O bidé pode não ter morrido ainda, mas está a fazer as malas. Durante décadas, a peça de cerâmica branca foi um elemento quase sagrado nas casas de banho portuguesas e espanholas, herança de uma tradição que atravessou gerações e que muita gente considera inegociável. Hoje, porém, a realidade é outra: nas novas habitações, o bidé simplesmente já não aparece nos planos.
Em Espanha, o sinal é inequívoco. De acordo com especialistas do setor imobiliário e de design citados pelo OkDiario, cerca de 90% das habitações de nova construção já prescindem do equipamento. Os compradores preferem uma sanita com duche integrado, mais espaço de arrumação ou o que está a tornar-se a solução da moda: o chuveiro higiénico, também conhecido como duche lateral. Uma mangueira flexível com um pequeno chuveiro de mão, ligada à saída de água da sanita ou do lavatório, que ocupa uma fração do espaço e cumpre exatamente a mesma função.
Em Portugal, o cenário não é muito diferente e há um pormenor que pouca gente sabe: em 2024, o país eliminou a obrigação de instalar bidés nas casas de banho. A norma que durante décadas impunha a presença da peça caiu em silêncio, sem grande alarde, mas com consequências práticas visíveis nas novas construções e nas remodelações. Arquitetos e proprietários aproveitaram a liberdade para recuperar metros quadrados que, nas casas cada vez mais compactas, valem ouro.
O chuveiro higiénico não é uma invenção ocidental, está há décadas instalado no quotidiano de países como o Japão, a Tailândia ou Marrocos, onde o uso de papel higiénico é visto com o mesmo estranhamento com que muitos europeus olham para quem não usa bidé. A sua chegada à Península Ibérica acompanhou o boom do design minimalista e a crescente pressão sobre o espaço urbano: quando uma casa de banho raramente ultrapassa os quatro ou cinco metros quadrados, qualquer peça que possa ser eliminada sem perda de função torna-se automaticamente um candidato à saída.
Além do espaço, há outros argumentos. Os modelos mais recentes de chuveiro higiénico incluem regulação automática de temperatura e funções de autolimpeza, dispensando qualquer tipo de manutenção especial. Não têm ralo, não acumulam calcário com a mesma facilidade, e a instalação pode ser feita em menos de uma hora sem necessidade de obras. Do ponto de vista ambiental, a redução do consumo de papel higiénico é o argumento mais citado pelos seus defensores, e, num país onde a sustentabilidade começa a pesar nas decisões domésticas, é um ponto a favor que não é de ignorar.
A questão que fica no ar e que os portugueses mais apegados ao bidé não conseguem deixar de colocar é se esta "transformação silenciosa" que já acontece em Espanha chegará também cá com a mesma força. Tudo indica que sim. Não por decreto, mas pela lógica simples de quem renova a casa de banho, olha para o espaço disponível e decide que há formas mais inteligentes de o usar.
O bidé não vai desaparecer de um dia para o outro das casas mais antigas. Mas nas novas, a escolha já está feita, com ou sem mangueira o bidé já era.