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Num país como Portugal, onde os sismos fazem parte da paisagem de risco, qualquer avanço na protecção de edifícios e infraestruturas merece atenção. No dia 19 de Fevereiro de 2026, dois abalos de magnitude 4.1 sacudiram a região de Lisboa com epicentro em Alenquer, apenas meses depois de um sismo de 4.7 ter abalado a zona do Seixal em fevereiro de 2025 e de um de 5.3 ter acordado meia Península Ibérica em agosto de 2024. A memória do terramoto de 1755, que arrasou Lisboa, nunca está muito longe. É precisamente neste contexto que ganhou destaque uma invenção patenteada em dezembro de 2025 nos Estados Unidos por um investigador dos Emirados Árabes Unidos.
O dispositivo foi desenvolvido pelo professor Moussa Leblouba, de engenharia civil na Universidade de Sharjah, e recebeu patente oficial do Escritório de Patentes e Marcas Registadas dos EUA. Segundo o site TechXplore, o princípio de funcionamento é de uma simplicidade desarmante: um cilindro oco preenchido com esferas maciças de aço, atravessado por um eixo central com hastes radiais que se assemelham a galhos de árvore. Quando um sismo provoca vibrações na estrutura onde o aparelho está instalado, as hastes movem-se entre as esferas e geram atrito. É esse atrito que dissipa parte da energia antes de ela atingir o edifício ou a ponte.
Nos testes laboratoriais realizados até agora, o sistema conseguiu absorver cerca de 14% da energia de vibração. Para um dispositivo totalmente passivo e sem qualquer componente electrónico, o professor Leblouba considera o resultado "muito promissor". "O que mais me entusiasma é a simplicidade. Os componentes são vulgares: esferas de aço, um eixo e um cilindro. Mas a forma como trabalham em conjunto é eficaz", afirmou o investigador, citado pelo TechXplore.
Funciona mesmo sem electricidade, ao contrário dos sistemas tradicionais
Uma das características que mais distingue este dispositivo da maioria das soluções existentes é o facto de funcionar de forma completamente passiva, sem qualquer necessidade de electricidade. Isto é especialmente relevante porque, num sismo de grande intensidade, as falhas de energia são uma das primeiras consequências. Sistemas que dependem de alimentação eléctrica ficam simplesmente inoperacionais no momento em que mais são necessários. Segundo o professor Leblouba, "porque não precisa de electricidade, não pode ser neutralizado por uma falha de energia durante o próprio desastre para que foi concebido".
Os amortecedores hidráulicos e os dispositivos metálicos deformáveis, que constituem as soluções mais comuns actualmente, têm outro problema sério: depois de um evento sísmico intenso, ficam frequentemente inutilizados e têm de ser completamente substituídos. O novo sistema foi concebido para evitar exactamente esse cenário. Os componentes são modulares, o que significa que qualquer peça danificada pode ser trocada individualmente, sem necessidade de descartar o equipamento todo. Após o fim das vibrações, o dispositivo regressa automaticamente à sua posição original, ficando apto para um novo evento sem intervenção imediata.
Pode ser instalado em edifícios já existentes
O sistema foi igualmente concebido para ser aplicado em estruturas já construídas, sem exigir obras estruturais de fundo. Esta característica é particularmente pertinente em Portugal, onde uma parte considerável do parque habitacional e das infraestruturas foi erguida antes da adopção das normas sísmicas europeias, nomeadamente o Eurocódigo 8, implementado a partir dos anos 1990. O professor Leblouba sublinha que os componentes são acessíveis e fáceis de manusear, podendo ser montados no local sem conhecimento técnico especializado. Em países onde as soluções de engenharia sísmica de alto desempenho têm custos proibitivos, isso representa uma potencial abertura do acesso à protecção estrutural.
Aplicações vão muito além dos sismos
Embora tenha sido concebido principalmente para protecção sísmica, o dispositivo tem potencial para um leque mais vasto de utilizações. Pode ser aplicado em pontes, torres de comunicações e edifícios sujeitos a vibrações provocadas por vento forte, tráfego pesado ou maquinaria industrial. O inventor aponta ainda possíveis aplicações em veículos aeroespaciais, navios, aeronaves e equipamentos militares ou científicos sensíveis a choques. O sistema pode, inclusivamente, ser afinado para diferentes tipos de estrutura e de carga, bastando para isso ajustar o número, o tamanho e a disposição das hastes e das esferas de aço.
A próxima fase de investigação envolve testes em mesas vibratórias de grande escala, onde modelos reduzidos de estruturas serão submetidos a simulações de sismos em condições próximas da realidade. Só então será possível avaliar com maior precisão o comportamento do equipamento fora do laboratório e abrir caminho para uma eventual aplicação em obras de reabilitação sísmica.