quinta-feira, 14 mai. 2026

Bananas musculadas, morangos ciumentos e abacates dramáticos: o novo fenómeno do TikTok que já ninguém consegue ignorar

No TikTok, a fruta deixou de ser alimento e passou a ser elenco. Pequenos vídeos com personagens humanizadas em formato novela e reality show acumulam milhões de visualizações e revelam como o entretenimento online está a mudar.
Bananas musculadas, morangos ciumentos e abacates dramáticos: o novo fenómeno do TikTok que já ninguém consegue ignorar

Nas últimas semanas, o TikTok foi ocupado por um novo subgénero de conteúdo: pequenos vídeos feitos com inteligência artificial em que frutas humanizadas vivem histórias de amor, traição, ciúme e humilhação pública. Em alguns casos, o formato aproxima-se da telenovela, noutros imita reality shows. Em comum, todos seguem a mesma lógica: personagens reconhecíveis, conflito emocional imediato e um nível de absurdo suficientemente elevado para prender a atenção.

O exemplo mais visível desta tendência é Fruit Love Island, uma série lançada em março no TikTok, que rapidamente acumulou milhões de visualizações e níveis elevados de engagement. Inspirada no formato do programa Love Island, a série permite a participação do público, que pode influenciar a formação de casais entre personagens. Segundo a revista Forbes, este modelo interativo foi um dos fatores determinantes para a rápida disseminação do fenómeno.

Mas reduzir este tipo de conteúdo a uma simples excentricidade viral seria ignorar o que este revela sobre a forma como o entretenimento está a ser produzido e consumido online.

Conteúdo feito à medida do algoritmo

Parte do sucesso destas “novelas de frutas” está na sua adaptação à lógica das plataformas. Ao contrário de formatos que exigem contexto ou atenção prolongada, estes vídeos são imediatamente compreensíveis. Bastam poucos segundos para identificar personagens, perceber o conflito e decidir continuar a ver.

Este tipo de estrutura — simples, visual e direta — encaixa naquilo que o próprio TikTok tem vindo a destacar como conteúdos capazes de gerar resposta imediata. O absurdo, neste contexto, funciona menos como exceção e mais como ferramenta.

Do meme à narrativa

Outro elemento relevante é a forma como estes vídeos evoluíram para além do meme isolado. Em vez de um único momento viral, muitos organizam-se em episódios, com personagens recorrentes, relações em desenvolvimento e conflitos que se prolongam ao longo do tempo.

O resultado aproxima-se de uma versão condensada de formatos televisivos tradicionais. Há casais, traições, reconciliações e momentos de decisão coletiva — uma lógica próxima dos reality shows, mas adaptada a vídeos curtos e consumo contínuo.

Produção acelerada

A escala a que estes conteúdos surgem está diretamente ligada às ferramentas que os tornam possíveis. A utilização de inteligência artificial permite gerar imagens, vozes e diálogos em pouco tempo, reduzindo significativamente os custos de produção e facilitando a criação de séries contínuas.

Este contexto tem dado origem a um volume crescente de conteúdos semelhantes, muitas vezes baseados nas mesmas fórmulas narrativas e estéticas.

Segundo o New York Times, é neste cenário que surge a tendência designada como slop, termo em inglês que descreve vídeos produzidos em grande quantidade, com baixos custos e pensados sobretudo para circulação rápida nas plataformas. O termo é utilizado para caracterizar um ecossistema digital onde a repetição, a velocidade e o impacto imediato se sobrepõem à originalidade ou à complexidade.

Conteúdo de consumo imediato

Num ambiente digital marcado por excesso de informação e competição constante por atenção, formatos simples e de consumo imediato tendem a ganhar vantagem. As “novelas de fruta” oferecem narrativa, conflito e continuidade, mas sem exigir grande esforço do espectador. Não há necessidade de contexto, nem de acompanhamento prolongado, nem de investimento interpretativo.

Estas histórias desaparecem do feed com a mesma rapidez com que surgem e outras ocupam o seu lugar, muitas vezes com estruturas semelhantes e variações mínimas. O que permanece não são os conteúdos em si, mas a lógica que os produz: um sistema orientado para a velocidade, a repetição e a atenção contínua.

Talvez o mais significativo não seja o facto de existirem bananas e morangos a disputar relações amorosas no TikTok, mas o facto de isso já não causar surpresa suficiente para interromper o scroll.

Veja alguns exemplos:

[texto editado por Joana Ludovice de Andrade]