Sensores dos pneus podem estar a rastrear o seu carro sem que saiba

Sistema TPMS obrigatório em todos os veículos modernos emite sinais não encriptados que permitem vigilância. Investigadores captaram dados de 20 mil carros com receptores baratos e expuseram rotinas diárias e hábitos de viagem
Sensores dos pneus podem estar a rastrear o seu carro sem que saiba

O sistema que controla a pressão dos pneus no seu carro (obrigatório em todos os veículos vendidos em Portugal desde 2014) pode estar inadvertidamente a expor os seus movimentos e rotinas diárias a terceiros. Um estudo do Instituto IMDEA Networks de Madrid revela que estes sensores emitem sinais não encriptados que permitem rastrear veículos de forma discreta e barata.

Investigadores recolheram mais de seis milhões de mensagens de 20 mil veículos durante 10 semanas, utilizando receptores de rádio simples que custam cerca de 100 dólares (90 euros) cada. Os dados permitiram mapear rotinas diárias completas de condutores, incluindo horários de chegada ao trabalho e hábitos de viagem.

"A nossa investigação demonstra que estas sinais podem ser usadas para seguir veículos e conhecer os seus padrões de movimento", alerta Domenico Giustiniano, professor no IMDEA Networks, citado pela agência EFE.

Sistema obrigatório há quase 20 anos

O Sistema de Monitorização da Pressão dos Pneus (TPMS) tornou-se obrigatório em todos os veículos novos vendidos na União Europeia desde novembro de 2014. O sistema utiliza pequenos sensores em cada roda para controlar a pressão e enviar alertas ao condutor.

No entanto, o estudo descobriu que estes sensores transmitem continuamente um número de identificação (ID) único através de sinais de rádio totalmente desencriptados. Qualquer pessoa com um receptor básico pode captar este sinal e reconhecer o mesmo veículo posteriormente.

Mais eficaz que câmaras de vigilância

O rastreio por TPMS apresenta vantagens sobre sistemas tradicionais de vigilância:

• Atravessa paredes e obstáculos — os sinais de rádio não precisam de linha de visão

• Receptores discretos e baratos — apenas 90 euros

• Impossível de detetar — receptores são passivos

• Funciona em qualquer condição — não afetado por clima ou escuridão

• Sem necessidade de matrícula — o ID único identifica o veículo

Os investigadores conseguiram captar sinais de carros em movimento a distâncias superiores a 50 metros, mesmo quando dentro de edifícios.

Seis milhões de registos em 10 semanas

Segundo o jornal El Mundo, a equipa instalou receptores de baixo custo perto de estradas e zonas de estacionamento. Em 10 semanas, recolheram mais de seis milhões de mensagens de mais de 20 mil veículos.

Os dados permitiram criar perfis detalhados revelando horários de trabalho, locais frequentemente visitados, padrões de deslocação e rotinas previsíveis. Além do ID único, os sinais incluem leituras da pressão, que podem revelar o tipo de veículo ou se transporta cargas pesadas.

Legislação não protege condutores

Apesar dos riscos, a regulamentação atual sobre cibersegurança automóvel não aborda especificamente a segurança dos sistemas TPMS. O Regulamento (UE) 2019/2144 não inclui disposições sobre encriptação de sinais TPMS. "Sem encriptação nem autenticação, os sensores dos pneus continuam a ser um alvo fácil para vigilância passiva", advertem os investigadores.

Em Portugal, a CNPD poderá pronunciar-se, dado que o rastreio sistemático sem consentimento pode violar o RGPD.

O que pode fazer

Não há solução simples: desativar os sensores pode ser ilegal e compromete a segurança, além de reprovar na inspeção periódica.

Soluções técnicas retroativas não existem atualmente. A melhor abordagem é pressão regulamentar para que fabricantes implementem encriptação em futuros modelos.

Estar ciente do risco é o primeiro passo. Evitar rotinas previsíveis e variar percursos pode reduzir exposição.

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