Relacionados
É uma das previsões mais radicais que se ouviram nos últimos anos sobre o futuro da inteligência artificial. Vinod Khosla, o investidor que apostou na OpenAI em 2019 quando poucos o faziam — injectando 50 milhões de dólares a uma avaliação de mil milhões —, afirma que qualquer criança que tenha hoje cinco anos nunca vai precisar de trabalhar para sobreviver. Trabalhará, se quiser, apenas por prazer ou realização pessoal.
A declaração foi feita numa entrevista ao podcast Titans & Disruptors of Industry, da Fortune, conduzida pela directora editorial Alyson Shontell, e encaixa-se numa visão que Khosla tem partilhado há anos: a de que, a partir de 2030, cerca de 80% de todos os empregos poderão ser desempenhados por inteligência artificial.
A lógica é directa, pelo menos no papel. Se o custo da mão-de-obra tender para zero, os preços dos bens e serviços seguirão o mesmo caminho. Quem hoje ganha 10 mil ou 30 mil dólares por ano poderá aceder a um estilo de vida actualmente reservado a quem ganha o triplo ou mais. "A parte de sobreviver desaparecerá e dirás a cada criança de cinco anos: segue a tua paixão", afirmou Khosla na conversa com a Fortune.
Neste cenário, a universidade deixaria de ser uma necessidade de mercado para passar a ser uma escolha de enriquecimento intelectual, e haveria uma fase de transição em que profissionais humanos funcionariam como supervisores de agentes de IA, treinando-os para progressivamente assumirem as suas funções. Que seja Khosla — talvez o investidor com melhor historial de antecipar tendências tecnológicas, com apostas precoces em empresas como a Square e a DoorDash — a fazer esta previsão, dá-lhe um peso que outros não conseguem.
O que os dados dizem agora
Ainda assim, há razões concretas para alguma cautela. A primeira é contextual: Khosla é um dos maiores investidores mundiais em IA, e tem interesse directo em que esta narrativa de abundância ganhe terreno junto do público e dos decisores políticos.
A segunda prende-se com os números. Um estudo recente do National Bureau of Economic Research, baseado em respostas de quase seis mil CEOs, CFOs e outros executivos de empresas nos EUA, Reino Unido, Alemanha e Austrália, revela que 90% afirmam não ter registado qualquer impacto significativo da IA no emprego ou na produtividade nos últimos três anos — apesar de 70% das empresas já utilizarem a tecnologia activamente. As previsões mais optimistas dos próprios executivos apontam para um crescimento de produtividade de 1,4% e de produção de 0,8% — não agora, mas até 2029.
O que fica em aberto é a questão da distribuição. Mesmo que os modelos de Khosla se confirmem, não existe um mecanismo automático que garanta que as poupanças geradas pela automação se traduzam em preços mais baixos para os consumidores — e não apenas em maiores retornos para accionistas. O próprio Khosla reconhece que este é o ponto crítico, defendendo medidas como fundos soberanos de riqueza alimentados pelos ganhos da IA, ou a eliminação de impostos sobre o rendimento para quem ganha menos de 100 mil dólares anuais. São ideias ainda em construção, e é precisamente aí — na arquitectura política e redistributiva de um mundo sem trabalho obrigatório — que a visão mais otimista ainda tem muito por responder.