredita Junor. «Muita gente acredita que ele a usou (...) Pensam que só precisava de um herdeiro e de um ‘reserva’, e que, uma vez conseguido isso, fugiu com a mulher que sempre amou, Camilla. Essa é a história em que muita gente gosta de acreditar (...) Depois de conversar com muitas pessoas que estavam presentes na época, acredito que essa história está completamente errada. Sempre achei que foi simplesmente uma incompatibilidade trágica. Essas duas pessoas eram completamente incompatíveis», acrescentou.
Na lua de mel o casal embarcou no iate real HMY Britannia e navegou pelo Mediterrâneo, visitando zonas da costa da Grécia e de outros locais da região.
Apesar do cenário romântico, Diana disse mais tarde que já se sentia insegura e infeliz durante este período. Além disso, estiveram alguns dias no Balmoral Castle, a residência de verão da família real. Carlos adorava a vida ao ar livre, a caça, a pesca e as caminhadas nas Terras Altas escocesas. Anos depois, Diana descreveu a lua de mel como «um período difícil». Segundo a mesma, Carlos passava bastante tempo a ler, a pintar aguarelas e a dedicar-se aos seus interesses habituais, enquanto ela se sentia sozinha e ainda estava a adaptar-se ao enorme choque de entrar para a família real. Vários biógrafos referem frequentemente que a jovem ficou perturbada ao notar que Carlos levava consigo objetos associados a Camilla Parker Bowles.
Apesar das coisas não estarem bem, o casal teve o primeiro filho, William, em junho de 1982. Dois anos depois, nasceu Harry. Diana revelou posteriormente que a maternidade foi uma das experiências mais importantes da sua vida. Contudo, o relacionamento conjugal continuava a deteriorar-se.
O fim do amor e da vida
Na famosa entrevista de 1995 ao programa Panorama da BBC, concedida a Martin Bashir, a Princesa de Gales falou abertamente sobre ter sofrido de depressão pós-parto após o nascimento do seu primeiro filho. «Foi uma gravidez bastante difícil – eu não me senti muito bem durante todo esse período. Quando o William nasceu, foi um grande alívio porque tudo voltou ao normal e eu fiquei bem (...) Depois, percebi que estava com uma depressão pós-parto (...) Acordava de manhã sem vontade de sair da cama, sentia-me incompreendida e muito deprimida», revelou. Segundo Diana, os seus problemas de saúde mental afetaram o casamento. «Isso deu a todos um novo rótulo maravilhoso: ‘A Diana é instável e é mentalmente desequilibrada (...) Infelizmente, parece que esse rótulo persistiu ao longo dos anos», lamentou. A jovem princesa também sofria de bulimia nervosa.
A maioria dos biógrafos considera que Carlos e Camilla retomaram uma relação amorosa em meados da década de 1980, situando o reinício por volta de 1986. Mais tarde, ambos admitiram que a relação existiu enquanto o príncipe de Gales ainda estava casado. Numa entrevista televisiva de 1994 para o documentário da ITV, Charles: The Private Man, the Public Role, este foi questionado sobre a fidelidade conjugal: «Sim, fui fiel... até o casamento se tornar irremediavelmente destruído», admitiu. Mas também Diana tentou encontrar o amor noutro lado. O seu nome está associado a James Hewitt, Barry Mannakee, James Gilbey e Oliver Hoare.
Em 9 de dezembro de 1992, o então primeiro-ministro britânico John Major anunciou na Câmara dos Comuns que Carlos e Diana estavam oficialmente separados. O casal levou três anos para chegar a um acordo de divórcio. Em agosto de 1996, assinaram os papéis. De acordo com Ingrid Seward, Diana e Carlos choraram juntos após a assinatura. «Foi uma separação conturbada, mas quando o divórcio foi finalizado, estavam muito melhores», disse Seward no documentário de 2019, The Royal Family at War. A Princesa de Gales morreu em 1997, em Paris, num acidente de viação. Carlos acabou por casar-se com Camilla anos mais tarde, a 9 de abril de 2005.