terça-feira, 18 ago. 2026

Visita guiada ao Areeiro

Da extração de areias ao bairro moderno, projetado pelo arquiteto Faria da Costa, nos anos 30 do século XX, o Areeiro é bem conhecido pelas lojas icónicas e pelas senhoras bem arranjadas a passear pelas avenidas ou à mesa das esplanadas. Da pastelaria Mexicana à livraria Barata passando pelos logradouros, a VERSA foi conhecer esta freguesia lisboeta e ouviu os fregueses.

Avenida dos Estados Unidos da América, avenida de Roma, avenida de Paris, avenida de Madrid, praça de Londres. Foi nos anos 30 e 40 do século passado, pelas mãos do arquiteto Faria da Costa e sob o comando do engenheiro Duarte Pacheco, então ministro das Obras Públicas e presidente da câmara municipal de Lisboa, que começou a nascer uma nova zona de Lisboa, a norte. Deveria ser uma zona monumental e bem organizada. Daí nasceram os grandes edifícios modernistas de habitação e as avenidas e ruas a formarem quarteirões perfeitos. Além dos grandes eixos - avenida de Roma, João XXI e Estados Unidos da América - o mesmo padrão de geometria urbana pode ser apreciado nos bairros do Arco do Cego e dos Atores.

Foi também nesta época que a avenida Almirante Reis cresceu até à praça do Areeiro - que deveria ser imponente, como uma das portas de entrada na cidade para quem vinha do aeroporto da Portela - e nasceu a Fonte Luminosa, à época a maior fonte monumental da Europa.

As areias para a construção de muito deste edificado vieram do fundo daquela que é, hoje, a avenida dos Estados Unidos da América, junto à antiga Quinta da Montanha. Aliás, é dessa zona de escavações para retirar areia que surge o nome deste lugar: Areeiro.

Outra área da atual freguesia, o Alto do Pina, foi sendo zona de veraneio da nobreza e de importantes senhores que aí construíam as suas quintas, desde o século XIV. A antiga Quinta do Pina deu o nome ao local, ao cimo da Fonte Luminosa.

O CHARME DO BAIRRO

Quase 100 anos depois visitar o Areeiro continua a ser uma experiência imersiva numa vivência coquete, das classes médias e médias altas. As senhoras bem maquilhadas e vestidas, com bijutaria a condizer, continuam a sentar-se na esplanada da Mexicana, fundada em 1946. A igreja de São João de Deus continua a acolher casamentos e batizados chiques. A avenida de Roma exibe lojas de qualidade onde se encontra de tudo um pouco: calçado, vestuário, utilidades, livros, chocolates…

Os fregueses, na sua maioria, gostam de viver aqui. «Adoro viver no Areeiro! Faço tudo a pé e temos todos os serviços que precisamos mesmo ao lado. A oferta de transportes é muito boa e é possível chegar a todo o lado sem levar o carro», afirma Cristina Salvador, membro do grupo de Facebook ‘Vizinhos do Areeiro’. A relação de vizinhança é outra das vantagens do Areeiro. «O ‘bom dia’, a entreajuda, o sorriso de quem reconhece presenças. Os parques, o riso das crianças que brincam, as caudas ondulantes dos simpáticos animais de estimação...», destaca.

Rui Martins, outro membro dos ‘Vizinhos do Areeiro’, exalta a arquitetura do bairro. «Para além da localização, há um gosto estético e urbanístico que também me prende a este lugar. O estilo modernista que marca grande parte da arquitetura do Areeiro dá-lhe uma identidade muito própria dentro de Lisboa, e o desenho urbano de Faria da Costa é, na minha opinião, um dos melhores exemplos de planeamento urbano que existem em Portugal: ruas bem hierarquizadas, quarteirões equilibrados, intervalos com jardins e espaços verdes, uma lógica de conjunto que raramente se encontra noutras zonas de Lisboa construídas na mesma época».

Só a Fonte Luminosa tem vindo a perder brilho à medida que a população sem-abrigo a escolhe para pernoitar e, lamenta Sandra Ribeiro, chefe da Divisão de Desenvolvimento Social da junta de freguesia do Areeiro, «traz alguma insegurança e mal-estar aos residentes».

A nossa visita guiada começa junto à igreja de São João de Deus, na praça de Londres. Um local de encontro entre a comunidade católica e a junta de freguesia. «Temos uma ótima relação, uma relação estreita, com a igreja. Neste momento, até fazemos a entrega de bens aqui na igreja», começa por dizer Sandra Ribeiro. «Adquirimos os bens mensalmente para as famílias carenciadas da freguesia e, em conjunto com a igreja, entregamos os bens. Eles têm cá voluntários, vem a nossa assistente social e fazemos duas entregas de bens por mês».

É só atravessar a estrada e encontramos um dos equipamentos disponíveis para os fregueses e que dá um toque de graça à praça. A cabine de leitura. Trata-se de uma antiga cabine telefónica, ao estilo inglês, onde se encontram livros para levar emprestados. Depois de lidos é só devolver no mesmo sítio. Quem quiser, também pode trazer livros para outros lerem. Um pouco à frente, na confluência com a avenida Guerra Junqueiro, a octogenária pastelaria Mexicana, atualmente uma Loja com História. «Era o chamado salão de chá das senhoras e principalmente daqui desta zona de São João de Deus». Recorde-se que a freguesia do Areeiro é uma junção de duas antigas freguesias: São João de Deus e Alto do Pina.

A Mexicana deve o seu nome ao antigo nome da praça que antes de ser “de Londres” foi “do México”. Ninguém fica indiferente ao monumental painel de azulejos da autoria do mestre Querubim Lapa, no grande salão interior deste espaço. E, por aqui, a junta de freguesia organizou, em tempos, o “Chá do Areeiro”, um encontro de fregueses com tertúlias à moda antiga.

LOGRADOUROS DÃO LUGAR A JARDINS

Prosseguimos na caminhada até à avenida de Paris. Começamos a vislumbrar os muitos logradouros que existem na freguesia. Num deles, encontramos uma pequena floresta, também obra da junta. «Temos aqui um logradouro na avenida de Paris, que tem uma minifloresta, ou seja, uma hortinha em que fazemos o ‘Brinca-bairro’. Cortamos o trânsito e as crianças, ao domingo, podem brincar na rua, como antigamente, sem carros». As brincadeiras descontraídas acontecem a cada 15 dias. «A polícia corta o trânsito para não haver perigo. Depois, os espaços verdes ensinam as crianças a plantar, a mexer na terra, a fazer as brincadeiras da macaca, ou seja, sem redes sociais, sem as bicicletas, sem nada».

Adiante, o jardim Fernando Pessa, nas traseiras do Fórum Lisboa convida à prática desportiva, ao lazer e ao descanso. Há um quiosque e, durante todo o mês de agosto, um saxofonista irá animar, durante as tardes de sábado, de forma discreta, o local. «Era um logradouro que virou jardim, agora um bocadinho mais arranjado, mas sempre foi um espaço entre prédios em que as pessoas estavam durante as tardes e continuam a estar, mantém-se este circuito».

Sandra garante que a música do saxofone será, mesmo, só para dar algum ambiente ao jardim. «As pessoas aqui do Areeiro gostam de viver, gostam de sair, mas também gostam daquela paz e dos espaços. E eu acho que o melhor que temos aqui no Areeiro são os logradouros, os jardins, as praças, o espaço público. Mas, de facto, os residentes gostam de sossego e não podemos ter uma grande animação nem até muito tarde».

A BARATA E O CINEMA LONDRES

Atravessamos o jardim, passamos o largo onde está o Fórum Lisboa e damos de caras com a antiga livraria Barata, na avenida de Roma, outra Loja com História, apesar de ter dado lugar a uma loja multimédia multinacional. «A livraria Barata é um ícone da freguesia e, apesar de atualmente ser uma FNAC, as pessoas continuam a dizer que vão à livraria Barata. É uma tradição», explica Sandra Ribeiro. «Houve um período em que o negócio se foi abaixo e a freguesia ainda tentou ajudar. Fizemos palestras na Barata e tentámos ajudar o proprietário a manter a loja. Isso infelizmente não foi conseguido. Apesar de tudo, é uma loja de extrema importância cultural, tem também um espaço onde as pessoas bebem café e podem estar um bocadinho a ler. Continua a ser a nossa Barata».

O passeio termina com o antigo cinema Londres à vista. Aquele que foi um dos mais modernos e confortáveis cinemas de Lisboa - não há lisboeta que não recorde as suas cadeiras suavemente rebaixáveis - foi inaugurado num domingo à tarde, 30 de janeiro de 1972. No grande ecrã era apresentado o filme francês ‘Morrer de Amor’ e a receita da bilheteira reverteu para a Obra de São João de Deus. Em 2013 o projetor apagou-se. O cinema fechou e o enterro foi feito por um grande armazém chinês que ali continua a faturar.

Mas há quem recorde o cinema com saudade. «Quando penso no Areeiro de outros tempos, há memórias muito concretas que me vêm imediatamente à cabeça. Uma delas é o cinema Londres que fez parte da vida cultural do bairro de uma forma que hoje já não existe; lembro-me das tardes em que ali se ia ver um filme e depois se ficava a conversar no café do rés-do-chão, num tempo em que uma sala de cinema de bairro ainda era um verdadeiro ponto de encontro, e não apenas mais uma sala perdida num centro comercial. Lembro-me das suas cadeiras únicas», recorda Rui Martins, residente no Areeiro.

Ao mesmo tempo, este freguês lembra a incontornável livraria Barata. «Aberta desde 1957 por António Barata e que foi, desde o início, muito mais do que uma simples livraria de bairro: era o lugar onde, em plena ditadura, se conseguiam livros proibidos pelo regime, entregues ao balcão já devidamente embrulhados, e cujo fundador chegou a ser detido pela PIDE por essa ousadia. Cresci a ver na Barata um pequeno oásis de cultura e de liberdade, que descobri quanto estive a estudar a escrita Maia. Um espaço que sobreviveu a décadas de transformações na avenida e que, ainda hoje, continua presente na memória de quem por ali passou embora numa nova encarnação que preserva, pelo menos, a memória do saudoso espaço. São referências que, de certa forma, resumem aquilo que o bairro foi e que hoje, em parte, já não encontramos da mesma maneira», finaliza Rui Martins.