Tinha apenas cinco anos quando foi atingida por uma bala disparada pela polícia durante uma operação na Pedreira dos Húngaros, no concelho de Oeiras. Maria Mendes, conhecida como a "pequena Manu de Regina", sobreviveu ao incidente, mas continua a viver com o projétil alojado no corpo há mais de três décadas depois.
Atualmente, com 44 anos, Maria pede ajuda ao Estado para realizar uma intervenção cirúrgica que lhe permita retirar a bala que permanece junto ao peito, e que tem afetado a sua saúde ao longo do tempo.
A Lusa teve acesso à queixa que terá apresentado este mês à Provedoria de Justiça, na qual é solicitada a intervenção do Estado para que lhe seja garantida a realização da cirurgia necessária e apoio médico especializado como vítima de crime violentos.
Na queixa, Maria recorda o episódio, apoiada pela cópia de uma notícia do Correio da Manhã de 14 de outubro de 1987, segundo a qual uma criança teria sido atingida no tórax por um polícia à paisana. O crime aconteceu por volta das 15h00 quando havia muitas crianças a brincar na rua. "Estava a brincar num carrinho de mão com outras crianças quando comecei a ouvir tiros, mas era normal e não liguei", contou à Lusa.
Só se apercebeu que tinha sido baleada quando sentiu "um calor muito forte no peito". Foi transportada pelos polícias para o Hospital de Santa Cruz, em Carnaxide, onde ficou internada durante três meses porque os médicos não sabiam ao certo onde estava localizada à bala e como era "muito magrinha", o projétil podia deslocar-se até ao coração.
Maria recorda-se de pedir à mãe para lhe cuspir no peito para aliviar o "calor" que sentia. "Se cuspir fica frio, mãe. O sangue queima.", conta à mesma fonte.
"Não peço caridade, peço justiça", afirma. Depois do disparo que marcou a sua infância, Maria Mendes continua a viver com as consequências físicas e emocionais daquele dia. A bala permanece alojada no peito, a "milímetros de zonas vitais" e, apesar dos anos passados e dos avanços na medicina, o caso nunca encontrou uma solução definitiva, nem chegou a receber qualquer indemnização.
Agora, ao recorrer à Provedoria de Justiça, a mulher procura reabrir um processo que considera ainda não encerrado, defendendo que o Estado deve assumir responsabilidade no acompanhamento clínico da sua situação.