sexta-feira, 07 ago. 2026

António Muchaxo. O visionário do Guincho

Além da veia de empresário, ao longo dos anos foi também reconhecido pelo apoio a várias causas sociais.
António Muchaxo. O visionário do Guincho

1930-2026 Dedicou décadas à hotelaria e ao turismo e era um dos rostos de Cascais

Tony do Guincho era como o conheciam. Quase ninguém o tratava por António Muchaxo mas todos sabiam que era. Ali na zona e não só. Parece que a história da sua vida se confunde com aquele lugar. Ao longo de mais de sete décadas dedicadas à hotelaria, à restauração e ao turismo, tornou-se um dos rostos mais reconhecidos de Cascais e o principal guardião de um espaço muito conhecido naquela região: a Estalagem Muchaxo, erguida sobre a Praia do Guincho.

António Muchaxo morreu aos 96 anos, deixando um legado que acompanha a própria afirmação de Cascais como destino turístico internacional. O seu nome tornou-se inseparável do Guincho, não apenas porque ali trabalhou praticamente toda a vida, mas porque ajudou a transformar uma zona então remota e agreste numa referência da hotelaria portuguesa.

A história da família Muchaxo antecede a do próprio turismo moderno em Portugal. Depois da Segunda Guerra Mundial, Ramiro Muchaxo instalou uma pequena barraca de praia no Guincho, destinada a servir os banhistas que começavam a descobrir aquele areal ainda isolado. O negócio cresceu, transformou-se em restaurante e, mais tarde, numa estalagem que, com o passar dos anos, viria a receber hóspedes oriundos de todos os continentes.

Foi em 1945 que nasceu o primeiro espaço, um pequeno barracão de madeira chamado ‘A Barraca’. O espaço era extremamente modesto, tinha capacidade para apenas 16 pessoas e funcionava sem eletricidade – era a petróleo – ou água canalizada. Essa, «vinha nas camionetas de Cascais», como chegou a dizer na última entrevista dada à Sábado.

Foi nesse ambiente que António Muchaxo cresceu. Embora tenha iniciado estudos universitários na área da Economia, acabaria por dedicar a vida ao projeto familiar, acompanhando a expansão da Estalagem Muchaxo e tornando-se a sua figura maior. A partir da segunda metade do século XX, acompanhou a profunda transformação do turismo português.

O Muchaxo nunca foi apenas um hotel. Era, simultaneamente, restaurante, sala de visitas, ponto de encontro e refúgio discreto para figuras públicas que procuravam tranquilidade. Pelas suas mesas passaram membros de famílias reais, chefes de Estado, artistas, escritores e empresários. Entre os hóspedes e visitantes contam-se nomes como Walt Disney, Ingrid Bergman, Agatha Christie, Margot Fonteyn, o Duque de Windsor e Wallis Simpson, Umberto II de Itália e Juan Carlos de Espanha, que frequentou o Guincho muito antes de subir ao trono espanhol.

Foi precisamente essa relação de confiança com a família real espanhola que deu origem a um dos episódios mais conhecidos da história da casa. Segundo o próprio António Muchaxo recordou em diversas entrevistas, foi no restaurante da Estalagem Muchaxo que Juan Carlos pediu Sofia da Grécia em casamento, antes do enlace celebrado em Atenas. O hotel tornou-se, desde então, um dos lugares associados ao exílio e à convivência da aristocracia europeia instalada ou de passagem por Cascais durante o século XX.

Ali, também Lili Caneças celebrou o seu copo-d’água de casamento com o empresário Álvaro Caneças, numa altura em que o restaurante tinha acabado de abrir junto à praia. Também o antigo Presidente da República, António Ramalho Eanes, e a antiga Primeira-Dama, Manuela Ramalho Eanes, escolheram o icónico espaço do Guincho para celebrar o seu casamento.

Apesar da proximidade a figuras de enorme projeção nacional e internacional, Tony Muchaxo cultivou uma reputação de discrição. Nunca fez das confidências um instrumento de promoção. Preferia contar histórias sobre o ambiente da época, sobre a evolução de Cascais ou sobre os bastidores da hotelaria, preservando sempre a reserva que considerava indispensável para quem recebia hóspedes ilustres.

Essa postura contribuiu para consolidar a reputação da Estalagem Muchaxo como um lugar onde a privacidade era um valor tão importante quanto a qualidade do serviço.

O hotel ganhou igualmente notoriedade internacional ao servir de cenário a algumas sequências do filme de James Bond, 007 – Ao Serviço de Sua Majestade, reforçando a imagem cinematográfica da paisagem do Guincho e projetando-a junto de públicos muito para além de Portugal.

Mas reduzir António Muchaxo ao anfitrião de reis e celebridades seria ignorar uma parte essencial da sua vida. Foi também um dos grandes defensores da afirmação do turismo como motor económico de Cascais, participando ativamente na promoção do concelho e apoiando inúmeras iniciativas ligadas à hotelaria e à restauração. Foi fundador do Rotary Clube de Cascais e Estoril e recebeu diversas distinções pelo contributo prestado ao setor turístico e à comunidade.

Ao longo dos anos foi igualmente reconhecido pelo apoio prestado aos bombeiros, ao socorro a náufragos e a diferentes instituições de solidariedade social, mantendo uma intervenção cívica constante para além da atividade empresarial.

Nas últimas décadas, António Muchaxo tornou-se uma espécie de memória viva do Guincho. Continuava a receber visitantes, jornalistas e amigos. Via com satisfação a projeção internacional alcançada por Cascais, mas recordava frequentemente os tempos em que a estrada para o Guincho terminava praticamente junto às dunas.

A sua morte encerra um capítulo singular da história do turismo nacional. Desaparece um dos últimos protagonistas de uma geração que acompanhou, praticamente desde o início, a construção da imagem internacional da Costa do Estoril. Durante décadas, para milhares de hóspedes, falar do Muchaxo era falar de Tony. E falar de Tony era, inevitavelmente, falar do Guincho.