quinta-feira, 16 jul. 2026

Matuto

O Matuto e a Hipersensibilidade

O Matuto acredita obstinadamente que Homero, Shakespeare, Camões, Eça ou Dostoiévski dificilmente sobreviveriam ao escrutínio das sensibilidades contemporâneas. Felizmente escreveram antes de existirem formulários de risco emocional.

O Matuto e o Futebol de Rua

O Matuto é um Benfiquista desactivado. Nada anima o Matuto a ver um jogo de futebol. Nem mesmo a obsessão histérico-patriótica pelo Mundial (Copa, no Brasil, por favor).

O Matuto e os Sinos

Os sinos deveriam ser como o ruído gratinado dos antigos moinhos que embalavam o sono do moleiro. Ou como o chiar dum comboio (trem, no Brasil, por favor) atravessando a noite. Ou como o coaxar das rãs nos rios. Ou como o cantar dos grilos nas noites de Agosto. Sons de paz. De serenidade. Tranquilos. Toques deslumbrados da aceitação das coisas.

O Matuto e a Vida de Cão

Sempre acreditara que um cão feliz precisava apenas dum quintal, dum osso e da ocasional boa vontade dum carteiro. Pelos vistos, estava enganado. A felicidade canina exigia agora programação cultural.

O Matuto e o Café com Cheirinho

Aquela chávena fumegante sempre serviu de desculpa para coisas maiores: conversas perigosas, paixões adiadas, revoluções literárias e melancolias sem nome. O café é, talvez, o mais respeitável dos vícios porque permite ao homem perder tempo com dignidade.

O Matuto e as Tribos Urbanas

O Matuto é do tempo em que havia uns cartazes patuscos com um menino e uma menina a espreitarem espantados o seu “pipi”. A frase escarrapachada no cartaz era: “Vive la Différence”. Antes da diversidade ser uma moda ideológica era uma práctica do quotidiano.

O Matuto e o Bolo de Bolacha

O Matuto nunca confiou plenamente em sobremesas que exigem reverência.

O Matuto e os Piratas

Mas o pirata favorito do Matuto é Klaus Störtebecker — o Pirata do Elba. É Luís Sepúlveda quem conta a história no livro Rosas de Atacama.

O Matuto e os Sete Sapatos Sujos

E foi ali, entre o pão com azeitonas e a estranheza dos sapatos deixados à porta das mesquitas, que o Matuto percebeu que talvez também nós devêssemos aprender a andar pela vida mais descalços. Há sapatos sujos que se colam aos pés sem darmos por isso. E talvez fosse de bom tom deixá-los à soleira da porta. Sentir o chão.

O Matuto e o Lobo Antunes

O Matuto está posto em descansos telúricos. Morreu António Lobo Antunes. É certo que já há algum tempo que o seu corpo invejava o pó. Agora habita nele. Na opinião do Matuto há escritores que rabiscam histórias. Outros armam-se em carapaus de corrida. Outros saramagam em arremedos de pimpão. Outros lanzaroteiam ideias coladas com cuspo. E depois existe António Lobo Antunes, que parece escrever como quem escava.

O Matuto e a Melga/Pernilongo

Este bicharoco é maldoso. Cruel. Fica a rodopiar na cabeça da gente até provocar automutilação involuntária. O ser humano passa a vida a dar bofetadas nas próprias orelhas como se estivesse em guerra consigo mesmo. Não há estatística fiável que prove a morte de um único pernilongo à estalada. Mas a humanidade insiste. E as orelhas sofrem. Uma maçada!

O Matuto e os Carecas

Nalguns casos é notório o tratamento das zonas periféricas. É vê-los a pentearem-se de modo a aproveitar ao máximo os tufos de cabelo, esticando-os até ao limite. Nunca desprezam o valor dum rebento peludo! Compram tónicos capilares, submetem-se a massagens do couro descabeludo, e sonham com implantes de jubas leoninas, melenas femininas e crinas cavalares.
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