quinta-feira, 16 abr. 2026

America's Next Top Model: A verdade por trás do fenómeno

Foi um fenómeno em 2000. Uma ideia original que colocou Tyra Banks nas bocas do mundo. O objetivo era desconstuir a ideia de beleza, mas a que custo?
America's Next Top Model: A verdade por trás do fenómeno

Corria o ano 2000 - altura em que o estilo heroin chic ainda era o ideal nos EUA - quando Tyra Banks «deu um pontapé na porta». Aos 21 anos já tinha uma carreira. Assinou contrato com a Cover Girl e foi a primeira vez que se viu uma mulher negra a dominar a indústria. As modelos queriam-se magras, loiras e brancas. As poucas que fugiam desse padrão recebiam muito menos, sobretudo as que tinham um tom de pele mais escuro. «Diziam: ‘As mulheres negras não terão sucesso. Não serão capa de revista’. Queria provar que estavam errados. Queria mostrar que a beleza não era apenas uma coisa. Queria lutar contra a indústria da moda! Até que tive uma ideia. ‘E se eu criasse um programa onde se visse o que era necessário para se ser modelo? E que esse programa representasse não só as mulheres brancas, as mulheres magras, mas todos os diferentes tipos de beleza. Era a minha forma de me vingar’», começa por explicar Tyra no documentário Reality Check: Inside America’s Next Top Model, que chegou à Netflix no dia 16 de fevereiro. E, com a ajuda de Ken Mok - que acabou por se tornar produtor executivo do programa -, conseguiu. Dez concorrentes a viver numa casa. Cada semana aprendiam uma habilidade e, no final desses sete dias, uma modelo era mandada para casa. A última passaria a ser America’s Next Top Model, conseguiria um contrato com a Revlon, um anúncio com a Marie Claire e ainda um contrato com uma das melhores agências do mundo, a Wilhelmina.

Apresentaram o programa a todos os canais: ABC, Fox, NBC, CBS. A resposta era sempre «não». «Um reality show? Não!», diziam. Até que a equipa foi ao UPN que, na altura, estava a precisar de um grande sucesso para se poder «manter de pé». O canal queria dar vida à ideia. Não tinha nada a perder. Seguiu-se um sucesso sem precedentes. 24 temporadas, mais de 100 milhões de espetadores, 180 versões adaptadas noutros países… O mundo parou para ver os bastidores do universo da moda. Eram cerca de 22 horas de filmagens por dia e todo o material captado poderia ser utilizado/editado como a produção bem entendesse. Ou seja, as aspirantes a modelos abdicavam de todos os direitos sobre as imagens. E claro que isso acarretava vários riscos.

O programa terminou em 2018. Mas em 2020, a bolha rebentou. Com a pandemia da Covid-19, muitos viram-no pela primeira vez, outros reviram, e instalou-se o caos nas redes sociais. «Passou de uma coisa que toda a gente gostava para uma coisa odiada», admite Tyra Banks que, além de produtora executiva, era também a apresentadora. Gordofobia, assédio sexual, fazer modelos posarem como vítimas de assassinato, com outras etnias, como se tivessem bulimia, como se fossem pessoas em situação de rua, serem submetidas a cirurgias forçadas, humilhações e falta de proteção. Rever tudo isso, sob a lente dos anos 2020, fez o «queixo cair» a muita gente.

As humilhações

 

Uma das primeiras coisas que a produção fez foi contratar uma esteticista para fazer a depilação à brasileira a todas as concorrentes. Muitas nem sabiam o que isso era. «Nunca mais na vida!», garante uma delas na produção. Outro passo foi a transformação: mudar completamente o visual de cada uma, e muitas choraram. Sem dizerem nada, submeteram-se àquilo que lhes era pedido, mesmo que depois disso não se reconhecessem. «Não fiques assim. As modelos são telas», diz Jay Manuel que, além de orientar as sessões fotográficas, era jurado do programa. «Sim, eu sei. Não tenho escolha», responde uma das concorrentes.

A sala das eliminações era sempre um pesadelo. Os jurados não poupavam nas críticas. «Pareces de outro mundo porque tens tantos dentes… Ela devia tirar alguns», disse Janice Dickinson, uma das juradas, a uma das concorrentes. «Parece uma criança prostituta», disse a outra. «Esta é a pior fotografia que eu já vi. Estás desequilibrada e parece que tens um pénis», afirmou numa outra ocasião. Mais: nos confessionários sentiam a pressão dos produtores de as virar umas contra as outras. E os comentários que recebiam dos jurados marcou-as para sempre. «Eu tinha 18 anos. O meu corpo estava em crescimento e ouvi: ‘Eu gosto da Giselle, mas ela tem um rabo demasiado grande’. O que fiquei a sentir sobre mim nesse momento marcou-me para sempre», lamentou.

«Quando entrei no programa, sabia que teria pessoas contra aquilo que eu represento. Ser uma mulher negra e gay. Mas achava que ia ser protegida!», lembra Ebony. Mas estava enganada. «Estava sentada com três das melhores cabeleireiras a rir da textura do meu cabelo. Foi frustrante! Não tinham a máquina certa, nem sabiam o que fazer. Deixaram-me com três pontos calvos», lamentou. Pensou que Tyra a ia compreender. No entanto, os comentários continuaram. Aliás, pioraram: «A textura da tua pele como mulher afro-americana devia ser como manteiga. Na sessão de retoques, a tua fotografia foi a mais difícil de trabalhar», disse a apresentadora numa das sessões de avaliação. «Lembro-me de pensar: ‘Há tanta coisa que quero dizer’. Mas tinha de ficar quieta». Depois do programa a modelo era abordada por outras raparigas que lhe diziam: «Não posso ser modelo porque tenho a cara áspera como tu!».

A primeira temporada do programa foi um grande sucesso. Não se falava sobre outra coisa e as audiências dispararam. Seguiu-se uma segunda temporada com um orçamento muito maior que permitiu que se gravasse fora do país. As concorrentes viajaram até Milão. E o pior aconteceu. Shandi Sullivan estava animada. Era uma adolescente com pouca auto-estima, falta de amor. Destacou-se logo entre as concorrentes e estava empenhada a ganhar o programa até que numa noite, em Itália, as concorrentes resolveram convidar alguns modelos que conheceram numa sessão fotográfica para uma festa. Shandi, que não tinha comido nem dormido, acabou por se envolver com um deles. Tiveram sexo no chuveiro e acabaram por ir para a cama juntos, tudo isto acompanhados pela equipa de filmagem.

«Lembro-me de ele estar em cima de mim. Eu apaguei e ninguém fez nada para o impedir. Aliás, gravaram tudo (...). Só percebi vagamente que estava a ter relações sexuais e então desmaiei», desabafa. O documentário dá a entender que esta estava demasiado embriagada para consentir o que quer que fosse. No entanto, isso não foi motivo para a produção intervir. Na manhã seguinte caiu-lhe a ficha. Tinha traído o namorado e pediu para falar com ele. Só permitiram quando esta ameaçou abandonar o programa. Só havia uma condição. Teriam de filmar a chamada. Shandi recorda-se que, quando desligou o telemóvel, se deitou no chão, em posição fetal, a chorar. O operador de câmara e o do som lamentaram ter de filmar essa cena e retiraram-se. «Eles sabia que aquilo não estava certo», acredita. «Era como se as coisas se tornassem convenientes quando precisavam de o ser», defende a concorrente. Depois disso, a produção levou-a ao médico e, mais uma vez, isso foi filmado.

Interrogado se alguma vez sentiram que deviam ter parado de gravar, Ken Mok respondeu que tratavam o programa como um documentário e que as concorrentes estavam cientes disso. No entanto, garante que cortaram essas cenas de uma forma «significativa». Já a apresentadora garante que não teve nenhuma responsabilidade sobre o assunto. «É um pouco difícil para mim falar sobre a edição porque esse não é o meu campo de atuação», afirmou.

Traumas e assédio

Mas o público exigia mais e Tyra queria dar mais, mesmo que isso significasse colocar as concorrentes em posições desconfortáveis ou até mesmo de perigo. Pegavam nos seus medos (que ficaram a conhecer nos castings) e transformaram-nos numa sessão fotográfica. Posavam com tarântulas, baratas, andavam com saltos altos de 25 cm, eram penduradas a metros de altura, colocaram-nas a pousar vestidas de sem-abrigo com pessoas que realmente viviam nessa situação.

Nessa segunda temporada, Dani Evans e Joanie Sprague sabiam que os seus dentes eram um «problema» e confirmaram isso quando foram levadas ao dentista. Era a primeira vez que as concorrentes iam realmente passar por procedimentos médicos. Joanie viu isso como um sonho prestes a realizar-se. Já Dani não ficou tão convencida, até porque gostava do espaço que tinha entre os dois dentes da frente (diastema). «O espaço característico fica na minha boca. É quem eu sou!», diz a dada altura. E, se calhar, Joanie também devia ter batido o pé. Num dia, tiraram-lhe quatro dentes. «Eu era jovem e estava sozinha nisto. Tive de assinar um documento ali mesmo. Não podia ligar para a minha mãe, nem para um advogado. E não sabia que duraria a noite toda», lembrou. Dani também acabou por ceder à pressão depois de Tyra a ter ameaçado que se não fechasse o espaço entre os dentes, iria para casa. Temporadas depois, a própria apresentadora incentivou outra concorrente a alargar o mesmo espaço.

Segundo as modelos, eram mal alimentadas e estavam sobrecarregadas. Houve muitos momentos em que o corpo cedeu e, mais uma vez, à custa das audiências, tudo era filmado e exposto.

Dionne Walters foi forçada a posar como vítima de um tiro. Quando era pequena a sua mãe foi alvejada e ficou paralisada da cintura para baixo. «A produção tinha conhecimento da minha história devido ao processo de candidatura, mas mesmo assim escolheram-me para essa sessão em particular que envolvia violência armada. Na altura achei que era coincidência, mas sei que não foi», disse a concorrente, acrescentando que acredita que a queriam ver a ter «uma espécie de esgotamento mental». O fotógrafo Nigel Barker garante que, na altura, não pensou nisso. Já Ken admite que se arrepende dessa sessão. «Parece que foi uma celebração de violência!».

Outra das sessões mais polémicas foi a de «troca de raça». «Os meus pais são da África do Sul, cresceram durante o apartheid. Conheço muito bem essa história. E eu disse: ‘Troca de raças?’. Primeiro pedi para ser dispensado da sessão. E a Tyra disse: ‘Eu abordo isto em câmara com as raparigas quando for avaliar. Vai fazer o teu trabalho!’. Reconheci que o meu papel começava a ter limitações. Aquela sessão ia acontecer na mesma», denunciou Jay Manuel, diretor de arte. Ao mesmo tempo, Tyra garante que não percebeu o quão controverso isso era. «Estava na minha bolha! Esta foi a minha forma de mostrar ao mundo que as peles mais escuras eram lindas», desculpou-se. Mesmo vendo que a sessão não foi bem recebida, quando foi para o ar, o programa voltou a fazê-la na temporada 9.

Até ter entrado no programa, Kennyah Hill achava-se magra e até era gozada por causa disso. «Pareces um rapaz, tirando as mamas», ouviu pela boca de J. Alexander, considerado o rei da passerelle e que também era jurado no programa. De repente, estava «acima de peso», quando pesava 56 quilos. «Entrar nessa indústria e ouvir isso, foi muito confuso para mim!», admite. Numa das sessões, dedicada aos sete pecados mortais, foi-lhe atribuído o pecado da gula. «Parece que tinham de encontrar algo que fizesse parte da narrativa», disse. Em África, na sessão fotográfica dedicada aos animais, foi um elefante. «Foi aí que soube… Isto é intencional», acredita. « A Keenyah precisa de perder peso!», repetiam os jurados. Segundo a concorrente, as imagens era editadas para dar a entender que ela estava sempre a comer. «Editavam para que parecesse que comia três bagels, quando era sempre o mesmo».

E o pesadelo não se ficou por aí. Numa sessão também na África do Sul, foram contratados três rapazes para dançar à roda de cada modelo. Ainda nas preparações, Kennyah percebeu que um deles estava a namoriscar consigo. Mostrou desconforto, mas não foi o suficiente para ele parar. Aliás, aproveitou o momento da sessão para lhe tocar. A modelo resolveu parar educadamente o trabalho para demonstrar a sua insatisfação, mas foi ignorada. Segundo Tyra, atualmente isso nunca aconteceria. «Eu fiz o melhor que pude naquela altura, mas ela merecia mais», lamenta.

Outro dos momentos mais polémicos do programa passou-se com uma concorrente chamada Tiffany Richardson, na quarta temporada. Num dos desafios, as modelos tinham de ler um teleponto sobre a semana da moda em Paris e ler vários nomes de estilistas estrangeiros. Quase todas erraram, mas continuaram. Tiffany recusou-se a fazê-lo. Acabou por ser enviada para casa, mas antes disso, Tyra gritou com ela por ela rir. «Cala-te! Nunca na minha vida gritei assim com uma mulher. Quando a minha mãe grita assim é porque me ama! Estava a torcer por ti! Como te atreves?». No dia seguinte, estavam advogados no estúdio. O momento ficou eternizado em memes.

Ao serem eliminadas do programa, as concorrentes eram levadas para um hotel até ao final das filmagens. Não tinham acesso ao telemóvel e ao exterior por motivos de confidencialidade e muitas admitiram que isso as marcou, já que estavam emocionalmente destruídas. Além disso, não houve qualquer ajuda após o programa acabar. A produção nem permitia que as modelos usassem as fotos feitas no programa para o seu portfólio. Ao voltarem ao mundo real, estavam rotuladas como as «meninas do reality show» e poucas foram as que conseguiram seguir o seu sonho. Olhando para trás, Tyra reconhece que «algumas escolhas foram realmente questionáveis». Porém, segundo a própria, as intenções foram sempre boas.