O uso generalizado da inteligência artificial (IA) está a obrigar várias universidades portuguesas a repensar os modelos de avaliação, tentando equilibrar o rigor académico com a integração de uma tecnologia que já faz parte do mercado de trabalho.
Ferramentas baseadas em grandes modelos de linguagem (LLM), como o ChatGPT ou o Microsoft Copilot, permitem hoje escrever ensaios ou responder a exames digitais “à distância de um clique”, colocando novos desafios às instituições de ensino superior.
Professores repensam métodos de avaliação
Na NOVA School of Business and Economics, da Universidade Nova de Lisboa, alguns docentes chegaram a permitir o uso de LLM em exames numa fase inicial, mas recuaram quando perceberam que os modelos passaram a conseguir resolver exercícios que exigiam pensamento crítico.
Leid Zejnilovic, professor da instituição, reconhece o dilema: por um lado, é necessário garantir a aprendizagem e a integridade académica; por outro, os estudantes vão trabalhar em empresas onde a IA é cada vez mais utilizada.
Em vez de eliminar trabalhos escritos, optou por tornar as aulas mais exigentes e reforçar o sentido de responsabilidade dos alunos: “Podemos tentar parar a IA, mas os nossos alunos vão para empresas onde se utiliza cada vez mais.”
Na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, está em preparação um novo enquadramento para o uso da IA, em articulação com o Conselho Pedagógico. A direção sublinha a necessidade de equilibrar integridade académica, impacto transformador da tecnologia e equidade no acesso às ferramentas.
Trabalhos substituídos por apresentações e debates
No ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, os trabalhos tradicionais estão gradualmente a ser substituídos por apresentações orais e debates. O vice-reitor para a Investigação e Modernização Tecnológica, Jorge Costa, refere que também estão a ser revistos regulamentos internos, que atualmente enquadram o uso abusivo de IA apenas como “fraude académica”.
Quanto à deteção do uso indevido, o ISCTE estuda a adoção de ferramentas disponíveis no mercado. Já na NOVA SBE e na FCSH, há reservas quanto à eficácia desses sistemas, apontando taxas elevadas de falsos positivos e falsos negativos.
Direito aposta em exames presenciais
Na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, a tradição de exames escritos presenciais e provas orais reduz o impacto imediato da IA na avaliação. Ainda assim, Paulo de Sousa Martins, coordenador científico de programas sobre Direito e IA, reconhece que é natural que os estudantes recorram a ferramentas tecnológicas em trabalhos realizados fora da sala de aula.
“O uso responsável e transparente da Inteligência Artificial já faz parte da prática profissional”, sublinha, defendendo que a IA pode apoiar o trabalho académico, mas não substituir o pensamento crítico nem a responsabilidade intelectual.
Formação e inovação pedagógica
Além de reverem métodos de avaliação, algumas instituições estão também a apostar na integração pedagógica da IA. No ISCTE, os docentes recebem formação para incorporar estas ferramentas no ensino. Já a NOVA SBE criou um novo centro dedicado à inovação pedagógica e excelência no ensino.
O consenso parece claro: as universidades não pretendem fechar a porta à inteligência artificial, mas procuram formas de garantir que a tecnologia seja uma aliada — e não um atalho que comprometa a aprendizagem.