terça-feira, 10 fev. 2026

Roubos de luxo em Lisboa fazem soar alarmes

Mais de duas dezenas de pessoas ficaram sem os seus relógios de luxo quando viram uma pistola apontada à cabeça, por falsos motoristas de entrega de comida ao domicílio. No rol de vítimas há uma deputada e a família do conhecido chef Olivier Costa. PSP aposta na videovigilância e diz que criminalidade grave e violenta diminuiu em 2025.
Roubos de luxo em Lisboa fazem soar alarmes

São mais de duas dezenas as vítimas do denominado gangue do Rolex, numa perspetiva otimista, mas tudo indica que o número é bastante superior. O_caso mais conhecido é o do chef Olivier Costa, que há cerca de um ano ficou sem o seu Audemars Piguet, no valor de 100 mil euros, e a mulher, que ficou sem um Patek Philippe, no valor de 80 mil euros, há poucos meses. Para fechar o capítulo familiar, o filho de Olivier foi assaltado há pouco mais de uma semana, quando estava encostado ao seu carro.

Mas o Nascer do SOL sabe que uma deputada também está entre as vítimas do gangue do Rolex, que desde 2025 tem feito assaltos à mão armada na zona da Avenida da Liberdade, na António Augusto Aguiar, Amoreiras e Campolide. Oiçamos uma das vítimas, que prefere manter o anonimato. «Foi na véspera de Natal e chovia bastante em Lisboa. Por volta do meio-dia fui até a casa de um amigo que vive perto das Amoreiras. Não dei por isso, mas havia uma espécie de ‘estafeta’ atrás de mim, que parou a moto e eu pensei que ele ia entregar comida a alguém. Depois de deixar o presente, segui para casa e quando ia a virar para a Ferreira Borges, senti que me bateram no carro por trás. Percebi que era uma dessas motos de entrega de comida e fiquei preocupado que se tivesse magoado. Quando saí do carro fiquei logo com uma pistola apontada à cabeça e tirou-me, em segundos, o Rolex do pulso».

Artur, nome fictício, ficou fulo, pois conhecia dois amigos que tinham sido assaltados umas semanas antes precisamente pelo mesmo método. «Foi uma estupidez incrível. Esses dois amigos tinham-me contado que também tinham sido assaltados naquela zona e eu fui cair na esparrela. Depois vim a saber de mais uma quantidade enorme de amigos que tinham sido vítimas do mesmo crime». Depois seguiu-se a queixa na PSP e na Polícia Judiciária, pois é esta polícia que tem a investigação dos assaltos à mão armada.

Passemos para Nuno, vítima de assalto junto ao El Corte Inglés. «Acho que me ‘controlaram’ numa esplanada que estivera pouco tempo antes e seguiram-me até eu ficar parado num sinal, acabando por me bater por trás. Nem tive tempo de dizer nada, pois só senti uma pistola encostada à cabeça e ficar sem relógio».

 

Mudança de local

Se no princípio de 2025 os assaltos davam-se mais na Avenida da Liberdade, nos últimos tempos têm ocorrido mais na zona de Campolide, e na António Augusto Aguiar. «Eles, no princípio do ano, ‘pesquisavam’ nas esplanadas da Avenida da Liberdade e viam quem tinha um relógio de luxo. Depois seguiam-nos até ao momento do assalto. Além disso, também viam quem é que comprava produtos de luxo, nomeadamente de relojoaria, e ficavam à espera que essas pessoas fossem para o carro». O SOL sabe que a PJ, que tem uma equipa de dois elementos a tratar do assunto, já tem a fisionomia de três ou quatro dos supostos assaltantes, mas como atuam de capacete é difícil ter certezas. «Eu fui assaltado só por um, mas na Polícia disseram-me que era possível estarem mais dois nas redondezas para ajudar em caso de algum problema», conta Nuno ao nosso jornal. A PJ recusou prestar declarações, mas o SOL sabe que a equipa de Luís Neves está à espera há mais de três meses de verba para comprar uma moto, para conseguir perseguir os assaltantes se algum dia os encontrar em flagrante delito.

Também a deputada que foi assaltada terá uma história para contar, mas ninguém quer dar, e percebe-se, o seu nome. Já o chefe Olivier Costa não tem problemas em dar a cara. «Depois de eu ter sido assaltado e a minha mulher também, passámos a andar de guarda-costas. Isto está impossível. Tenho alguns amigos que também foram assaltados e sei que há umas semanas dois conhecidos que resistiram ficaram com marcas na cara, das coronhadas que levaram. Alguém tem de fazer alguma coisa para acabar com isto. Até em Marraquexe, à entrada das lojas há policiamento ou seguranças armados. O centro de Lisboa está a ficar perigoso», querendo sublinhar que os assaltos não são um exclusivo da Avenida da Liberdade. «Eu próprio e a minha mulher fomos assaltados na zona do Corte Inglés».

 

Roubos por arma branca

Se o gangue do Rolex continua a monte, há muitos comerciantes das áreas mais afetadas pelos assaltos que se mostram bastante preocupados. «Portugal, e nomeadamente Lisboa, era escolhido pela segurança._Se isto não melhora, é natural que comecem a optar por outros destinos», desabafa um dos comerciantes.

Quem não tem dúvidas de que há um aumento da criminalidade é Carlos Moedas, presidente da autarquia lisboeta, que ao SOL diz ser indispensável que entrem mais 500 polícias para a PSP, para policiarem Lisboa. «Perdemos mais de 1000 polícias nos últimos 15 anos e o Governo deve isso à capital. Precisamos, pelo menos, de 500 polícias de segurança pública». Questionado se tem recebido queixas de comerciantes, diz que sim, mas não consegue quantificar, embora diga que não tem dúvidas de que há um aumento «dos assaltos violentos».

E o que tem a PSP a dizer sobre as queixas dos roubos do Rolex e da restante criminalidade? Tem a palavra o superintendente Jorge Resende, chefe da Área Operacional do COMETELIS. «Esse tipo de roubos, principalmente à mão armada, são fenómenos que não são nacionais, já aconteceram e acontecem noutras capitais europeias. E nós tivemos várias situações dessas, até 2024, onde chegámos a deter um indivíduo, e depois houve um período de estagnação. Depois voltaram em 2025, e apesar de a investigação ser da responsabilidade da Polícia Judiciária, nós fazemos um trabalho preventivo. Estamos neste momento em fase de elaboração de uma proposta de projeto de aumento da capacidade de videovigilância na área da cidade de Lisboa, que inclui a zona do grande eixo central da cidade, como seja a Avenida da Liberdade, Fontes Pereira de Melo, até às Amoreiras, e a zona do Corte Inglês».

Sobre os assaltos violentos nesse eixo central, explica que é normal que os assaltantes procurem zonas onde há supostamente poder de compra, e que por isso a PSP está atenta a essa área, bem como a todas. «Se nós sabemos que existe um potencial maior para ocorrer uma situação de assalto numa zona de aquisição de bens de maior valor, claro que nós temos um esforço de policiamento, razão pela qual no Natal nós fizemos isso. Continuamos a manter um policiamento mais visível nuns casos, noutros não tão visível. Mas tudo tem a ver, muitas vezes, com a questão da tática e da técnica policial que é aplicada. A segurança é para todos, sejam mais ricos ou mais pobres», acrescenta o responsável policial.

Para Jorge Resende, «não há razão para alarme, há razão para estarmos atentos. E adotarmos as medidas preventivas, como é óbvio. Procurar não estar sozinho em zonas que seja alvo, facilmente, de um assalto. No caso dos roubos do gangue do Rolex, sabemos pelos testemunhos que foram prestados nas nossas esquadras, as pessoas foram perseguidas durante quilómetros. É preciso estar atento a esses pormenores».

O superintendente não desvaloriza os assaltos, «basta haver um para ser preocupante», mas garante que, apesar de faltar ainda consolidar os números, «a criminalidade violenta e grave no concelho de Lisboa, em 2025, diminuiu». E a sensação que tem no corrente ano é que continua a descer. Mas então qual a razão para haver cada vez mais uma sensação de insegurança? «Recordo-me que houve um assalto a uma ourivesaria aqui na zona de Loures, há pouco tempo, numa zona onde não acontecia nada. De repente, criou-se um grande foco de instabilidade. Isso acontece porque as pessoas têm conhecimento ou falam de um assalto que houve e isso causa um impacto direto na perceção da segurança das pessoas». Se for assaltado, recomenda Jorge Resende, não resista e entregue os bens ao assaltante.