terça-feira, 21 jul. 2026

Biquíni. A história da peça que libertou as mulheres

No dia 5 de julho comemoram-se os 80 anos do biquíni.Como eram os primeiros trajes de banho para mulheres? De que forma se foram transformando até chegarem ao que conhecemos hoje? 

O biquíni está intrinsecamente ligado à história da libertação e das conquistas femininas. Já passou por muitas fases e formatos e, atualmente, já nos é perfeitamente normal ver modelos cada vez mais pequenos. No dia 5 de julho, comemora-se os 80 anos da criação desta peça icónica. Mas de que forma chegámos aqui? Porque é que durante muito tempo causou tanto ruído?

Embora muita gente pense que este surgiu apenas no século XX, existem várias evidências que mostram roupas semelhantes na Antiguidade. Um dos exemplos mais conhecidos é o mosaico romano da Villa Romana del Casale, na Sicília, datado do século IV, encontrado no chão de uma villa que mostra uma série de mulheres a praticar exercício físico enquanto utilizam trajes simples que lembram versões primitivas do biquíni. Na altura, usar apenas essas «duas peças» era considerado mais funcional, prático e simples, pois eram adaptadas ao movimento do corpo.

Vestidos de banho

Também antes de 1946, as mulheres já iam à praia e nadavam. No entanto, muito mais cobertas. De acordo com a Vogue, os vitorianos (o período do reinado da rainha Vitória, de junho de 1837 até à sua morte em janeiro de 1901), com o seu cada vez maior interesse em balneários, favoreciam o comedimento nas suas incursões em banhos ao ar livre. As primeiras fotografias da roupa de praia mostram mulheres de vestidos longos e calções para enfrentar as ondas.

No final do século XIX os trajes de banho femininos já pareciam vestidos curtos com calções por baixo. Eram feitos de lã ou flanela, materiais pesados que ficavam ainda mais pesados quando molhados. Nessa altura, as muitas mulheres usavam «vestido de banho» até aos joelhos, calças ou bloomers por baixo, meias, sapatos de banho e ainda uma touca ou chapéu. Recorde-se que, na época, mostrar braços, pernas acima do joelho ou costas ainda podia causar escândalo. Em algumas praias havia mesmo as chamadas «máquinas de banho», que não eram nada mais nada menos do que cabines sobre rodas que levavam as banhistas diretamente para a água, evitando que fossem vistas a trocar de roupa.

Escreve a mesma revista de moda que «a primeira metade do século XX viu uma rápida redução na quantidade de tecido necessário para ir à praia», o que acabou por gerar bastante polémica. Em 1907, por exemplo, a nadadora australiana Annette Kellerman foi presa em Boston por usar uma roupa de banho mais justa. Segundo os relatos mais conhecidos, a polícia deteve-a por «indecência pública». O traje deixava visíveis os braços, o pescoço e parte das pernas. Era muito parecido àqueles que os homens utilizavam na altura.

Segundo o Boston.com, Kellerman podia estar completamente coberta, mas para as outras banhistas, era como se estivesse nua. «Eu, presa!», disse num artigo do Boston Sunday Globe de 1953, lembrando o incidente de 1907. «Ficámos todos terrivelmente chocados, especialmente o meu pai, pois eu era a sua filhinha inocente e protegida. Mas o juiz foi muito gentil e permitiu-me usar o terno, desde que eu usasse uma capa longa até a beira da água», explicou.

O contributo de Jantzen

Anos mais tarde, em 1913, o estilista Carl Jantzen introduziu um conjunto de duas-peças composto por calções e um top justo, que também foi recebido com desconfiança.

De acordo com a página de biquínis, Jantzen, o estilista era cofundador da empresa Portland Knitting Company, em Oregon. Em 1913, um membro do Portland Rowing Club solicitou à empresa a criação de «um traje de remo com ponto canelado que se mantivesse no lugar sem a necessidade de cordão». Os trajes existentes eram desconfortáveis, pesados e dependiam frequentemente de cordões para se manterem no lugar. O resultado foi uma peça de roupa mais leve e flexível que permitia maior liberdade de movimentos na água. Em 1918, a sua empresa tornou-se oficialmente Jantzen Knitting Mills, e a marca rapidamente ganhou reconhecimento pelos seus designs inovadores de roupas de banho. Aliás, esse fato tornou-se o protótipo dos futuros fatos de banho modernos.

Dois anos depois, Carl consolidou a Jantzen como uma marca nacional. Neste ano, A Mergulhadora Vermelha fez a sua estreia e rapidamente se tornou um dos ícones publicitários mais reconhecidos da moda americana. De acordo com a mesma página, em 1921, os anúncios da Jantzen começaram a aparecer em revistas nacionais, incluindo Vogue e Life e, em 1923, a empresa lançou seu famoso slogan: «O traje que transformou o banho em natação». Ou seja, se até então o vestuário de banho era pensado sobretudo para preservar a modéstia, a inovação do estilista foi concebê-lo para o desempenho físico. Foi, por isso, uma grande mudança de mentalidade.

Nas décadas de 1920 e 1930, os fatos de banho começaram a parecer-se mais com os atuais. Já não tinham mangas, as pernas estavam expostas, os tecidos eram elásticos e eram modelos de peça única mais ajustados. 10 anos depois, já existiam fatos de banho de duas peças. No entanto, a parte de baixo era muito alta e cobria completamente o umbigo e grande parte da cintura.

Uma invenção bombástica

Segundo a Vogue, o marco oficial da criação do biquíni moderno aconteceu em 1946, em França, pelas mãos de Louis Réard, sendo considerado a segunda maior invenção do século XX – está atrás da invenção da bomba atómica. No verão desse ano, dois designers, separadamente, tentaram criar trajes de banho diferentes dos que caracterizavam a época. «Assim nasceram a Atome de Jacques Heim e o Le Bikini de Louis Réard. Foi o último que ficou particularmente conhecido. Alegadamente muito provocante ao nível estético, a maioria das modelos recusou-se a usá-lo. O biquíni com um design minimalista de Réard foi eventualmente usado pela bailarina de 19 anos Micheline Bernardini», detalha a revista de moda.

O biquíni teve a sua primeira aparição em 5 de julho de 1946 à beira de uma piscina pública em Paris. O nome da peça foi inspirado nos bombardeios atómicos dos EUA, os quais testavam bombas atómicas no oceano Pacifico, no Atol de Bikini. Louis Réard, imaginou que a sua criação seria tão explosiva como a própria bomba atómica.

Apesar do seu nome ter ficado mais conhecido na história, o estilista francês Jacques Heim foi o primeiro a apresentar o seu modelo. Para o lançamento contratou um avião e mandou escrever com fumo no céu: «Atome: o menor traje de banho do mundo». De acordo com a Fashion Times do Reino Unido, em vez de encarar os fatos de banho apenas como uma peça de roupa para promover a modéstia, Heim via-os como uma oportunidade de combinar moda, conforto e autoexpressão. Os seus designs adotavam silhuetas simplificadas que realçavam a forma natural do corpo, mantendo-se elegantes e sofisticados. «A medida foi considerada ousada na época, mas refletia uma crença crescente de que as mulheres não deveriam ter que sacrificar o conforto ou a mobilidade para atender a padrões de vestimenta ultrapassados», sublinha a revista de moda inglesa.

Pouco depois, Louis Réard reduziu ainda mais o tamanho da peça e também contratou um avião para estampar no céu: «Bikini: menor do que o menor traje do mundo». Queria libertar e mostrar o corpo da mulher, mas a sociedade parecia ainda não estar preparada. Nos anos seguintes, o biquíni foi considerado indecente em muitos lugares, com alguns países a proibirem o seu uso em praias públicas.

A própria mulher que chocou o mundo em 1907 por mostrar as pernas achava que este mostrava pele a mais. Em entrevistas da época, Annette Kellerman criticou o biquíni. Num artigo do Globe, Kellerman fez a seguinte declaração depreciativa: «O biquíni é um erro. Apenas duas mulheres num milhão conseguem usá-lo. E é um erro muito grande tentar», declarou citada pelo Boston.com. «O biquíni mostra demais. Mostra uma linha que deixa a perna feia, mesmo em quem tem o corpo mais bonito. Um corpo fica mais bonito quando tem uma linha única, bonita e contínua», defendeu.

A verdadeira ‘revolução’

O seu sucesso começou apenas na década de 1950, quando as atrizes de Hollywood começaram a usá-lo em filmes. A atriz Brigitte Bardot estrelou o filme E Deus Criou a Mulher (1956) usando um biquíni e despertando o desejo das mulheres em possuir um. Marilyn Monroe popularizou roupas de banho mais reveladoras, enquanto Ursula Andress, conseguiu protagonizar um dos momentos mais icónicos da história do cinema e da moda, com a sua aparição em Dr. No, de 1962. Na cena, a atriz sai da água numa praia na Jamaica com um biquíni branco com um cinto para suster uma faca. Ursula Andress chegou a explicar que parte do fascínio pela sua personagem esteve relacionado com o facto de ter marcado a diferença no estilo de mulher da época baseado nas formas voluptuosas. Esse biquíni foi leiloado na Christie’s de Londres por 61.500 dólares, em 2001.

Ou seja, aqui o biquíni já estava completamente ligado à ideia de liberdade. Recorde-se nesta altura, ao mesmo tempo, a pílula anticoncecional dava às mulheres maior controlo sobre a sua vida reprodutiva e as normas sociais tornavam-se menos rígidas.

A popularidade da peça continuou a aumentar na década de 70, onde movimentos feministas ganhavam força. Nessa altura, o corpo deixava de ser visto como algo a esconder. O bronzeado, por exemplo, começou a estar na moda. Se no início do século XX ainda era associado ao trabalho manual, passou a ser um símbolo de saúde, modernidade e lazer. Na mesma altura, surgiu o string bikini, um modelo caracterizado pelas suas tiras finas e ajustáveis em vez de faixas largas de tecido. Este oferecia uma cobertura mais minimalista, sendo muito popular por realçar as curvas naturais e minimizar as marcas de sol.

Ao mesmo tempo, começaram a aparecer modelos com tecidos como o crochê e, graças ao Brasil, muitas peças começaram a ser cada vez mais pequenas. Dois modelos que ficaram bastante famosos foram: a ‘asa-delta’, caracterizada por cavas muito altas nas laterais e o fio dental.

Atualmente vemos biquínis de todas as formas e feitios, para todos os gostos e tamanhos. E, muitas vezes, ele é utilizado fora das praias como roupa interior ou mesmo top. Os tempos mudaram e a verdade é que o biquíni provocou uma verdadeira revolução, mudando os conceitos da sociedade sobre liberdade feminina.