quarta-feira, 13 mai. 2026

Fim do PIN no cartão multibanco pode estar a chegar e a tecnologia que vai substituí-lo já existe

Três dos maiores bancos franceses estão a testar cartões com sensor de impressão digital integrado. O código de quatro dígitos pode ter os dias contados, e a pergunta que importa fazer é: quanto tempo falta para isto chegar a Portugal?
Fim do PIN no cartão multibanco pode estar a chegar e a tecnologia que vai substituí-lo já existe

Durante décadas, o ritual foi sempre o mesmo: cartão no terminal, código de quatro dígitos, botão verde. Mas esse hábito enraizado em milhões de pessoas pode estar a viver os seus últimos anos. Em França, três dos maiores grupos bancários do país avançaram para testes com uma tecnologia que elimina por completo a necessidade de memorizar um PIN.

A BNP Paribas, o Crédit Agricole e a Société Générale estão a desenvolver cartões com um pequeno sensor biométrico embutido diretamente no plástico. Em vez de inserir o cartão num leitor e digitar um código, basta aproximar o cartão do terminal e pousar o polegar num sensor quadrado integrado no próprio cartão para validar o pagamento. A autenticação acontece em menos de um terço de segundo.

Como funciona, exatamente

A engenharia por detrás desta tecnologia é mais sofisticada do que aparenta. O captador biométrico fica integrado dentro da espessura padrão do cartão, apenas 0,76 milímetros, e tem de coexistir com um microcontrolador seguro, uma antena NFC e um módulo de gestão de energia. Segundo o Journal du Geek, a inovação recente dos chips "System-on-Chip", desenvolvidos por fabricantes como Samsung, Infineon e STMicroelectronics, permitiu reduzir os custos de produção para menos de cinco dólares por cartão no final de 2025, quando em 2020 esse valor rondava os 20 dólares.

A autenticação é feita localmente: a impressão digital do utilizador é comparada com um modelo guardado na própria pega, sem que qualquer dado seja transmitido ao banco ou ao comerciante durante a operação. A informação biométrica nunca circula na rede, nunca é armazenada em bases de dados externas e nunca pode ser intercetada por terceiros.

A energia necessária para ativar o sensor dispensa bateria. No momento em que o cartão se aproxima do terminal, o campo eletromagnético gerado pelo leitor alimenta diretamente a pega, seguindo a mesma lógica dos pagamentos por aproximação já conhecidos.

O problema do PIN que a biometria resolve

A tecnologia está especialmente desenhada para combater um tipo específico de fraude: o chamado "shoulder surfing", ou seja, a observação discreta do código enquanto o titular o introduz no terminal. Em Portugal, o problema tem outra face. As burlas associadas ao MB Way continuam a fazer vítimas em número preocupante, muitas delas baseadas em engenharia social para obter PINs e códigos de acesso. Um cartão biométrico elimina este vector de ataque por completo: não há código para roubar, copiar ou forçar.

Quanto custa e quem pode ter um

Por agora, a tecnologia não está ao alcance de todos. A BNP Paribas oferece o cartão biométrico como complemento da Visa Premier, com um custo adicional anual de 24 euros, direccionando a oferta sobretudo para grandes viajantes e empresários com transações frequentemente superiores a 200 euros. O Crédit Agricole reserva a opção para titulares de Mastercard Gold e World Elite. A Société Générale é a que adopta uma postura mais ambiciosa, prevendo estender a biometria a cartões standard, fora do segmento premium.

Como se activa o cartão

O processo de registo da impressão digital era, até há pouco tempo, o principal ponto de fricção: obrigava a uma deslocação à agência ou ao envio de um kit para casa. Em Janeiro de 2025, a empresa IDEMIA apresentou a tecnologia F.CODE, que permite fazer o registo diretamente através do smartphone. O cliente encosta o novo cartão à parte traseira do telemóvel, a app bancária gera um campo NFC suficiente para alimentar a pega, e o processo decorre em tempo real.

E Portugal?

Não há, por agora, qualquer anúncio de um banco português a preparar cartões biométricos. Mas o terreno está preparado para receber esta tecnologia. O Banco de Portugal exigiu que, a partir de 2022, todos os cartões emitidos em Portugal tivessem a funcionalidade contactless activa e que os estabelecimentos comerciais dispusessem de pelo menos um terminal compatível. Isso significa que a infra-estrutura de aceitação já existe: os terminais que hoje processam pagamentos por aproximação são os mesmos que seriam necessários para cartões biométricos, sem qualquer actualização adicional do lado do comércio.

Se os testes em França confirmarem a eficácia da tecnologia e a adesão dos consumidores, esta inovação poderá estabelecer um novo padrão internacional, com a Mastercard já a planear eliminar os números impressos nos cartões até 2030, numa transição que tornaria a biometria no único método de autenticação disponível.

A questão não é se chegará a Portugal. É quando.