Passa pouco das nove e meia da manhã, de uma terça-feira. A equipa F3C (Força Conjunta de Combate aos Carteiristas) da Divisão de Investigação Criminal (DIC), de Lisboa, dedicada aos furtos por carteiristas, reúne-se para um briefing sobre o novo dia que está a começar. Dividem-se os elementos por zonas. Dois ficam apeados na Baixa de Lisboa; três seguem de carro para uma vigilância geral a várias áreas da cidade. Todos à paisana. O objetivo é só um: apanhar carteiristas em flagrante delito e conseguir fazer as respetivas detenções.
Saímos da esquadra, na rua da Palma, mesmo à beira do Martim Moniz, com os três operacionais num carro descaracterizado. O carro vai percorrendo algumas das zonas mais apetecíveis para os carteiristas, aquelas onde há maiores aglomerados de turistas. Dali seguimos para a praça da Figueira, Rossio, Restauradores, avenida da Liberdade e, já na zona ocidental da capital, Belém.
Asiáticos com milhares no bolso
Ainda antes, mesmo junto ao teatro D. Maria II avistamos um grupo de potenciais vítimas: japoneses idosos, alguns com mobilidade reduzida. «É fácil encostarem-se a eles para tirarem o que têm no interior das malas. Geralmente os turistas, quando vêm para cá, estão mais relaxados, descuram um bocado a segurança e têm aquele hábito de meter a mochila às costas», observa o agente Roberto Lourenço.
Os asiáticos têm, ainda, uma particularidade que os torna desejáveis pelos carteiristas. «Nos grupos asiáticos, muitos deles trazem dinheiro vivo, andam geralmente com embalagens com quantias de dois mil, três mil, quatro mil euros, quando não andam quase com dez mil euros», prossegue o agente. E dá um exemplo. «Eles têm esse hábito de andar sempre com dinheiro vivo. Já estivemos em situações de furtos, em que a vítima tinha dois mil euros em dinheiro com ela, ou mais!».
Objetos de grande valor também já foram furtados por carteiristas, em Lisboa. «Já tivemos uma peça em jade, inicialmente julgávamos que aquilo era uma peça de bijutaria barata, uma coisa de dois ou três euros. Entretanto, quando fizemos a detenção e questionámos a vítima sobre o valor das coisas, essa pequena estatueta valia cerca de dez mil euros».
Quanto ao dinheiro vivo, as mulheres carteiristas encontraram um método de o esconder que lhes facilita a vida. «Elas quando apanham a quantia monetária, muitas vezes enrolam o dinheiro o mais rápido possível e introduzem na área genital, mais concretamente na vagina, para ocultar o dinheiro», revela o agente Lourenço.
A prática, garante, é bastante usual. «Nesses casos, infelizmente não conseguimos recuperar o dinheiro. Quando há uma suspeita de uma situação dessas, só se a carteirista quiser colaborar e entregar o dinheiro, mas muitas vezes não entrega. A pessoa é sujeita a uma revista mas, no que toca às partes íntimas, isso já é considerado um ato médico, só com a sua autorização. Temos de respeitar o pudor das suspeitas», conta Roberto Lourenço.
As carteiristas estão preparadas para tudo e a par das leis de cada país. «Basta ela se recusar e não há nenhuma forma de recuperar o dinheiro, basicamente. Acaba por acontecer bastante porque as próprias já conhecem parte da lei e sabem que não podem ser obrigadas a nenhum ato desse género, que envolva as partes íntimas». Quanto a detenções, têm de ser feitas em flagrante mas, normalmente, dependem da queixa da vítima, devido a estes crimes serem semipúblicos.
Criminosos itinerantes
O perfil do carteirista também mudou ao longo dos anos. Atualmente são estrangeiros, de ambos os sexos. Há muitas mulheres a fazer este ‘trabalho’. «Neste momento temos um grupo ativo, são três mulheres, uma mais velha que faz a vigia e as outras duas, que são gémeas, e se focam nos furtos, em tirar as carteiras e outros objetos de valor, às vítimas», desvenda o polícia. Ao mesmo tempo, mostra-nos um vídeo onde se vê a tripla em ação. Só que desta vez o furto foi abortado. As mulheres foram avisadas de que havia polícia no local: a passagem pedonal para a Torre de Belém. «O que acontece, é uma coisa cultural deles, é que as mulheres andam pela Europa a praticar os furtos e os maridos ficam no país de origem, a tomar conta dos filhos», realça o agente Lourenço. «Nos seus países conseguem ter casas enormes e luxuosas, vestem as melhores marcas e carregam-se de ouro», avança, enquanto nos mostra diversos vídeos, das redes sociais de algumas das carteiristas, que comprovam o que diz.
Os métodos utilizados nos furtos também começam a modernizar-se. «Recentemente tivemos também situações em que já estão a utilizar métodos mais avançados, como conseguir fazer leituras de cartões multibancos». Seguem-se compras milionárias sobretudo em ourivesarias e lojas de luxo. «Furtam os cartões e, basicamente, compram peças em ouro. Tivemos um processo em que a quantia chegou aos 60 mil euros».
Mas pode ir além. «Há cartões que não têm limite de plafond, como por exemplo, os American Express, e não precisam de código, basta fazer uma assinatura. Chegam a fazer compras, de uma só vez, de 20 mil euros». Nestes casos, o crime já não é só de furto. «Acabam por ser três crimes: furto, utilização indevida de garantia bancária – neste caso os cartões – e depois a própria falsificação da assinatura», explica o agente Roberto Lourenço.
Os carteiristas, na maior parte oriundos de países do Leste, como a Roménia, Bulgária, Polónia ou Croácia, movimentam-se de país em país. «Este fenómeno é interessante. Porque no passado, há mais de 20 anos, 30 anos por aí, a esmagadora maioria dos carteiristas eram pessoas da cidade de Lisboa», começa por desvendar o intendente Rui Costa, comandante da DIC e responsável pela F3C. «Os carteiristas, hoje, integram um conceito que nós chamamos de criminalidade itinerante. São, na esmagadora maioria, grupos de cidadãos estrangeiros e que vão vagueando pela Europa, com uma grande capacidade de mobilidade. Podem estar dois ou três dias, em Lisboa. Ir dois ou três dias ao Porto. Depois vão para Barcelona, Madrid, Roma, por aí fora. Estes são a maior parte dos grupos de carteiristas por toda a Europa. Têm esta forma de atuar».
Um crime hereditário
Estes criminosos atuam, normalmente, em pequenos grupos e trocam informações entre si em grupos de WhatsApp, para se posicionarem nas cidades que «estão a dar mais», relata o agente Lourenço. No entanto, de acordo com o intendente Rui Costa, não se pode falar em crime organizado. «Não temos certezas absolutas. Quando nós falamos em crime organizado, queremos dizer que há uma estrutura por trás de tudo isto e que manda os operacionais para a frente. Já tivemos alguns casos que indicaram que isto poderia acontecer. Mas tivemos também outros casos, se calhar a maioria, em que chegamos à conclusão de que são pessoas que se organizam elas próprias num grupo e que andam pela Europa. Porque já o tio fazia isto, o primo ou alguém da terra deles…».
Certo é que os pequenos grupos têm alguma organização. «Eles organizam-se em grupos e têm alguma capacidade logística. Além disso, têm pessoas localmente bem colocadas para os ajudar com alguma parte logística, não temos dúvidas disso», observa Rui Costa.
No decorrer da reportagem, a VERSA tomou conhecimento de dois casos de auxílio a este tipo de criminalidade. Um taxista, que acabou por ser afastado do serviço quando a firma para a qual trabalhava tomou conhecimento da sua atividade paralela, e um vendedor de gelados. «Esse taxista acompanhava-as aos sítios, permanecia no local enquanto elas faziam os furtos, e depois transportava-as para outros locais da cidade. Claro que deveria ter alguma comissão, já se sabe que uma mão lava a outra e as duas lavam a cara», conclui o agente Lourenço. «Depois, havia um vendedor de gelados, nos Restauradores, que ia fazendo vigilância, já conhecia alguns elementos policiais, e quando os via avisava as carteiristas, que mudavam de posicionamento».
Por cá, os carteiristas instalam-se em pensões baratas, da zona das avenidas Almirante Reis, Morais Soares e praça do Chile. Afinal de contas, a estadia será curta e cirúrgica. «Eles viajam. E esta facilidade que eles têm em hoje estar aqui, fazerem três ou quatro carteiras, e amanhã estarem em Barcelona, é óbvio que dificulta sobretudo a nossa capacidade de investigar. Daí que, neste tipo de investigações, para além de investirmos fortemente num flagrante delito, é fundamental investirmos ao nível da cooperação internacional», revela o intendente Rui Costa.
Conhecidos pela Europa
Polícias portugueses já estiveram envolvidos em operações no estrangeiro e operacionais de outros países também já passaram por Portugal. «Estamos em rede. Há equipas espalhadas pela Europa, nos outros países, que têm esta especialização também. E nós estamos, de alguma forma, coordenados com eles. Quer em metodologias de trabalho, quer no nível da cooperação internacional com alvos», explica o intendente. «Por exemplo, há alvos que estiveram em Berlim, ou que foram detidos em Berlim, e que três ou quatro anos depois aparecem aqui em Lisboa. Isto é comum acontecer. E essas equipas, que têm um enquadramento da Europol, partilham operacionais em grandes eventos». E dá exemplos: «No ano passado vieram colegas de outros países, que estiveram cá no Santos Populares. Estiveram cá colegas durante a visita do Papa Francisco. Nós fomos à Oktoberfest».
Esta articulação com polícias de outros países acaba por fortalecer a ação contra os carteiristas. «Há um grande benefício na partilha de experiências. Quando vamos a um evento como o Oktoberfest, vemos uma dimensão completamente diferente. É um evento muito diferente daquilo que estamos habituados. Sair da nossa zona de conforto aumenta a nossa capacidade de trabalho».
Os carteiristas, pela sua mobilidade transnacional, acabam por ser caras conhecidas de grande parte das polícias europeias. «Já tivemos situações em Portugal de colegas estrangeiros que detetaram cá alvos que já tinham detetado nos países deles. Isso também é interessante. No fundo há uma partilha das experiências e metodologias de trabalho que é absolutamente essencial e permite-nos ver outras formas de atuar. Permite-nos ver outros equipamentos e meios de deteção que os nossos colegas utilizam. E até mesmo formas de furtar, que são diferentes, mas que inevitavelmente vão chegar a Portugal».
O agente Lourenço mostra como se processa esta interação entre polícias de várias nacionalidades, no terreno. «Tivemos duas raparigas croatas que se dedicavam a furtos nos comboios. Fizeram vítimas a nível nacional porque atuavam, sobretudo, nos alfas pendulares. Conseguimos recolher fotografias delas, em que elas se apresentavam com dez nomes diferentes a nível europeu», conta. «Neste caso, grande parte da informação veio lá de fora. Foi um colega de Zurique que nos passou a informação e conseguimos chegar à identificação verdadeira das carteiristas e da família. Era uma família organizada que só se dedicava a este tipo de furtos».
Os grupos de carteiristas, de acordo com o polícia, conhecem-se entre si e vão fazendo as mesmas rotas e as mesmas cidades. Os grandes eventos chamam mais carteiristas e mais polícias. «Nos Santos Populares temos sempre de fazer um reforço de policiamento», exemplifica o intendente Rui Costa. Já o chefe Vítor Sousa, que esteve no Euro 2024, na Alemanha, teve uma experiência que vai ao encontro desta metodologia transeuropeia dos carteiristas. «A primeira detenção que fizemos, por lá, foi de um indivíduo que já tínhamos encontrado em Portugal. Somos capazes de encontrar as mesmas personagens aqui em Lisboa, em Madrid, Barcelona, Milão ou Paris».
Um mercado paralelo
O furto de carteiras, além dos prejuízos que acarreta para as vítimas, arrasta um vasto mercado de economia paralela. «De uma maneira ou de outra o furto é sempre rentável. Vamos supor que é furtado um telemóvel e o dono manda bloqueá-lo. Mesmo que os telemóveis estejam bloqueados temos o mercado paralelo das peças», analisa o agente Roberto Lourenço. «Se o telemóvel for vendido por 100 ou 200 euros a uma loja de reparação de telemóveis, as peças são utilizadas na reparação de outros telemóveis».
Existem receptadores para todo o tipo de produtos. O agente Lourenço dá conta de uma investigação que começou no Reino Unido e que acabou na Roménia. «Havia muito furto, em supermercados, de champôs, gel de banho, maquilhagem, produtos de beleza. E, na Roménia, havia uma pessoa que se apresentava como fornecedor das marcas de diversos produtos. O que acontecia é que os produtos furtados por diversos grupos em Inglaterra eram encaminhados para a Roménia, onde esse indivíduo vendia os produtos».
Continuamos o percurso por Lisboa e, de Belém, regressamos ao centro da cidade, desta feita ao largo de Camões, no Chiado. As duas equipas – a da viatura policial e os polícias apeados – reencontram-se. Já vamos a meio da manhã e ainda não houve qualquer ocorrência. Seguimos para o Castelo, outra das áreas críticas no que diz respeito aos carteiristas. Continuamos sem avistá-los. «Noutra altura, só neste percurso, já teríamos visto uns 40», garante um dos agentes.
A atividade também é sazonal. «A Páscoa é uma altura muito crítica, porque somos invadidos por muitos turistas, sobretudo espanhóis, tal como o verão ou os grandes eventos, como festivais e concertos», explica o intendente Rui Costa. «No Natal, quando é feito o mercado de Natal no Rossio, também temos de estar muito atentos e reforçar o contingente».
Cautela nunca é demais
No Castelo, junto a uma longa escadaria que vai desembocar em Alfama, muito usada por este tipo de criminosos, continuamos sem os avistar. Porém, todo o cuidado é pouco. E, apesar de os portugueses não estarem tão sujeitos às mãos leves dos carteiristas, qualquer pessoa pode ser vítima. Para prevenir cada um deve estar atento ao que se passa à sua volta e não facilitar a ação dos carteiristas. «Há um comportamento padrão. Por exemplo, aquele casalinho com o mapa, encostado à pessoa da frente. Os locais onde sabemos que vão passar excursões também são perigosos, uma escadaria ou uma esquina. Vamo-nos apercebendo dessas dinâmicas», adianta o intendente Rui Costa.
Os turistas acabam por ser vítimas mais fáceis e preferidas, por um lado por andarem com muito mais dinheiro do que os portugueses, e, por outro, por estarem distraídos. «A maior parte das pessoas sente-se segura em Lisboa. É uma cidade segura. Então, não têm cuidados – que todos devemos ter – e andam com as mochilas às costas, a ver os mapas, andam distraídas, entram e saem dos transportes sem quaisquer cuidados, sem retirar as mochilas, as mochilas sem qualquer cadeado nos fechos. E isso potencia o crime», alerta Rui Costa.
Os números não enganam e o furto por carteiristas continua a ser bastante preocupante para as autoridades. «Muitas vezes quando há um crime violento, alguém que leva um tiro, isso dá muito nas vistas. Mas este tipo de crime é capaz de afetar mais o dia a dia das pessoas», observa o intendente. Desde que a F3C foi criada, em 2018, já foram recuperados mais de três milhões de euros provenientes destes furtos e 65 pessoas foram condenadas a penas de prisão efetiva.
12 anos de prisão foi a pena mais alta atribuída a um indivíduo que se dedicava a furtos de oportunidade em bancos, restaurantes, hotéis e outros estabelecimentos. Outro elemento foi condenado a oito anos e seis meses de prisão por furto de carteiras em centros comerciais e lojas.
A participação da equipa dedicada ao furto por carteiristas, a F3C, em eventos internacionais, também tem dado frutos. No Euro 2024, realizado na Alemanha, os polícias portugueses detiveram um romeno, por furto de carteira a um adepto da República Checa; três bósnias, por furto de carteira a uma turista dos Países Baixos; e um argelino, por ter furtado a carteira a uma adepta da seleção turca.
A convite da polícia belga, a F3C esteve no Gentse Feesten, em Gante, na Bélgica, em julho de 2024. E, também aqui, os polícias portugueses foram certeiros. Detiveram dois homens por agressão e roubo de telemóvel, tendo a vítima ficado em coma e sujeita a intervenção cirúrgica. Outros dois foram detidos por serem procurados por roubos, tendo sido a sua foto divulgada no briefing prévio à ida para o terreno. Um homem foi detido por usar um cartão bancário furtado e outro por importunação sexual. Já no Oktoberfest, na Alemanha, em 2023, 24 e 25 foram detidas 10 pessoas por furtos e burlas.
No ano passado, em Lisboa, foram detidas 89 pessoas, tendo ficado 16 em prisão preventiva e 6 condenadas a prisão efetiva. Desde janeiro deste ano até ao momento já foram feitas 30 detenções e recuperados mais de sete mil euros, produto dos furtos.
Neste dia, acabámos por não encontrar carteiristas mas eles andam aí. «Isto é um jogo do gato e do rato. Podemos estar parados num sítio e observar logo uma ocorrência, assim como podemos andar um dia inteiro a percorrer diversas zonas e não ver nada», resume o agente Roberto Lourenço.