quarta-feira, 09 set. 2026

Um em cada quatro estudantes já pensou abandonar o ensino superior devido aos custos

Um quarto dos estudantes já pensou abandonar o ensino superior devido aos custos, revela um inquérito da AAC. Em Coimbra, 65,2% pagam 300 euros ou mais por um quarto e 28,6% gastam entre 51% e 70% do orçamento mensal em alojamento
Um em cada quatro estudantes já pensou abandonar o ensino superior devido aos custos

Quase um em cada quatro estudantes (24,6%) já equacionou suspender a matrícula ou abandonar o ensino superior devido aos custos associados aos estudos, conclui um inquérito realizado pela Associação Académica de Coimbra (AAC).

O estudo, realizado online em agosto junto da comunidade académica, reuniu 1.039 respostas validadas e revela o peso crescente das despesas com alojamento, alimentação, transportes e material escolar no orçamento dos estudantes.

Para José Machado, presidente da AAC, “a habitação é o principal obstáculo à permanência dos estudantes no ensino superior”.

O problema assume particular expressão em Coimbra, onde o preço médio de um quarto é de 312 euros. Cerca de dois terços dos estudantes inquiridos (65,2%) pagam 300 euros ou mais pelo alojamento.

Quase 30% gastam mais de metade do orçamento na renda

O inquérito revela ainda que 32% dos estudantes não têm contrato formal de arrendamento, situação que a AAC considera particularmente preocupante.

Entre os inquiridos, 28,6% gastam entre 51% e 70% do orçamento mensal em alojamento, enquanto outros 12,3% afirmam despender mais de 70% do orçamento com a habitação.

O preço e a disponibilidade de alojamento estão também a influenciar as decisões dos estudantes antes mesmo de iniciarem os estudos.

Mais de metade dos participantes (52,7%) afirmou que as condições do mercado habitacional condicionaram total ou parcialmente a escolha da cidade ou da instituição de ensino superior.

AAC pede medidas urgentes para o alojamento estudantil

Perante os resultados, a Associação Académica de Coimbra apresentou um conjunto de propostas ao Governo para tentar aliviar os problemas de acesso ao alojamento estudantil.

Entre as medidas defendidas está a criação de um contrato de arrendamento estudantil tipificado, com uma caução legalmente limitada e regras claras para estudantes e senhorios.

A AAC propõe também o funcionamento permanente do Observatório do Alojamento Estudantil, permitindo acompanhar de forma mais atualizada a evolução dos preços dos quartos em Portugal.

Outra das propostas passa pela criação de uma plataforma pública de intermediação de alojamento, com certificação realizada pelo Estado.

Para José Machado, a existência de estudantes a viver em quartos arrendados sem contrato formal é motivo de “bastante” preocupação, uma vez que estes ficam mais expostos a eventuais abusos dos senhorios e a despejos forçados.

O presidente da AAC considera que o Governo não pode “pactuar com este tipo de práticas” e critica, em particular, o facto de o programa de apoio ao pagamento de rendas não prever a inclusão de faturas.

«A solução final» passa por mais residências públicas

A AAC defende que a resposta estrutural à crise do alojamento estudantil passa pelo aumento do número de residências e camas públicas.

No entanto, José Machado considera que essa solução não pode esperar pela construção de novas residências.

“A solução final para este problema de habitação é a criação de mais residências e camas públicas, mas no curto prazo tem de haver uma resposta urgente”, defendeu.

Os dados do inquérito da AAC colocam, assim, o custo do alojamento no centro das dificuldades enfrentadas pelos estudantes e mostram que o preço de um quarto já está a influenciar decisões sobre onde estudar e, em alguns casos, sobre a própria continuidade no ensino superior.