Do kitsch ao slop, das artes decorativas à comida para porcos

"Slop" foi a palavra de 2025 de acordo com várias publicações e entidades, mas esta "lavadura" ou "comida para porcos", que designa a massa de conteúdos de baixa qualidade gerados por sistemas de Inteligência Artificial, tem provado uma competência alucinante para degradar o espaço da informação e erodir a ideia de «realidade», sendo que, como arma política, provou como a função cibernética foi elevada a uma potência de governação totalitária.
Do kitsch ao slop, das artes decorativas à comida para porcos

Restos de cozinha, sobras de mesa, fruta podre, legumes passados, grãos estragados, desperdícios de mercado – tudo aquilo que rejeitávamos era atirado ao cocho, para alimentar os porcos. Lixo orgânico, excedentes, matéria em decomposição. Em muitas quintas, os chamados slops eram misturas pastosas de farelo ou massa de milho mexidas com leite ou água, uma papa morna, indiferenciada, feita para engordar rápido, não para nutrir. O porco sobrevivia dessa lama alimentar feita de restos. Nos matadouros do Oeste americano, os porcos chegavam a ser alimentados com restos de gado morto, carcaças, vísceras, resíduos animais – prática brutal que acelerava o crescimento, mas os adoecia. É dessa economia do resto que nasce a expressão AI slop. Conteúdo feito de sobras culturais, estilos mortos, ideias recicladas, misturado em massa, servido quente, barato, indistinto. Não para pensar, mas para engordar as métricas. Como os porcos, o sistema adoece do que consome.

Hoje, no campo digital vivemos atolados nesses conteúdos de baixa qualidade produzidos a uma velocidade vertiginosa pelos diferentes programas de Inteligência Artificial e, logo de seguida, escoados nas redes sociais, sendo impossível escapar a esses reflexos e ecos impiedosos que devoram qualquer impressão ou detalhe da realidade. É como se um impulso devorador procurasse consumir inteiramente cada elemento expressivo. Vamo-nos deparando com múltiplas iterações num fluxo que tende para reclamar duração na alma arbitrária daqueles que se deixam enfeitiçar por esse poço de miragens. Há uma ordem de proliferação que testa desvios, quebrando um espelho em sucessivas réplicas, roubando tudo de cada elemento real ou concreto, não deixando intacta uma cor nem uma sílaba. Infecta todo o caudal das noites e dos dias, todas as ideias, explorando situações, cenas ou enredos cada vez mais falsos, e somos nós que vamos ainda dando sentido a esses enfeites que luzem para nos encadear. Falamos de conteúdos cómicos, divertidos, grotescos, paródicos, inverosímeis e tudo o mais que possamos imaginar, ao serviço do entretenimento ou de falsidades usadas muitas vezes no combate político e na propaganda como arma de guerra, mas, no fundo, o que estamos é a ser sitiados por ofegantes singraduras.

Esta lavadura, aplicada ao conteúdo digital, funciona como um espelho absorvente, um reflexo-ladrão em perpétua metamorfose, e eleva ao paroxismo a lógica de uma indústria afinada para dominar a atenção, viciando-a. A voracidade com que estes conteúdos são devorados está ligada à sua mediocridade anestesiante. Absorvem-nos na sua estupenda prolixidade, e constroem uma espécie de fantasia que nos distrai continuamente e absolve do próprio sentido. Porque não exigem nada, porque se ajustam perfeitamente a um regime de atenção fragmentada, são prisões ou sepulcros tão doces como sonhos imbecis.

Eleita a palavra do ano passado pelo dicionário Merriam-Webster, este assinalava como 2025 arrancou com uma “enxurrada de slop” que “as pessoas achavam irritante”, mas à qual, de algum modo, não conseguiam escapar, deixando de a devorar, como uma canção que, mais do que ficar no ouvido, o vai martelando e alterando os próprios processos auditivos. Também o Dicionário Macquarie escolheu “AI slop” como a expressão do ano, definindo-a como “conteúdo de baixa de qualidade criado por IA generativa, muitas vezes contendo erros”. E a The Economist fez a mesma escolha, embora o tenha feito para vincar preocupação diante da forma como a Internet está a ficar submergida por este novo modelo de spam.

Se em tempos cruzar algum dos portais da Internet evocava uma sensação de pasmo, como se esta fosse a realização de uma ficção-científica em aberto, e o mundo estivesse a ser cartografado numa infinidade de expressões, dando forma ao mais vasto enredo colaborativo da história, hoje, a experiência de andar pela internet é muitas vezes a de se se sentir empurrado para um enredo exorbitante e desordenado, sentir as percepções diluírem-se, numa sucessão de visões estremecidas, ser conduzido a um elemento do excesso. Cada um avança por ali instigado pela curiosidade, mas também com um certo desconforto, como detectives exaustos a tentar distinguir o real do falso. Por mais voluptuosas e garridas que sejam as visões da IA, deixam-nos sempre uma sensação indigesta, como de uma cinzenta e mal esboçada lembrança, como essa “noite já gasta que ficou guardada nos olhos dos cegos” (Borges).

Não será por acaso que, como um recente estudo avançou, o simples acto de desligar o telemóvel da internet produz uma melhoria do humor comparável ao efeito dos antidepressivos. Num momento em que nos sentimos rodeados de falsificações e fabricações, os tantos programas de IA generativa parecem concebidos precisamente para corroer ainda mais a própria ideia de verdade objectiva. Estes conteúdos que não deixam de nos espantar, sendo inegável a proeza destes sintetizadores oníricos, a um outro nível causam essa sensação de devastação para os sentidos, o tal estremecimento que parece provocado por um martelo pneumático que vai demolindo a barreira entre o real e o irreal.

O jornalista de tecnologia e ciência Bobbie Johnson comparava a sensação de percorrer o arquivo das criações feitas pelos utilizadores do Sora, o novo modelo desenvolvido pela OpenAI para gerar vídeos a partir de simples comandos textuais, a assistir a um espectáculo de marionetas macabro, indo de uns para os outros como quem vagueia por uma feira de diversões abandonada. Há um sexto sentido que nos parece alertar quanto ao elemento malicioso deste moinho extravagante, com a sua roda a laborar freneticamente a partir da simultaneidade de ventos e tempestades que capta. Parece que o sentimos mastigar a realidade, e algo trai o gozo, uma espécie de arrepio que nos diz que corremos o risco de ser soterrados por uma avalanche de falsificações tão profunda que acabará por criar toda uma realidade alternativa. Sistemas como o ChatGPT, que ingerem milhares de milhões de palavras e as vomitam de volta de forma aparentemente inteligente, têm vindo a construir um ecossistema informativo cada vez mais saturado: conteúdo baço, feito com pouco esforço e com alguma frequência factualmente incorrecto, que polui os motores de busca e afoga o trabalho criativo genuíno.

 E 2025 foi o ano em que estes conteúdos passaram com distinção uma espécie de teste de Turing audiovisual, alimentando o nervosismo de não nos ser já possível determinar onde acaba a realidade e começa essa extensão ilusória ou fraudulenta.

O ChatGPT atingira esse patamar no início do ano, sendo tão difícil para boa parte de nós, quando em diálogo com este modelo, determinar se do outro lado está outra pessoa ou não. Foi um marco que inaugurou uma nova era tecnológica, ainda que se possa entender que não passa de um subtil enredo de ecos, estando, para já, muito aquém das promessas quanto à inteligência sobre-humana. Mas, nos últimos meses de 2025, como assinalou Kyle Chayka na The New Yorker, a IA ultrapassou outro limiar – uma espécie de teste de Turing desta vez para o olhar: as imagens e os vídeos que esta consegue produzir são agora, muitas vezes, indistinguíveis dos reais. “À medida que novos modelos orientados para a imagem foram treinados, afinados e lançados por empresas como a OpenAI, a Meta e a Google, o público online passou a ter a capacidade de gerar instantaneamente conteúdos realistas produzidos por IA sobre qualquer tema que conseguisse imaginar, desde fan art de super-heróis e animais adoráveis até cenas de violência e de guerra.”

Chayka adianta que o termo “slop”, deu origem, entretanto, a alguns sub-neologismos, como “slopper”, um rótulo depreciativo para quem recorre à IA para pensar por si. Mas este jornalista de tecnologia vinca como não demorou muito para que os modelos de IA fossem muito além dos domínios do divertimento surreal ou do entretenimento frívolo, das imagens bizarras e obviamente falsas. Se, para muitos, a forma como estas ferramentas assaltam o horizonte informativo não deixa de parecer inofensiva, não chegando sequer a ser uma falsificação. Há muito que vêm sendo questionadas as fontes e os órgãos de comunicação que disputam a nossa atenção, e para alguns, o slop apenas torna aparente a substituição de um disparate por outro. Se a maior parte do material ali tratado não possui uma ligação a nada em particular do mundo real, nem mesmo o tipo de ligação contido numa mentira flagrante, consegue dissimular-se passando por uma brincadeira que nos seduz antes de revelar um outro lado. Mas, em 2025, o o presidente dos EUA recorreu a “agitslop” gerado por IA para promover as suas políticas e provocar os seus detractores, e, assim que foi estabelecido o precedente, outros políticos não demoraram a seguir-lhe o exemplo.

Trump começara o ano a partilhar um vídeo gerado por IA de “Trump Gaza”, uma paisagem urbana reurbanizada do território palestiniano, povoada por estátuas douradas de si próprio. Criado por dois cineastas israelo-americanos para satirizar a ideia de Trump de transformar Gaza numa “Riviera do Médio Oriente”, talvez o líder norte-americano nem se tenha dado conta de que o vídeo troçava dele, mas, com a sua propensão para ler tudo da forma mais literal possível, abalroou o sentido original, e dobrou a aposta, sendo isto o que deixa tão perplexos os seus opositores, a forma como a vacuidade da sua estética está emparelhada com o niilismo da sua política. Assim, adoptou aquele vídeo como uma maquete extravagante da sua visão, e fez dele uma ferramenta de propaganda meio paródica, certamente selvagem.

Isto explica a capacidade de se adaptar e dar a volta ao guião, aproveitando cada inflexão para gerar choque, descer ainda mais um nível naquilo que outros julgavam impossível. Por essa razão Trump foi apelidado o “Imperador do slop” por várias publicações norte-americanas, desde logo a The New Yorker. E esta sua capacidade de se servir da IA para devastar da forma mais literal o imaginário político atingiu a sua plena floração em outubro, quando partilhou um clip que o mostrava a pilotar um bombardeiro com as palavras “King Trump” estampadas na fuselagem e a despejar uma quantidade absurda de fezes sobre manifestantes do movimento No Kings. O vídeo, relativamente cartoonesco, não deixava de ser repugnante, e seria apenas outro meme bizarro a flutuar na internet, isto se não tivesse sido publicado pelo próprio presidente.

Contudo, e apesar deste quadro de propaganda tornar evidente como a política é a continuação da guerra por outros meios, a um nível mais profundo, os conteúdos produzidos pela IA alcançam essa derradeira subtileza que passa por indzir de forma consciente a inconsciência, e voltar a perder a consciência do acto de hipnose que se acabara de executar. Tudo parece uma brincadeira, mas o processo de habituação tem efeitos mensuráveis sobre a percepção e a cognição. Psicólogos e neuropediatras alertam para alterações profundas na forma como crianças e jovens constroem a noção de realidade. A exposição contínua a conteúdos chamativos, rápidos, emocionalmente manipuladores, gera uma anestesia perceptiva que dificulta a distinção entre o verdadeiro e o falso. A economia da atenção transforma-se numa economia da erosão: mais estímulos, menos compreensão… mais imagens, menos mundo.

 O efeito principal nos próximos tempos passará necessariamente por aprofundar o colapso da confiança, há medida que a internet, deixando de ser pensada como uma rede para a expansão do mundo, obriga a um cansativo e permanente esforço de triagem, tendo-se tornado um agente de desgaste. O custo, como sublinham vários especialistas, recai sempre sobre o utilizador ou consumidor, levando à erosão da atenção, da percepção, da confiança. A experiência digital contemporânea já não acrescenta mundo, antes anestesia-o.

O slop não é apenas mau conteúdo. Aquilo que o define é a sua falta de densidade. Consumido e esquecido com a mesma rapidez com que é produzido, não deixa de ocupa espaço – cognitivo, cultural, político. E a sua lógica é a de o saturar de alternativas falsas até que a própria ideia de verdade se torne inapelável. Assim, o slop marca aquele ponto em que a cibernética se torna a forma de anti-humanismo mais consequente, produzindo uma ordem geral das coisas que é artificialmente gerida, e vangloriando-se de ter superado aqueles valores clássicos do iluminismo e também, de certo modo, das ligações solidárias na base das sociedades humanas. Por isso esta é pós-humana. Porque este excesso que a IA generativa produz não reforça a pluralidade, mas um relativismo absoluto.

Quando tudo pode ser fabricado com o mesmo grau de verosimilhança, a resposta defensiva mais comum é assumir que tudo é falso. Não por espírito crítico, mas por exaustão. O slop cumpre, assim, a mais sombria profecia dos activistas que alertavam para uma estratégia de inundação, em que já não interessa convencer, mas cansar. Ao invés de impor uma narrativa, basta tornar todas equivalentes. Assim, em vez de produzir mentiras e teorias mirabolantes, basta dissolver a verdade num ruído contínuo. A produção automatizada de imagens, vídeos e textos serve este efeito de dissolução, normalizando caricaturas racistas, grotescas ou violentas sob o disfarce da sátira ou da ironia. E não deixa de ser espantoso como Trump, mais do que ninguém, soube servir-se deste aparato da IA generativa, pois também ele há muito não era sequer leal às suas mentiras e fabricações, mas reciclava fragmentos pré-existentes da cultura de massas, estilos, símbolos e ressentimentos, recombinando-os numa estética maximalista onde tudo é óbvio, exagerado, imediatamente reconhecível. Através dele o poder graduou-se. Trump provou a tese de Pasolini, quando este nos diz que nada é mais anárquico do que o poder. Isto no sentido em que nada consegue ser tão arbitrário, irresponsável e destrutivo. Em vez de manter uma narrativa, de mentir, Trump demonstrou que pode fabricar o mundo à sua vontade, seguindo os caprichos e impulsos do que quer que lhe passe pela cabeça.

E não demorou muito para que esta lógica se estendesse da propaganda explícita até se infiltrar na própria administração. A exigência de relatórios vazios, repetitivos, destinados apenas a simular actividade, transforma o trabalho humano em slop burocrático. A 22 de fevereiro do ano passado, à frente do DOGE, Elon Musk exigiu que os funcionários federais escrevessem e-mails em que enumerassem cinco coisas que tinham realizado na semana anterior. Que outro resultado poderia esperar-se desse comando senão slop, tratando-se de uma instrução obtusa dirigida a funcionários que compreendem muito melhor as suas competências e daquelas agências do que estes mandantes? Segundo o Washington Post, muitos deles limitaram-se a enviar repetidamente a mesma resposta, evidenciando o objectivo da Casa Branca, que não era outro senão substituir a força de trabalho federal por assistentes digitais. Assim ficava claro que o objectivo do DOGE não era outro além de reduzir aqueles trabalhadores à imagem que o poder faz deles: entidades intercambiáveis, figuras tão sem rosto e sem propósito quanto Trump e Musk acreditam que eles são.

Em The Utopia of Rules, o antropólogo David Graeber recorda que o corpo está em guerra constante com um mundo que lhe exige um formulário em triplicado para justificar a sua existência. A burocracia, diz-nos ele, é violência lenta distribuída ao longo do tempo. É a paralisia do espontâneo que define os nossos ímpetos. De cada vez que nos vimos obrigados a preencher algum tipo de formulário absurdo, a sensação de náusea, a derrota do impulso que sentimos, atinge-nos como uma pequena morte da alma. É a burocracia a dar cabo do espírito.

A tendência das novas práticas de gestão para impor lógicas torrenciais de burocracia não é, no entender de Graeber, um sinal de mera incompetência. Pelo contrário, deve ser encarada como uma competência perversa e orientada. A ideia de que os mecanismos de governação e gestão estão corrompidos pelo excesso burocrático é uma incompreensão daquilo para que foram concebido: gerar mais burocracia, mais controlo e justificar a existência desses gestores e controladores. As regras não foram pensadas para serem inteligentes, mas para serem obedecidas, submetendo aqueles a quem se dirigem. Estes acabam por ficar desgastados, incapazes de lhes resistir. A lógica do “porque sim” e do “são as regras” é a arma favorita do burocrata. A ideia não é que procuremos as melhores soluções, mas simplesmente que cumpramos com o que nos é imposto.

Graeber liga os fios entre a burocracia em papel e a burocracia tecnológica. O telemóvel, com as suas actualizações eternas e os seus termos de serviço incompreensíveis, é o novo burocrata. É a promessa de uma liberdade falsa: podes “escolher” qualquer coisa, desde que seja dentro do menu pré-definido. A tecnologia não nos liberta da papelada; dá-nos papelada digital, mais rápida e com melhor design. Assim, vendem-nos um mundo de máxima eficiência e ordem, mas o que construímos é um inferno de ineficiência dirigida, onde o propósito real (educar, curar, ligar pessoas) é sacrificado no altar do procedimento.

Trump beneficiou de um alinhamento dos astros perfeito no que toca ao avanço das novas tecnologias. Num artigo na The New Yorker, Katy Waldman sugere que a forma como soube transformar estas ferramentas de manipulação da realidade digital em armas de propaganda, procurando moldar a forma como os norte-americanos vêem o mundo, também nos permite compreender melhor a própria psicologia do líder norte-americano, e a maneira como ele encara os seres humanos, isto é, como sendo essencialmente irreais. “As pessoas existem para satisfazer os seus desejos”, escreve Waldman. “Quando já cumpriram o propósito que ele tinha para elas, podem simplesmente ser desligadas. Muito antes de a IA se ter tornado um factor determinante no resto das nossas vidas, Trump já era um imperador da IA, à espera que a sua fantasia solitária, repetitiva e movida pelo ego se sincronizasse com a realidade.”

De qualquer modo, seria um erro limitar este fenómeno ao campo político ou ao mundo empresarial. O slop infiltra-se em toda a ecologia cultural, acelerando processos que já estavam em curso. Plataformas outrora associadas à partilha de saber prático, experiência directa ou crítica informada estão cada vez mais saturadas de conteúdos gerados automaticamente. Canais de crescimento explosivo apresentam narrativas absurdas, emocionalmente carregadas, concebidas para maximizar a retenção através da produção de dopamina. Fóruns e redes sociais são invadidos por textos plausíveis, mas vazios, e que repetem incessantemente erros ou fantasias produzidas por modelos de linguagem.

A chamada “teoria da Internet morta”, durante anos descartada como paranóia, ganha aqui uma ressonância inquietante. Não porque os humanos tenham desaparecido da rede, mas porque a sua produção se foi adaptando às orientações e ao quadro algorítmico tornando-se indistinguível da produção automática. Assim, mesmo quando não interagimos directamente com sistemas de IA, somos constantemente expostos aos seus resíduos, às suas alucinações recicladas por utilizadores reais. Deste modo, o slop vai criando um ambiente saturado em que a autoria perde significado e a experiência deixa de ter origem.

As práticas das empresas de IA conduzem a uma expropriação de toda a propriedade intelectual, num açambarcamento a favor daquele punhado de gigantescas corporações tecnológicas, que vão treinando e aperfeiçoando os seus modelos através da recolha ilegal de obras protegidas e dados pessoais, sem consentimento nem compensação. Esta lógica de açambarcamento ecoa processos históricos de expropriação cultural, funcionando como um colonialismo digital. Tudo é matéria-prima, tudo é digerível e, no fim, o resultado não é sequer uma síntese criativa, mas uma produção incessante de variações que esgotam as fontes de que se alimentam.

Neste ponto, a analogia com o kitsch, tal como formulada pelo crítico de arte norte-americano Clement Greenberg, torna-se incontornável. O kitsch, enquanto sistema de reprodução de efeitos culturais, encontra no slop a sua versão algorítmica e acelerada. Ambos operam por fórmulas, ambos oferecem experiências em segunda mão, ambos fingem não exigir nada do consumidor para além do seu tempo, e, cada vez mais, dos seus dados. O que a IA faz não é inventar esta lógica, mas levá-la a um grau de eficiência e ubiquidade sem precedentes.

Mas, para compreendermos melhor o que isto significa, devemos deter-nos na forma como o kitsch se tornou a ideologia dominante da nossa época, ajudando a dissolver todos os critérios, em vez de estabelecer uma dinâmica cultural exigente.

Greenberg liga o aparecimento do kitsch à revolução industrial, que urbanizou as massas da Europa ocidental e da América, estabelecendo “aquilo a que se chama literacia universal”. Se as novas massas urbanas já não se reviam na cultura popular característica das zonas rurais, tendo começado a pressionar a sociedade para lhes fornecer um novo tipo de cultura adequado à sua apetência para consumir, criou-se esta cultura ersatz destinada àqueles que, insensíveis aos valores da cultura genuína, não deixam de estar esfomeados pela diversão que esta lhes pode fornecer. Assim vemos impor-se o kitsch, que Greenberg define como essa função diluente, que recorre aos simulacros decaídos e academizados da cultura genuína, acolhendo e cultivando aquela insensibilidade, que é a fonte dos seus lucros.

“O kitsch é mecânico e opera segundo fórmulas”, vinca ele. “O kitsch é experiência em segunda mão e sensações simuladas. O kitsch muda de acordo com o estilo, mas permanece sempre o mesmo. O kitsch é o epítome de tudo o que é espúrio na vida dos nossos dias. O kitsch finge não pedir nada aos seus consumidores excepto o seu dinheiro – nem lhes exige tempo, sequer.”

É importante seguirmos este crítico numa análise que nos permite apreender melhor aquela gramática resvaladiça pela qual passam hoje a generalidade das ditas manifestações culturais, sendo que, neste momento, o kitsch encontrou já formas de uma reprodução acelerada e que está a desenhar autonomamente toda uma indústria da consciência, e esta não precisa de qualquer planeamento, mas liga-se à colheita e afinação dos metadados, redesenhando o aparelho cognitivo e levando a uma degradação da tal literacia universal.

Greenberg nota que “a condição prévia do kitsch, e uma condição sem a qual este seria impossível, é a disponibilidade imediata de uma tradição cultural inteiramente amadurecida, de cujas descobertas, aquisições e autoconsciência apurada o kitsch se pode aproveitar para os seus próprios fins. Pede-lhe emprestado os expedientes, truques, estratagemas, segredos de polichinelo, temas, converte-os num sistema, e deita fora o resto. Retira o sangue que o faz viver, por assim dizer, daquele reservatório de experiência acumulada.”

Note-se como o mesmo pode ser dito, tal e qual, sobre o projecto de açambarcamento e deglutição ao qual procede a Inteligência Artificial na forma como aperfeiçoa os seus protocolos de padronização dos discursos e conteúdos, de tal modo que tudo aquilo que foi pilhado acaba por ser sujeito a infindáveis distorções e variações, que são então diluídas e servidas já não apenas como kitsch mas como o tal “slop”.

E, para aprofundarmos a análise deste seu antecedente e a forma como estão a afundar-se todos os índices que avaliam as competências em termos de literacia, devemos reconhecer como o kitsch fornece enredos de substituição, simulacros que distanciam o mundo, tornando qualquer confronto com a realidade uma experiência desgostante. Ao mesmo tempo que somos tragados por uma névoa de sensações espúrias, numa cadeia de nexos cada vez mais frágeis, vemos dar-se a erosão de todos os elementos de substantivação das linguagens, até tudo se tornar uma referência oca, ecos de tal modo distorcidos e diluídos que nem mesmo o negativo das suas origens preservam.

No passo que se segue, veja-se como a tese deste crítico de arte merece ser copiada a papel químico para descrever os processos de subsunção e redistribuição da realidade simulada por meio da IA: “Porque pode ser fabricado mecanicamente, o kitsch tornou-se parte integral do nosso sistema produtivo, como jamais a verdadeira cultura poderia ser senão por acidente. Tem sido capitalizado como um investimento tremendo que deve mostrar resultados comensuráveis; é compelido tanto a expandir como a manter os seus mercados. Apesar de ser, no essencial, o seu próprio vendedor, foi ainda assim criado para ele um grande aparato de vendas, que faz a pressão recair em cada membro da sociedade. São armadilhadas até aquelas áreas que são, por assim dizer, as reservas da cultura genuína.”

Assinale-se ainda que nada é mais inimigo do esforço de criação cultural do que as disposições virais através das quais esta “lavadura”, “comida para porcos” consegue espalhar-se e degradar toda a envolvência. Isto é o suficiente para nos levar a compreender que foi a massiva adesão ao kitsch que preparou o terreno para esta contaminação de todos os veios e cursos através dos quais circula de forma cada vez mais acelerada, quase alucinante, esta espuma fétida do slop. Nos seus diferentes níveis e decorrências, esta mistela produzida em massa, este enredo amplificado por algoritmos, concebido para ser consumido sem esforço e esquecido sem deixar rasto, reconfigura inteiramente o horizonte de expectativas. Não apenas degrada as nossas competências, mas abre caminho a que essa lavadura, que “era conhecida não apenas pelos porcos, mas por qualquer vítima de cantinas escolares ou quartéis regionais” (Rogério Casanova), se torne o valor-padrão.

Há muito que nos circuitos culturais, mesmo nas zonas tomadas de uma certa solenidade ou altanaria, víamos ser traficados ao mesmo nível as obras dos mestres e toda uma chusma de artigos falsificados, obras que aspiram à sofisticação, mas que se mostram sempre inócuas, tão fáceis de consumir num minuto como de descartar no seguinte.

Isto encoraja aqueles que já não admitem que da arte se fale senão em registo puramente demagógico, de tal modo que, nos nossos dias, sempre que algum órgão ou entidade oficial estabelece uma política cultural, promove certos apoios ou iniciativas, não deixa de o fazer de acordo com este filistinismo que triunfou em toda a linha e que apenas encoraja a reprodução do kitsch. Ora, numa altura em que o Estado favorece sempre esta dinâmica, contribuindo para a proliferação de programas, iniciativas, eventos ou festivais que não fazem outra coisa senão reforçar este quadro, lendo Greenberg constatamos que esta é a forma que os regimes neo-liberais encontraram de esconder a sua incapacidade de elevar o nível cultural das massas. Assim, além de permitir distribuir fundos por redes clientelares e esmagar toda a lógica democrática debaixo dos princípios do mercado, este esquema serve, acima de tudo, o propósito de “lisonjear as massas rebaixando toda a cultura ao nível delas”.

Há aqui uma eficácia que está em linha com todos os rituais autocelebratórios, uma vez que, como assinala Greenberg, sendo o poder cada vez mais inacessível às massas, é preciso ludibriá-las de todas as maneiras possíveis. Assim, para maquilhar o falhanço das lógicas de mercado, e face ao recrudescer dos enredos totalitários, é necessário promover a ilusão de que as massas realmente governam.