quarta-feira, 13 mai. 2026

Vacinas covid-19. Pediatras também alertaram mas foram censurados

Colégio de Pediatria da Ordem dos Médicos foi inequívoco na defesa da ‘imunidade natural’ das crianças, em vez da vacinação.
Vacinas covid-19. Pediatras também alertaram mas foram censurados

Em julho de 2021, o Colégio de Pediatria da Ordem dos Médicos tomou uma posição de repúdio quanto à vacinação universal das crianças ainda mais contundente do que a então assumida pela Ordem dos Farmacêuticos.

O risco de doenças cardíacas capazes de provocar enfartes, potencialmente fatais, foi apresentado como argumento contra a vacinação em massa. «A utilização da vacina covid-19 tem revelado que há ocorrência de uma forma de miocardite/pericardite nos indivíduos vacinados. Nos vários estudos tem-se verificado um número, razoavelmente consistente, de cerca de 60 episódios por milhão de doses ministradas a adolescentes, dos 12 aos 17 anos», alertava o parecer. Os pediatras notavam que essa prevalência era «superior à dos fenómenos tromboembólicos que levaram à suspensão total da vacina da AstraZeneca em alguns países».

O Colégio de Pediatria justificava a sua recomendação com «a defesa do supremo interesse da criança». Ao mesmo tempo, deixava um recado direto: «Como é bem conhecido, os interesses da indústria farmacêutica são comerciais».

Finalmente, atribuía às sociedades científicas e às autoridades de saúde o dever de definir a estratégia de vacinação, em conformidade com a literatura científica disponível. «É excessivo e abusivo assumir que a mera aprovação pela Agência Europeia do Medicamento (EMA) significa recomendação automática», alegavam os pediatras.

 

PARECER NA GAVETA

O parecer advogava que a imunidade natural, decorrente da infeção, protegia mais as crianças do que a vacina. «A esperança inicial, de que a vacina controlasse a doença promovendo a sua erradicação, tem sido defraudada» – ao contrário do que aconteceu, no passado, com as vacinas tradicionais da poliomielite e do sarampo, com vírus inativado ou atenuado. Considerada a incapacidade da tecnologia mRNA em parar as cadeias de transmissão, «pouco se esperará do salvífico programa de vacinação pediátrica no regular funcionamento das escolas».

Por mais explosivo, o documento não foi discutido pelo Conselho Executivo da Ordem dos Médicos. Ficou na gaveta – e só viria a público mais tarde, já no âmbito de uma intimação judicial para acesso a documentos administrativos interposta pelo jornal Página UM.

Entretanto, a posição dos pediatras transbordou para o espaço público. O presidente do Colégio, Jorge Amil Dias, defendeu a suspensão da vacinação infantil em entrevistas televisivas e foi um dos impulsionadores de duas cartas abertas com essa exigência, que reuniram mais uma centena de assinaturas de médicos e outros profissionais de saúde, 31 dos quais pediatras. «Esta situação tem de acabar, porque não faz sentido uma pessoa que assume a presidência de um colégio de especialidade ter posições públicas diferentes da instituição», reagiu o então bastonário dos Médicos, Miguel Guimarães, em declarações à CNN Portugal.

Dezasseis médicos, na sua maioria ligados ao Gabinete de Crise da OM contra a covid-19, como Filipe Froes, Carlos Robalo Cordeiro e Luís Varandas, apresentaram uma participação disciplinar contra Jorge Amil. O assunto abriu telejornais. Os acusadores desdobraram-se em entrevistas e ataques à qualidade científica dos colegas que ousaram pôr em causa a vacinação universal. A queixa acabou arquivada nove meses depois, com a absolvição do pediatra. Mas a descredibilização dos alertas – quanto aos riscos da vacinação para as crianças –  já tinha sido conseguida junto da maioria dos pais.

«Não tenho dúvidas de que houve reações adversas pediátricas graves e casos de morte, que infelizmente não foram investigados até ao fim», denuncia Jorge Amil Dias. Ainda hoje vive amargurado ao recordar «o grave pecado de vacinar as crianças de forma universal, quando já havia dados que mostravam não estarem expostas ao mesmo risco dos adultos». Os pais «foram forçados a vacinar os filhos», para não serem ostracizados. O antigo presidente do Colégio de Pediatria lembra as «mentiras sobre ‘centenas’ de crianças internadas com covid-19» — quando, afinal, tinham simplesmente testado positivo à entrada do hospital, mas ali recorreram por outras razões.  

Já o antigo bastonário, Miguel Guimarães, afirma-se «de consciência tranquila, porque a ação da Ordem foi sempre determinada pela vontade de ajudar as pessoas e o país a ultrapassar uma crise sanitária».