A vista lá bem do cimo da Serra da Freita faz com que a paragem seja obrigatória. Ao pôr do sol deslumbra: a bola de fogo perfeita pinta o céu e o mar que entra pela Barra e se espraia nos braços de Aveiro e das gadanhas de Ílhavo, para lá da Costa Nova e de S. Jacinto até ao Furadouro ou Pardilhó, passando pela Torreira, pelo Areínho, pelos saleiros espalhados de Pardelhas ao Bunheiro, e até Estarreja. E o Bico da Murtosa, abrigo de bateiras, mercantéis e moliceiros com as suas proas pintadas com a pureza da arte infantil e um humor brejeiro. Os braços da Ria são caminhos perfeitos para aquele povo de pescadores que Raul Brandão descreveu como ninguém. E na maré cheia envolvem-nos ora com as suas ondas revoltas com a nortada que nos entra pelos ossos, ora na acalmia de águas espelhadas que dobram os flamingos, as garças, os patos, as gaivotas e as cegonhas que inundam a reserva natural deste paraíso na Beira Litoral.
Que cores! Qual quadro de Cândido Teles ou painel de Zé Penicheiro. O tempo não parece ter passado por ali. Mas já lá vamos.
Com esta vista, a Serra Encantada – como é conhecida a da Freita – ainda o fica mais.
Lá de cima até ao mar, há muito por encontrar ou onde nos deixarmos perder. Das aldeias de pedra (granito, lousinha e xisto) aos caminhos agora verdejantes cobertos pelas copas das árvores (ai que o fogo tem lá andado por estes dias a matar tanta beleza e vida sem dó nem piedade). No outono não é menos bonito, com os amarelos e os castanhos das folhas caducas a misturarem-se quais aguarelas de hipnotizar.
Os Passadiços do Paiva ou a Ponte 516 são por demais conhecidos e concorridos, mas há muito mais que ver e percorrer no Geopark de Arouca. Das cascatas aos rios que se podem descer de canoa, caiaque ou rafting: o Caima, o Paiva, o Frades, o Vessadas. E há passeios de buggy e de jipe.
E seguimos em direção ao mar. E à Ria. Quem passa por Ovar, pode fazer paragem no Areínho ou na Esplanada da Ria (o velho Guedes) da Torreira, onde as tostas são de morrer, sobretudo se acompanhadas da vista do varandim – para a ria e para a serra, sim, essa, a Encantada.
Quem vem por Estarreja, também não fica mal se parar para uma refeição de excelência na Casa Matos, em Salreu (mas só aos fins de semana), ou mais adiante, em Pardelhas, na tasquinha Casa Catrazana, para uma sanduíche de rojões soberba, ou no Escondidinho, que tem umas enguias de escabeche como só se come naquela terra, logo a seguir à Praça Jaime Afreixo. Ainda há cachitos no Emigrante, patas de veado no Café Central, ovos moles e pão de ló na pastelaria Âncora (que era a casa mãe do velho Guedes), no Monte, ou um gin no Farol da Ribeira de Pardelhas. Quanto à regueifa, a melhor compra-se à saída das missas, aos sábados e aos domingos, nas tendas montadas às portas das igrejas pela mulher e pelos filhos do Sr. João, que anda a distribuir os tabuleiros com as regueifas mais os caladinhos e as cavacas.
Sim, porque estamos na Murtosa, voltemos a Raul Brandão:
«É um sítio para contemplativos e poetas, qualquer fio de água lhes chega e os encanta»