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Os assaltos do gangue do Rolex, que se faz transportar em motorizadas caracterizadas de entregas ao domicílio, batendo na traseira da viatura que vai à sua frente, esperando que o condutor sai para lhe roubar o relógio de luxo, com uma pistola encostada à cabeça, além de outros assaltos nas artérias com mais lojas de marca, levaram o Nascer do SOL a falar com a Polícia e comerciantes. Algumas figuras públicas foram apanhadas pelo gangue, falando-se até de uma deputada.
Entrevista ao superintendente Jorge Resende, chefe da Área Operacional do Comando Metropolitano de Lisboa da PSP.
O que pensa do fenómeno dos assaltos do chamado gangue do Rolex e dos outros assaltos que têm ocorrido no eixo da Avenida da Liberdade, Fontes Pereira de Melo, Joaquim António de Aguiar, Amoreiras e Campolide? A PJ é que tem a investigação do grupo do Rolex, mas a PSP, muitas vezes, ouve primeiro as pessoas assaltadas. Acha que é só um grupo?
Este tipo de roubos, principalmente à mão armada, são fenómenos que não são nacionais, já aconteceram e acontecem noutras capitais europeias. E nós tivemos várias situações dessas até 2024, e depois houve um período de estagnação. Não houve sequer conhecimento desse tipo de crime na área metropolitana de Lisboa, principalmente nas zonas centrais, porque esse grupo conhecido por Rolex, efetivamente tem a ver com o roubo de peças de relojoaria, normalmente de grande valor, seja um Rolex, seja outro tipo de marca. E que tem uma ligação, muitas vezes, com esta zona, que é frequentada, muitas vezes, por pessoas que vão aí adquirir esse tipo de relógios. Tivemos situações dessas até 2024 e depois parou durante um tempo. Isso é uma criminalidade, normalmente, itinerante, que está associada ao uso de arma de fogo, mas como forma de intimidação. E sim, a maior parte dos processos são da Polícia Judicial em termos de investigação. Depois de um tempo de paragem, começámos a ter conhecimento de algumas situações dessas novamente, na zona central de Lisboa, nesse eixo que falou, e temos isso registado. Daí que nós tenhamos também realizado operações de grande visibilidade, e até com recurso a meios da Unidade Especial de Polícia, do trânsito e das várias valências da PSP. Não sei se se lembra da questão do elevador da Glória, mas nós tivemos a possibilidade de chegar em tempo recorde, porque tínhamos efetivamente a decorrer operações de policiamento de prevenção para este tipo de fenómenos. Naquele grande eixo Avenida da Liberdade, Fontes Pereira de Melo, Joaquim António Aguiar, até às Amoreiras, tínhamos lá, e mantivemos durante esse período de Natal até ao Ano Novo, com alta visibilidade. Porque o nosso objetivo é prevenir esse tipo de ocorrência. E foi isso que fizemos. Temos registo até de no passado, quando houve aquele fenómeno em 2024, ter detido um indivíduo que estava associado a esse tipo de crimes, tanto com como sem arma de fogo. Também por isso, estamos neste momento em fase de elaboração de uma proposta de projeto de aumento da capacidade de videovigilância na área da cidade de Lisboa, que inclui a zona do grande eixo central da cidade, aquelas vias que nós falámos há pouco, como é, a Avenida da Liberdade, Fontes Pereira de Melo, até às Amoreiras, a zona do Corte Inglés, Campolide. Continuamos a fazer um policiamento preventivo e em alguns casos de forma ostensiva, que é mais no sentido de dissuadir qualquer tipo de situação. Na última vez que nós fizemos uma detenção, até por parte do pessoal da divisão de trânsito, conseguimos a identificação de dois suspeitos que tinham também um motociclo furtado. É um fenómeno que não é nacional, é uma situação que ocorre ciclicamente, já há muitos anos recordo-me de isso se passar em Oeiras e Cascais. Infelizmente, estamos a ter novamente ocorrências desse género, nós não temos a investigação, a investigação é da Polícia Judiciária, mas estamos a fazer aquilo que nos compete, que é tentar prevenir a ocorrência desses crimes, não descurando a hipótese de se intercetar alguém em flagrante delito. Se interceptarmos, interceptamos e será ótimo.
Dos testemunhos que os seus agentes recolheram dá para ter uma ideia dos assaltantes? Diz-se que há um mais gordo, um mais pequeno e outro com a pele mais escura.
O testemunho é importante, muito importante, mas também é falível. Registamos aquilo que nos é comunicado, mas depois há, em termos de investigação, um trabalho diferente. Como digo, nós não estamos nessa vertente, a vertente de investigação está com a Polícia Judiciária, não lhe sei dizer se estão identificados dois, três, eu diria que, daquilo que nós temos de percepção, não é um grupo muito grande, à semelhança dos fenómenos passados, e é muito semelhante ao modus operandi das outras capitais europeias que têm tido este tipo de fenómenos. Têm tido e continuam a ter. Que visa a obtenção rápida de um bem de elevado valor, com grande mobilidade, grande capacidade de fuga e, portanto, para se furtar à ação de qualquer das autoridades em tempo útil.
Se os polícias estão de carro como é que conseguem perseguir os ladrões que entram pelas vielas?
Mas quem é que diz que nós estamos de carro? Estamos de várias formas. Agora, como deve compreender, uma das nossas vertentes é prevenir. Sei que se meter um carro patrulha na António Augusto Aguiar, dificilmente vai haver um assalto na zona do El Corte Ingés. Se estiver na zona do Parque Eduardo VII é igual. Isso não significa que eu não tenha outras valências disponíveis para fazer outro tipo de reação a uma ocorrência que exista. Não ali, não visíveis, isso depois tem a ver com a técnica policial. A nós importa-nos prevenir e reprimir fenómenos desta natureza. Não tendo a investigação, obviamente, que é diferente. Nós temos aquilo que é informação que recolhemos do imediato. Não decorre de uma investigação criminal. Decorre daquilo que são as ocorrências que vão sendo registadas e daquilo que nos é informado. Se conseguir ter polícias numa determinada zona e que previnem a ocorrência desses fenómenos, pode haver outras zonas que não estão descuradas, mas o policiamento não está visível. E, portanto, significa que os pontos de fuga dessa zona poderão estar a ser monitorizados. Se tivermos um CCTV nessa áreas estreemos melhor apetrechados. Não posso dizer que aquela zona é insegura. Mas este tipo de fenómeno é muito focalizado, é especificamente para pessoas que têm bens de luxo. Daí que aquilo que nós ouvimos desde os tempos dos nossos avós, faça sentido. Deve evitar-se estar com coisas visíveis e ostensivas, grandes correntes de ouro, recordo-me desde pequenino de ouvir isso. Aqueles conselhos são conselhos que continuam a ter aplicação, porque já não é um pelintra que vem a correr e faz um roubo por esticão, mas, se calhar, é um grupo que pensa e consegue agir desta forma e ter uma maneira de fuga mais eficaz. Os tempos mudam. Eles evoluem também. Nós temos que evoluir.
Dos relatos que recolhemos dizem-nos que há umas semanas houve dois indivíduos que reagiram ao assalto e acabaram agredidos.
Os conselhos que nós damos continuam a ser efetivos. Não resistir a este tipo de crime porque tem tendência a escalar. E, por outro lado, tentar estar atento a mais detalhes e pormenores que nos possam auxiliar naquilo que é a resposta imediata ou então posteriormente na investigação criminal, do processo-crime. Isso é o fundamental. Ainda por cima estamos a falar de situações em que, alegadamente, está a ser utilizada uma arma de fogo. Ainda não houve o recurso efetivo à arma, mas o potencial de uma situação destas pôr em causa a vida é elevado. E, portanto, tudo o que se fizer para reduzir esse potencial, melhor. Resistir eleva o potencial da agressão. Interessa-nos que o valor vida seja superior a qualquer valor de um bem material, seja ele qual for. Esta é a nossa posição de princípio, mas de princípio firme.
Falei com comerciantes da Avenida da Liberdade que dizem que estão bastante preocupados com os assaltos.
Não há nenhum epidemia de assaltos. Nesta altura do Natal e do Ano Novo tivemos um reforço de policiamento bastante elevado naquela zona.
Tiveram mas já não têm.
Pois claro, nessa altura tínhamos até o Corpo de Intervenção, a manta é curta, não conseguimos estar em todo o lado. Fazemos a análise e numa altura em que estava a haver uma grande afluência àquela zona da Avenida da Liberdade, com centenas, para não dizer milhares de pessoas, a circular naquela avenida com a atividade económica, foi fundamental reforçarmos o policiamento. Mas a cidade continua a viver e a cidade não é só a Avenida da Liberdade. Todas as pessoas, todos os comerciantes, sejam de onde forem, têm direito à segurança. O que pretendemos é que estejam todos eles seguros. Desde o comerciante de bairro ao da loja de luxo. Obviamente que, por norma, existe uma especial atenção àqueles que são mais alvo. Ou seja, se nós sabemos que existe um potencial maior para ocorrer uma situação de assalto numa zona de aquisição de bens de maior valor, claro que reforçamos o policiamento. Foi isso que fizemos no Natal. Continuamos a manter um policiamento mais visível nuns casos, noutros não tão visível. Mas tudo tem a ver, muitas vezes, com a questão da tática e da técnica policial que é aplicada, com o princípio que a segurança é igual para todos, mais ricos ou mais pobres.
Mas então acha que não há motivo para preocupação quando os comerciantes dizem que aquilo está a ficar um forrobodó das pessoas não se sentirem seguras?
Não, não é um forrobodó. O que se passa com estes comerciantes, como acontece com outros, e recordo que houve um assalto a uma ourivesaria aqui na zona de Loures, há pouco tempo, numa zona onde não acontecia nada e de repente criou-se um grande foco de instabilidade e insegurança. Ou seja, esse impacto é muito mensurável. Isso acontece, porque as pessoas têm conhecimento ou falam de um assalto que houve e isso causa um impacto direto naquilo que é a perceção da segurança das pessoas. Não há razão para alarme, há razão para estarmos atentos. E adotarmos as medidas preventivas, como é óbvio, por isso é que se fala na questão da ostentação, procurar não estar sozinho em zonas que seja algo, facilmente, de um assalto. Esta coisa de assaltar à porta da loja isso não funciona assim. Estamos a falar de situações em que as vítimas muitas vezes eram monitorizados e acompanhados durante quilómetros. Até se proceder ao assalto.
Diz-se que os assaltantes conseguem saber quem leva muito dinheiro vivo, devendo ter cúmplices.
Há 20 anos que acontecia, principalmente com os turistas japoneses, por exemplo, Os turistas circulavam com dinheiro vivo. Felizmente, há cada vez menos. O turista japonês era um turista que viajava com dinheiro vivo e com bastante. E por isso, a zona da Baixa Pombalina, era alvo dos carteiristas. Que ainda hoje existem, numa expressão completamente diferente, mas continuam a 'trabalhar' e agora internacionalmente. Só havia carteiristas portugueses, mas hoje não é assim. Foi um fenómeno até que começou no Euro 2004, em que detetámos a vinda de imensas pessoas associadas a essa atividade de carteirista. E vieram de propósito. Eu próprio, pessoalmente, apanhei vários, que eram adeptos de várias seleções, consoante o jogo mudavam de camisola. Em todos os jogos havia as mesmas pessoas, mas eram adeptos de uma seleção diferente. Estavam só cá para esse efeito. Porque são especialistas nessa matéria. De grandes aglomerações de pessoas, e pessoas com muito dinheiro vivo.
Acha que não há um aumento da criminalidade? Carlos Moedas, presidente da autarquia, garante que há um aumento da criminalidade e que é preocupante.
Preocupante é sempre, basta haver um. Agora, não é correto, estatisticamente, e como digo, isto ainda não são números consolidados, porque uma pessoa pode apresentar queixas em vários sítios, pode até haver pessoas que nem apresentam queixas. Todo e qualquer tipo de assalto é preocupante para nós. Agora, não é verdade que a cidade esteja ao abandono, não é verdade que existe um grande aumento da criminalidade. A criminalidade violenta e grave baixou no concelho de Lisboa em 2025. Mas isto não nos deixa descansados. Se há crimes cujas cifras negras são mais reduzidos, são exatamente esses, os violentos e graves. Essas cifras negras tendem a ser mais reduzidas, até porque muitos deles começam a ser conhecidos.
A criminalidade violenta e grave está a diminuir? A perceção e sensibilidade dos comerciantes e do presidente da Câmara não correspondem à verdade?
A criminalidade violenta e grave diminuiu, estatisticamente, em 2025 no concelho de Lisboa. Isso é factual. Agora, a perceção de segurança é outra coisa. Nós compreendemos essa parte. Na zona da Avenida da Liberdade, todas as ocorrências têm um impacto negativo na perceção de segurança. Não é ali, é em todos os lados da cidade. Acredito que tenha um impacto diferente para as pessoas que lá estão, mas a nossa preocupação é geral. No caso concreto da Avenida da Liberdade, naqueles grandes eixos, se nós não sentíssemos que era também uma prioridade para nós, não estaríamos, como estamos agora, a fazer, na fase da elaboração da proposta, o aumento da vídeoproteção na cidade, incluindo esses eixos.
Já pediram videovigilância para a Avenida da Liberdade?
Sim, é a nossa intenção apresentar uma proposta que inclua também este grande eixo, o eixo da Avenida da Liberdade, Restauradores, Marquês de Pombal, Fontes Pereira de Melo, Joaquim António Aguiar, António Augusto Aguiar. Aquela zona do grande eixo até às Amoreiras, Campolide, Parque. Interessa-nos também ter essa zona abrangida por vídeoproteção.
O que acha de Carlos Moedas ter dito que a PSP precisa de 500 polícias em Lisboa? Não percebi se era para a PSP ou para a Polícia Municipal.
Sim, o presidente da Câmara falava em 500 homens e mulheres para a Polícia de Segurança Pública. Não falava especificamente para a Polícia Municipal. E eu diria que sim, concordo que o Comando Metropolitano de Lisboa está deficitário em termos de efetivo. Isso é verdade. Não vou falar de 500, eu diria que se recebesse 100 ficava contente, se recebesse 500 mais contente ficava, se recebesse mil também não ficava chateado, como deve imaginar. Não tem a ver com números especificamente, mas posso dizer que em termos de números estamos muito deficitários e precisávamos de mais policias.
Há pelo menos duas dezenas desses assaltos à mão armada. Sei que uma deputada também foi assaltada na zona das Amoreiras.
Não posso confirmar, como deve imaginar, a identidade ou a qualidade das pessoas assaltadas.