Conhece a cena. Está numa esplanada com amigos, ao fim de uma tarde nestes meses que começam a ficar mais quentes, e enquanto toda a gente aprecia a noite quente, você é o único a dar estalos nos braços. Alguém diz, invariavelmente: "tens o sangue doce." É uma das expressões mais usadas em Portugal para explicar por que certas pessoas parecem ser o alvo preferido dos mosquitos. O problema é que a ciência acaba de mostrar que os mosquitos não fazem a mínima ideia de como é o seu sangue. E o que realmente os leva até si pode mudar-se com uma simples troca de t-shirt.
Com a primavera instalada e as temperaturas a subir, os mosquitos regressam em força, sobretudo ao anoitecer e perto de zonas com vegetação ou água parada. É exactamente nesta altura do ano que faz sentido perceber o que a investigação mais recente tem a dizer sobre estes insectos.
O estudo que mudou tudo
Investigadores do MIT e do Instituto de Tecnologia da Georgia desenvolveram o primeiro modelo tridimensional alguma vez criado para prever o comportamento de voo dos mosquitos. O estudo, publicado na revista científica Science Advances, baseou-se em experiências com centenas de mosquitos fêmea da espécie Aedes aegypti, os mesmos responsáveis pela transmissão de dengue, febre amarela e zika, e resultou na recolha de mais de 20 milhões de pontos de dados sobre as suas trajectórias de voo.
A conclusão central é clara: os mosquitos não se seguem uns aos outros nem farejam o "doce" do seu sangue. Cada insecto reage de forma independente aos estímulos do ambiente e acaba por convergir no mesmo local ao mesmo tempo, como se seguissem as regras de um algoritmo. Como explicou o investigador Christopher Zuo ao Georgia Tech News: "São como pequenos robôs. Só tínhamos de descobrir as suas regras."
A combinação que o transforma num alvo
O modelo identificou três padrões de voo distintos consoante os estímulos presentes: quando detectam apenas um alvo visual, os mosquitos fazem um sobrevoo rápido e afastam-se se não encontrarem mais pistas; quando sentem dióxido de carbono mas não vêem nada, abrandam e varrem a área à procura da origem; quando recebem os dois sinais em simultâneo, adoptam um padrão de órbita em alta velocidade à volta do alvo.
Por outras palavras: a sua respiração já o torna detectável. Mas é a combinação do CO2 que expira com as cores escuras da roupa que activa o modo de ataque. Segundo o MIT News, estes insectos conseguem detectar o dióxido de carbono a até nove metros de distância. A visão, por outro lado, é bastante limitada: os seus olhos compostos produzem uma imagem desfocada e pixelizada, e só conseguem distinguir um adulto a poucos metros. Sozinhos, não conseguem sequer diferenciar uma pessoa de uma pequena árvore.
O voluntário que entrou na câmara dos mosquitos
Para testar o modelo em contexto real, o investigador Christopher Zuo entrou numa câmara controlada usando roupas de cores diferentes, com câmeras infravermelhas a registar cada movimento dos insectos ao seu redor. Quando usou uma roupa com metade branca e metade preta, as trajectórias dos mosquitos concentraram-se esmagadoramente no lado escuro, mesmo com os outros estímulos, como o dióxido de carbono e o odor, a permanecerem simétricos.
As maiores concentrações formaram-se à volta da cabeça e dos ombros, precisamente porque são as áreas de maior libertação de CO2 durante a respiração, e as zonas onde esta espécie mais habitualmente pica.
O que pode fazer já hoje para ser menos apetecível
Com base nestes resultados, há mudanças concretas que pode adoptar agora que o tempo convida a estar mais tempo no exterior:
Opte por roupas de cores claras: branco, bege e amarelo claro reduzem a atracção visual dos mosquitos
Cubra a cabeça e os ombros ao anoitecer, as zonas com maior libertação de CO2 são as mais visadas
Evite exercício físico intenso ao ar livre ao cair da tarde, a respiração acelerada aumenta a emissão de dióxido de carbono
Use repelente sobretudo no pescoço e na face
Prefira tecidos de malha mais fechada, que dificultam a picada mesmo que o insecto pouse
Curiosidades sobre os mosquitos que provavelmente não sabia
Das mais de 3.500 espécies de mosquitos conhecidas no mundo, apenas cerca de 100 evoluíram para ter preferência específica por humanos. E são exclusivamente as fêmeas que picam, porque precisam das proteínas do sangue para produzir os seus ovos. Os machos alimentam-se apenas de néctar e seiva de plantas e são completamente inofensivos.
Segundo a Organização Mundial de Saúde, os mosquitos são os animais mais letais do planeta. As doenças que transmitem, da malária à dengue, causam mais de 700 mil mortes por ano em todo o mundo, mais do que qualquer outro animal, incluindo os humanos. Tudo isto num insecto que pesa dez vezes menos do que um grão de arroz.
Em Portugal, o mosquito tigre (Aedes albopictus) tem vindo a expandir progressivamente a sua presença, sobretudo nas regiões costeiras e no Algarve, tornando estas descobertas ainda mais relevantes para o nosso dia a dia.
Armadilhas mais inteligentes no horizonte
Os investigadores sugerem ainda que as armadilhas de sucção actuais, que dependem de estímulos contínuos como a libertação permanente de CO2, podem ser menos eficazes do que se pensava. Uma estratégia intermitente, que active e desactive os estímulos em intervalos regulares, poderia imitar melhor o comportamento humano e capturar muito mais mosquitos. A equipa desenvolveu também uma aplicação interactiva que incorpora o novo modelo de voo, onde qualquer utilizador pode experimentar diferentes configurações e observar como os mosquitos reagiriam em cada cenário.
Da próxima vez que alguém lhe disser que tem o sangue doce, já sabe o que responder. Os mosquitos não sabem nada disso. O que sabem é que expira CO2 na direcção deles e que a sua t-shirt é preta.