quinta-feira, 11 jun. 2026

Uma bala no peito acompanha Maria há mais de três décadas. Baleada aos 5 anos, pede agora justiça

Maria, ao recorrer à Provedoria de Justiça, procura reabrir um processo ainda não encerrado, defendendo que o Estado deve assumir responsabilidade.
Uma bala no peito acompanha Maria há mais de três décadas. Baleada aos 5 anos, pede agora justiça

Tinha apenas cinco anos quando foi atingida por uma bala disparada pela polícia durante uma operação na Pedreira dos Húngaros, no concelho de Oeiras. Maria Mendes, conhecida como a "pequena Manu de Regina", sobreviveu ao incidente, mas continua a viver com o projétil alojado no corpo há mais de três décadas depois.

Atualmente, com 44 anos, Maria pede ajuda ao Estado para realizar uma intervenção cirúrgica que lhe permita retirar a bala que permanece junto ao peito, e que tem afetado a sua saúde ao longo do tempo.

A Lusa teve acesso à queixa que terá apresentado este mês à Provedoria de Justiça, na qual é solicitada a intervenção do Estado para que lhe seja garantida a realização da cirurgia necessária e apoio médico especializado como vítima de crime violentos.

Na queixa, Maria recorda o episódio, apoiada pela cópia de uma notícia do Correio da Manhã de 14 de outubro de 1987, segundo a qual uma criança teria sido atingida no tórax por um polícia à paisana. O crime aconteceu por volta das 15h00 quando havia muitas crianças a brincar na rua. "Estava a brincar num carrinho de mão com outras crianças quando comecei a ouvir tiros, mas era normal e não liguei", contou à Lusa.

Só se apercebeu que tinha sido baleada quando sentiu "um calor muito forte no peito". Foi transportada pelos polícias para o Hospital de Santa Cruz, em Carnaxide, onde ficou internada durante três meses porque os médicos não sabiam ao certo onde estava localizada à bala e como era "muito magrinha", o projétil podia deslocar-se até ao coração.

Maria recorda-se de pedir à mãe para lhe cuspir no peito para aliviar o "calor" que sentia. "Se cuspir fica frio, mãe. O sangue queima.", conta à mesma fonte.

"Não peço caridade, peço justiça", afirma. Depois do disparo que marcou a sua infância, Maria Mendes continua a viver com as consequências físicas e emocionais daquele dia. A bala permanece alojada no peito, a "milímetros de zonas vitais" e, apesar dos anos passados e dos avanços na medicina, o caso nunca encontrou uma solução definitiva, nem chegou a receber qualquer indemnização.

Agora, ao recorrer à Provedoria de Justiça, a mulher procura reabrir um processo que considera ainda não encerrado, defendendo que o Estado deve assumir responsabilidade no acompanhamento clínico da sua situação.