Todos os dias, pela fresca, Regina Silva, 68 anos, cumpre um ritual: espreita à porta da sua casa térrea, numa freguesia antiga de Lisboa, e vê como é que está o tempo. É só um hábito porque mesmo que chova a cântaros nunca fica sozinha o dia todo. Veste-se a preceito e vai ao café da vizinhança tomar o pequeno-almoço. "Fiquei viúva há nove anos. O meu marido só tinha 63 anos e morreu de repente. Ele estava ao meu lado, morreu ao pé de mim", relata a viúva, por ali conhecida como "Formiga", alcunha que herdou do marido.
Além da viuvez precoce o casamento foi longo. Regina tinha apenas 14 anos e António 19. Corria o ano de 1971, quando se juntaram. A história de amor começou com um namoro de bairro numa coletividade: o Império do Cruzeiro. "Sempre fui uma pessoa muito sociável, sempre gostei de conviver e por isso não foi difícil conhecê-lo. Além disso morávamos perto. Eu morava perto do Império e ele morava um bocadinho mais abaixo, na mesma rua, com a mãe. Quando nos juntámos, desci a rua e fui morar para casa da minha sogra", recorda.
O impacto da morte do marido foi chocante. Só aos poucos Regina começou a recuperar e a voltar à sua vida normal. Alegre, sempre pronta a dizer uma piada, por vezes solta um palavrão em tom de brincadeira. Não consegue passar despercebida devido ao vozeirão; onde está é casa cheia. Não perde excursões organizadas
pelas junta de freguesia e convívios nas coletividades que agora frequenta, a Sociedade Filarmónica Recordação de Apolo – onde não perde um jogo do Benfica – e o seu Império do Cruzeiro, ambas na Ajuda.
Depois do almoço, normalmente fora, vai a casa ver a telenovela, mas por volta das cinco da tarde lá está no café. Encontra-se com as amigas, como Luísa, de 74 anos, que também não se deixa levar pela solidão.
"A noite é mesmo a pior altura"
A pior parte do dia é quando a noite cai. "A noite é muito triste, não gosto de estar sozinha. Mas tive de me ir habituando e seguindo em frente. O que me custa mais é mesmo a noite. De resto, há dias em que choro, outros em que me rio. Estar sozinha em casa é uma tristeza muito grande, a noite é mesmo a pior altura".
De resto, além das amigas tem ainda a visita permanente de uma das filhas e de um dos netos. Ricardo é diretor de produção numa companhia de teatro, o melhor amigo da avó e também o seu maior orgulho. "Ele tem uma vida complicada, porque não tem horas para trabalhar, tem de estar sempre disponível, mas sinto-me feliz porque ele está bem». Mesmo assim, o neto arranja sempre tempo para Regina. «Liga-me duas vezes ao dia! E convida-me muitas vezes para ir ao teatro".
Para ficar mais descansado, o neto de Regina Silva instalou uma câmara de videovigilância em casa da avó. "Não é que eu tenha alguma doença que me leve a passar mal. Ele quer estar sempre a ver-me. À noite, quando não me vê, telefona a perguntar onde é que eu estou. Às vezes estou só noutra divisão da casa, que a câmara não alcança", ri-se.
Luísa Silva, 74 anos, chega e senta-se no banco de jardim, ao lado de Regina. São amigas e partilham circunstâncias da vida. "Gosto muito dela. Além de nos darmos muito bem, a Regina é muito alegre", explica.
Luísa ficou viúva há seis anos mas só vive sozinha há quatro. Um dos quatro filhos continuou a morar com ela depois da morte do pai. Frederico só saiu de casa aos 34 anos. Apesar de ficar sozinha em casa, a antiga operária fabril e lojista, ficou satisfeita. "Ele já estava na idade de arranjar uma mulher!", opina, na véspera de ser avó da segunda filha de Frederico.
Tal como Regina, Luísa não deixa que a solidão a vença. Todos os dias, bem cedo, vai trabalhar. Por agora, já reformada, lava escadas. "O dinheiro faz-me falta, porque a reforma é pequena, e sempre me vou distraindo". Acabado o trabalho, vai para o café e cuida de animais de rua, sobretudo gatos. Em casa tem a sua Branquinha, uma gata branca, como o nome indica. "Esses sim, são os nossos maiores amigos. Nunca nos faltam", garante a mulher que, nas proximidades, todos sabem que se dedica aos animais de rua. Alimenta-os e acarinha-os. Eles retribuem.
"Adormeço e sonho com o meu marido"
A vida de Luísa nunca foi fácil mas ela nunca baixou os braços. Natural de Lamego veio para Lisboa aos 18 anos. "Eu vim para ter uma vida diferente. Lá na minha terra trabalhava no campo, a apanhar fruta e tudo. Quando cá cheguei trabalhei numa fábrica de cones e, mais tarde, numa loja de loiças".
Assim como Regina, Luísa também teve uma viuvez precoce. O marido, Armando, morreu com apenas 56 anos. "Ele fumava muito, bebia muito, acabou por morrer com um cancro". A noite também é a maior inimiga de Luísa. "Não sou de adormecer assim que me deito e vêm-me muitas coisas à cabeça. Depois adormeço e sonho muitas vezes com o meu marido. Muitas vezes mesmo".
Apesar de tudo, Luísa não trocaria a sua atual vida por outra, com companhia em casa. "Não quero cá homens! Sofri um bocado com o meu marido, por causa da bebida. Os meus filhos e os meus netos visitam-me muitas vezes".
Desta velha freguesia alfacinha, a Ajuda, passamos para outra bem popular, Campo de Ourique. É aqui que vive João Sardinha, 78 anos, cego e institucionalizado, por vontade própria, no Lar de Cegos de Nossa Senhora da Saúde. Entretanto, a mãe também chegou ao lar, vive paredes meias com o filho, mas mal o reconhece, devido a problemas de saúde. "Sabe, às vezes estamos no meio de muita gente, mas sentimos solidão". Foi por isso que não hesitou em pedir apoio à associação Coração Amarelo, que se dedica a acompanhar idosos. Tem uma voluntária, Laura, que é a sua melhor companhia todas as quartas-feiras, depois da 18h30, hora a que sai do trabalho.
João ficou cego aos 58 anos. Era casado e trabalhava em eletrónica. O divórcio levou-o a morar sozinho. "A minha adaptação a essa realidade foi bastante razoável. Nessa altura ainda trabalhava, embora com outras funções, e fazia tudo em minha casa. Só não fazia limpezas, porque sempre detestei", confessa o septuagenário. "Fazia comida para mim próprio, passava a ferro, lavava roupa, limpava a cozinha. Fazia uma vida como uma pessoa dita normal".
Foram dez anos a morar sozinho mas, também, sempre acompanhado. Recebia frequentemente amigos e colegas em casa. O que o fez desistir de morar na sua casa foram várias maleitas, que o levaram às urgências e a internamentos hospitalares. "Nessa altura comecei a ponderar a hipótese de procurar uma instituição".
A cegueira tardia sempre foi uma mágoa que não esquece. "Concebe imaginar, a primeira vez que me puseram uma bengala na mão? Até me vieram as lágrimas aos olhos. É um processo complicado, é uma mudança radical na vida". Mesmo assim, de regresso ao passado, orgulha-se: "Foi muito difícil mas tentei, e consegui, continuar a fazer a minha vida com a maior normalidade possível. Não deixava de sair, ir para aqui e para ali, ter com os amigos, e ainda hoje passeio todos os dias".
"Vou tomar um café todos os dias"
João agasalha-se, neste frio de um inverno rigoroso, e sai para a rua, com a mala e a bengala. "Vou tomar um café todos os dias, pagar alguma conta". Porém, em Campo de Ourique não fez muitos amigos. "Isto é um bairro muito residencial, as pessoas durante o dia não estão cá".
Uma simples ida à rua não é fácil para o invisual. Há várias barreiras arquitetónicas e é preciso fazer autênticas gincanas para não cair. Fica feliz por ainda encontrar pessoas que se preocupam em ajudá-lo. "É bom isso acontecer. Quando vou na rua, não consigo ter autonomia plena. Por vezes, criam-se situações em que preciso de ajuda. Além das tais barreiras arquitetónicas, mesmo quando não estão lá, há as bicicletas, as trotinetas, os caixotes de lixo, carros estacionados em cima das passadeiras, e tudo isso dificulta a minha circulação".
No lar também já fez amigos mas as conversas são, habitualmente, tristes. "Partilhamos umas coisas, talvez a negrura da vida. Sentimentos que nem sempre conseguimos exteriorizar". Escasseiam as visitas das filhas e dos netos. "Nunca me visitam. Nunca as questionei por isso, porque não sei se gostaria de ouvir a resposta. Normalmente sou eu que vou a casa delas".
João assume que há quem esteja pior do que ele. "Há pessoas que estão aqui abandonadas, não têm qualquer contacto familiar. Estão completamente entregues à instituição. No meu caso, enquanto tiver capacidades mentais e físicas, vou saindo e andando por aí".
Mas mesmo na roda-viva da vida João não deixa de sentir uma certa melancolia. "A nostalgia é uma coisa que muitas vezes me aparece. São as lembranças do passado, de ter as minhas filhas, os meus netos. É verdade…".
"Voluntária, amiga e confidente"
Laura, a voluntária do Coração Amarelo que lhe faz companhia uma vez por semana, chega e senta-se num sofá, ao lado de João. "A Laura tem sido uma mais-valia. É uma pessoa por quem tenho uma estima muito grande". Os elogios continuam. "Gosto muito dela. É uma jovem maravilhosa. E também gosto muito das atividades da associação. Vou muitas vezes a tertúlias e outros eventos e já fiz um grande amigo nessas ocasiões. É outro João. É um homem com uma grande visão do mundo e partilhamos muitas ideias", garante o idoso. Além das ideias, têm em comum, a paixão pela música. João Sardinha toca guitarra e chegou a tocar em bandas, nos anos 60, como os Chinchilas; o outro João toca guitarra portuguesa. Adivinha-se espetáculo numa das tardes de atividades da associação Coração Amarelo. "Gostávamos imenso de os juntar e fazer acontecer", acrescenta Laura.
Voltando à voluntária que o acompanha, João garante que faz imensas confidências a Laura, que chega todas as terças-feiras, ao final do dia. Sente-se completamente à vontade. "É aquela pessoa com quem eu partilho as coisas que, muitas vezes, não partilho com as minhas filhas. Os filhos, às vezes, têm um olhar inquisitório, invasivo. Acham que o pai exagera. Com a Laura isso não acontece e consigo partilhar muitas coisas".
Laura tem 36 anos, não tem filhos e é gestora de projeto. Curiosamente, o namorado também se chama João. "Ele não é ciumento", brinca a voluntária. "Aliás, já fizemos programas a três, como irmos ver o ‘Fantasma da Ópera’". Em dia de visita, João e Laura costumam, ainda, ir jantar fora, para pôr a conversa em dia.
A gestora de projeto começou a fazer voluntariado nos anos da pandemia de covid-19. "O tema dos idosos solitários já era muito falado e, nessa altura, ainda mais". Houve todo um processo até Laura tomar conta desta responsabilidade. "Demorou cerca de dois anos, porque tive de fazer o curso de voluntariado e depois ser avaliada. Depois o Coração Amarelo fez o match e encontrei o João. Acho que fazemos um bom par".
Enquanto está com João, Laura não pensa em mais nada. Aquele pedaço de dia torna-se diferente. "Como vamos à rua é giro porque tudo tem de andar mais devagar. Não só porque o João usa bengala, mas também porque fica muito curioso. Tenho de lhe dizer o que é que se está a passar à nossa volta, de que cor é que as pessoas estão vestidas…". Para Laura, fazer companhia a João também reverte a seu favor. "Não há silêncio, mas tudo fica mais calmo quando chego ao pé dele. Regresso a casa contente, com o coração quentinho, e, às vezes, também partilho muitas coisas da minha vida com o João".
"Ser extrovertido ajuda"
Sara Nunes, psicóloga do Coração Amarelo junta-se ao grupo. Veio acompanhar a visita da VERSA e conversar um pouco sobre o tema da solidão nos idosos. A psicóloga começa por explicar as diferenças entre estar sozinho em casa ou viver numa instituição. "A grande diferença tem a ver como é que as pessoas se adaptam no seu contexto. Os que vivem sozinhos, depende: se forem mais extrovertidos, tendem a socializar e não são tão prejudicados pela solidão. Os mais introvertidos, pelo contrário, chegam a estar sozinhos, isolados em casa, e ninguém sabe deles. Numa instituição, também acontece, por vezes, estarem rodeados de pessoas, mas com as quais não têm qualquer tipo de ligação, não têm nada em comum".
Viver mais ou menos solitário também é uma questão de personalidade "As características psicológicas são diferentes, em pessoas que se deixam ficar mais sós e nas outras que se abrem mais à comunidade", explica Sara Nunes. "Primeiro que tudo tem mesmo a ver com a questão da introversão e extroversão. Isso acaba por determinar se a pessoa tem mais facilidade, ou não, em fazer amizades".
Sara vê nos lares uma boa solução para os mais doentes e sem família.
"Há pessoas que já não estão cá, ou estão muito medicadas. Por isso, a questão da institucionalização é boa, no sentido de, ao menos, terem uma retaguarda institucional. Ao contrário, a pessoa que está em casa mas não tem retaguarda familiar, acaba mesmo por estar um bocadinho à margem da sociedade".
No Coração Amarelo, os voluntários trabalham com a solidão que não é escolhida. "Nos casos em que a própria pessoa acaba por se sentir só ou estar só, mas não por escolha própria. É porque as circunstâncias da vida assim o fizeram acontecer", prossegue Sara Nunes.
A delegação de Lisboa do Coração Amarelo fica nos Olivais. Por ali, apesar de já ser uma freguesia maior da cidade, continua a haver muitas relações de proximidade, tal como a de Regina e Luísa. "Tenho uma senhora que mora mesmo por cima de nós e que vai levar outra senhora, que mora num prédio mais à frente. E faz questão de ir levar sempre essa senhora. Lá vão as duas, a conversar, e acabam por criar aqui uma mini comunidade de par, de pessoas da mesma idade e, mais ou menos, com as mesmas circunstâncias".
É através das atividades semanais que o Coração Amarelo junta muitos idosos. E é nesses encontros que muitos fazem amigos, tal como aconteceu com João. "Estou apenas há um ano no Coração Amarelo mas já consegui perceber, já consegui ver amizades a florescer, com pessoas que noutros contextos nunca se haviam de cruzar", refere a psicóloga.
Muitos idosos também não se deixam ficar infoexcluídos e há nas ferramentas digitais um valor acrescentado. "É muito giro, porque eles falam pelo WhatsApp, ou seja, combinam planos e vão por eles próprios. E isso é o ideal. É mesmo isso que nós pretendemos: que as pessoas criem estratégias para combater a solidão. É muito compensador ver estas amizades a crescerem", conclui Sara, a psicóloga do Coração Amarelo.