Relacionados
Pode parecer impossível, mas a Península Ibérica, o território que engloba Portugal e Espanha, pode estar a girar lentamente no sentido dos ponteiros do relógio. É o que sugere uma investigação publicada na revista científica Gondwana Research, que reconstruiu com detalhe inédito como se distribuem as forças tectónicas entre a Ibéria e o noroeste africano.
O que provoca este movimento?
A causa estaria na convergência oblíqua entre as placas tectónicas da Eurásia e de África, que exerce pressão sobre a margem sudoeste da Península Ibérica. Combinada com a estrutura geológica da região, essa configuração criaria as condições para uma rotação gradual, imperceptível no quotidiano, mas mensurável com tecnologia de precisão.
Para chegar a estas conclusões, a equipa de investigadores analisou dois tipos de dados:
Mecanismos focais de sismos, que permitem identificar como se fraturou a rocha durante um terramoto e que tipo de tensão agia em profundidade
Dados GNSS, sistemas de posicionamento por satélite semelhantes ao GPS, capazes de medir deslocamentos milimétricos à superfície da Terra
Com esta combinação, os cientistas elaboraram mapas de esforço tectónico e de deformação superficial com uma resolução mais detalhada do que alguma vez havia sido possível para esta região.
Como está dividida a região em termos tectónicos?
O estudo identificou quatro sectores tectónicos principais: Atlântico, Gibraltar, Alborão e Argelino-Balear. Cada um responde de forma diferente à pressão exercida entre as placas africana e euroasiática.
No sector atlântico, as tensões transmitem-se de forma mais directa entre ambas as placas. Mais a leste, parte dessa energia é absorvida em zonas onde a crosta terrestre é mais delgada, em particular no domínio de Alborão e nas margens continentais do arco de Gibraltar e da cordilheira do Tell.
Os investigadores detectaram ainda actividade tectónica em regiões interiores, afastadas dos principais limites de placas. Embora com taxas de deformação horizontal baixas, essas zonas continuam a registar actividade associada à compressão regional.
O que nos diz a história geológica da Península Ibérica?
O estudo percorre também a evolução tectónica da região desde a fragmentação da Pangeia e a abertura do Atlântico até à formação dos Pirenéus, da cordilheira do Atlas e do arco de Gibraltar.
Hoje, a convergência entre a Eurásia e África continua a deformar o Mediterrâneo ocidental através de compressão, deslocamentos laterais e actividade sísmica. Os autores concluem que cruzar dados sísmicos com informação geodésica permite compreender melhor como se distribuem as tensões tectónicas em regiões onde interagem múltiplos blocos crustais, e que a Península Ibérica é um exemplo particularmente complexo e revelador.