quarta-feira, 13 mai. 2026

Trotinetes não são o problema: associação aponta automóveis como principal causa de mortes na estrada

Estrada Viva reage ao debate no Porto e Gaia e defende mudança de foco na segurança rodoviária. Dados mostram diferença expressiva no número de vítimas
Trotinetes não são o problema: associação aponta automóveis como principal causa de mortes na estrada

A associação Estrada Viva considera que o debate em torno das trotinetes elétricas está desfasado da realidade da sinistralidade rodoviária em Portugal, defendendo que o verdadeiro problema continua a ser o automóvel.

O presidente da associação, Mário Alves, afirmou que as trotinetes “podem assustar, mas não são um problema comparado com os automóveis”, sublinhando que o foco neste meio de mobilidade ignora os dados mais relevantes sobre acidentes rodoviários.

Segundo dados da Guarda Nacional Republicana, entre 2019 e 2025 registaram-se 10 mortos em acidentes com trotinetes. Já de acordo com o Relatório Anual de Segurança Interna (RASI), só em 2025 morreram 448 pessoas nas estradas portuguesas.

Para Mário Alves, citado pela agência Lusa, a conclusão é evidente: “o grande problema da sinistralidade rodoviária em Portugal é automóvel contra automóvel e automóveis que se despistam”.

A discussão ganhou força após um acidente recente no Porto, levando à aprovação de um estudo sobre trotinetes elétricas e sinistralidade. Também em Vila Nova de Gaia foi decidido avançar com uma análise semelhante, depois de ter sido cancelado um concurso para este tipo de mobilidade por razões de segurança.

Apesar disso, a associação alerta para o risco de “desfocar” o problema principal.

Utilizadores vulneráveis, mas não principais responsáveis

A Polícia de Segurança Pública já reconheceu que utilizadores de modos suaves — como peões, ciclistas e utilizadores de trotinetes — são os mais vulneráveis no espaço urbano.

Ainda assim, Mário Alves critica campanhas que colocam a responsabilidade nesses utilizadores, como o uso obrigatório de coletes ou capacetes, argumentando que isso transfere o ónus para as vítimas potenciais em vez de enfrentar o risco maior: veículos pesados conduzidos de forma imprudente.

O responsável aponta também causas estruturais, como o modelo urbano português, marcado por dispersão populacional e fraca rede de transportes públicos, que promove uma forte dependência do carro.

“Há uma espécie de toxicodependência do automóvel”, afirma, acrescentando que essa realidade transforma peões, bicicletas e trotinetes em obstáculos à fluidez do trânsito.

Para a associação, a solução passa por repensar o desenho das cidades e reduzir o protagonismo do automóvel, seguindo o exemplo de países do norte da Europa, onde o modelo de mobilidade já evoluiu há várias décadas.