terça-feira, 13 jan. 2026

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«Nem de uma única linha»…

Em declarações aos jornalistas na quarta-feira, em Roma, onde se encontrava para participar num encontro internacional, Cavaco Silva foi taxativo. A sua intervenção de 22 de outubro, quando indigitou Passos Coelho como próximo primeiro-ministro, «foi muito clara e não estou arrependido nem de uma única linha de tudo aquilo que disse». Obviamente, contestou as opiniões de que teria proferido um discurso «de seita ou partidário» e, ao mesmo tempo, recusou-se a esclarecer o que fará se o próximo Governo for derrubado no Parlamento, invocando o facto de estar a falar no estrangeiro.

À espera de Godot

Tal como as personagens patéticas da peça de Samuel Beckett, confesso que também estive À Espera de Godot ao longo da passada quarta-feira. Mas havia uma diferença essencial. Essas personagens mantinham, apesar de tudo, a esperança absurda de que o enigmático Godot acabaria por aparecer, justificando, assim, uma interminável espera. A mim não restava sequer esse álibi. 

A democracia bloqueada

A persistência invulgar do número de indecisos - por muitas dúvidas que nos suscitem as tracking polls e sondagens realizadas nas últimas semanas - mostra a desorientação e o desamparo de grande parte do eleitorado perante as escolhas que lhe são propostas no próximo domingo. Porventura nunca como agora, em vésperas de eleições, tantos portugueses se questionaram em quem irão votar ou até se irão votar, o que faz temer também um aumento significativo da abstenção (tendência que, aliás, se tem vindo a agravar ao longo do tempo).

Abusos de confiança

Para além da polémica que suscitou um cartaz socialista de estilo grosseiramente kitsch nesta época de pré-campanha, a palavra “confiança” não constitui uma novidade na propaganda eleitoral. Pelo contrário, apareceu sucessivamente em cartazes de António Guterres (“Um voto de confiança”), Durão Barroso (“Mudar com confiança”) e José Sócrates (“Força e confiança”). Há, pois, confiança a mais na flagrante falta de imaginação dos publicitários responsáveis pelas campanhas eleitorais do PS e do PSD.

De olhos bem fechados

Baltimore? Ferguson? Simplesmente Lisboa (ou, noutra escala, Guimarães). As imagens de violência urbana que os directos das televisões nos fizeram entrar pela casa dentro na madrugada de segunda-feira tinham um carácter de tal modo inusitado em Portugal que deixaram muita gente surpreendida e até estupefacta. O mito do país dos bons costumes saía de cena esfrangalhado.

Uma questão de carácter

Há quem pense que as questões de carácter devem ser estranhas aos juízos sobre o comportamento dos actores políticos. Ora, sem cair em moralismos serôdios, não parece possível acreditar - e, já agora, votar - em alguém cujo carácter não ofereça garantias de lisura ou coerência de procedimentos e, pelo contrário, se distinga pela dissimulação, a duplicidade, o cinismo, ou a falta de respeito pelos compromissos assumidos perante o eleitorado.

Cabeças perdidas

Anda por aí muita gente de cabeça perdida e não apenas na crónica negra da violência doméstica cujos episódios de horror se repetem a um ritmo e com uma semelhança inquietantes (um homem assassinou, esta semana, quatro familiares num café da Póvoa de Varzim, devido a uma disputa de partilha de bens). 

Horror e amnésia

Um homem matou com uma facada no coração um filho de seis meses, em Linda-a-Velha, por represália contra a mulher que não queria viver mais com ele. Outro homem matou à pancada uma enteada de dois anos, em Loures, depois de agressões continuadas contra um irmão da vítima. Os dois acontecimentos ocorreram quase em sequência, na última semana, e os assassinos eram desempregados com problemas de alcoolismo e violência. Dias depois, um terceiro homem disparou contra duas mulheres numa pastelaria em Alijó, matando uma delas e ferindo gravemente outra: motivo alegado, o fim do namoro com a segunda.

Uma Madeira nova?

   

Um vazio perigoso

Este artigo de opinião foi originalmente publicado na edição impressa do SOL, no dia 13 de Março

Definitivos e provisórios

Ter opiniões definitivas, apaixonadas, militantes, sobre compromissos inevitavelmente provisórios, é o caminho mais curto para perder o equilíbrio, a lucidez e o sentido das proporções. Assim, o acordo registado esta semana entre a Grécia e as instituições europeias não é comparável a um desafio de futebol entre rivais irredutíveis, cujo desfecho imaginário só poderia ser o triunfo indiscutível de um deles ou o esmagamento do outro.

A Europa no espelho grego

Enquanto na Ucrânia se confirmava o fracasso, aliás totalmente previsível, do segundo acordo de Minsk, apesar das noites em branco de Merkel e Hollande e do seu diálogo (de surdos, conforme se antevia) com o imperturbável Putin, outro confronto menos bélico mas igualmente perigoso mantinha-se em aberto entre o Governo grego e a Europa alemã. É uma concentração explosiva de conflitos, cujos efeitos cruzados ameaçam esfrangalhar o que ainda resta da unidade e credibilidade europeias.
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